sábado, novembro 26, 2016

FARóis

"Tem uns olhos bonitos."
A sala de repente em silêncio e todos os movimentos suspensos no tempo.
"Estará a falar comigo?"
A dúvida em surdina e a minha cara a aquecer.
"Tem uns olhos bonitos."
A rapariga, até ali invisível e camuflada no restaurante, a aparecer, a fazer-se ouvir.
"Obrigada."
A voz embargada, escondida no vermelho da cara e na surpresa da afirmação. 

E os movimentos que se apressam a recuperar o tempo.
E a banalidade da frase a instalar-se no rápido avanço do assunto de conversa.

Ainda o calor, a dúvida e a surpresa em surdina.
E eu de repente invisível, camuflada na banalidade da conversa que me ignora.
E a noite, branca, que acaba longe do restaurante e da rapariga e de ti.

"Tem uns olhos bonitos." 
E a lembrança de outras noites a acordar, quando as frases ainda estavam vivas e os meus olhos eram dois faróis que te iluminavam.

Liliana



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