quinta-feira, março 03, 2016

Chuva

Deixo cair uma pinga de chuva em cima do cetim rosa que coso em forma de envelope, onde penso guardar o meu livro.
Nos ouvidos dizem-me "why worry.. and all the rest is by the way". É de noite e a paz que não consigo agarradar, espalha-se pelos quartos dos miúdos e espelha-se nas suas respirações.  É tão bom conseguir deitar a cabeça na almofada e ir, sem fantasmas, nem medos, nem inquietações. 
Arrumo-me na escrivaninha antiga de madeira escura e volto para os tecidos e as agulhas e as linhas coloridas. Sinto um arrepio dentro do corpo, nos ossos, nos músculos. O frio que sinto por dentro consegue tomar conta de todo o quarto. 
E mais um gota de chuva que molha o cetim rosa. Largo as agulhas e procuro o calor de alguém que não está. 
Visto tão profundamente as personagens que crio, que já ninguém me reconhece. 
A lua, indiferente a mim e à chuva que vai manchando os tecidos, diz-me que estou presa à minha máscara. E nos ouvidos "anoiteceu no neu olhar de feiticeira de estrela do mar". 
Não consigo ir deitar-me e não me interessa já a bolsa para o livro. 
Não, aqui onde estou, não está ninguém e provavelmente ninguém cá chega. 
Deixo cair uma pinga de chuva na mão e encosto a cabeça na escrivaninha antiga de madeira escura. 
Está frio, cá dentro. 
Estou só, cá fora. 

Liliana 


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