quarta-feira, março 16, 2016

conCHA

A minha concha tem paredes feitas de giz. Brancas como a cal, pintam-me as mãos quando as tento afastar.

A minha concha tem paredes de vidro. Levo-a comigo onde quer que vá e, escondo-me nelas sempre que o vento norte me arrepia. 

Boneca de loiça a dançar a valsa que eu própria canto. É dentro do búzio que me protejo dos barcos fantasma que, "a noite, ao seu costume transfigura". 

Desenho vestidos madrepérola cosidos nas abas da minha concha. Enfeito-me com eles e mergulho num cenário colorido à força dos sonhos que guardo na palma da mão. 

Oculto a concha até de mim, escondo-a quando sorrio e abafo-a sempre que falo. Se não te mostro que a tenho é porque nem eu a vejo ao espelho. 

Vou-me enrolando nas margens em caracol e quando me encontro é bem no fundo do coração que estou. Espreito a cada alvorada mas recolho-me ao nascer do Sol. 

A minha concha é feita de recortes dos dias que se dizem nossos. Colo-os na parede que me rodeia e embalo-me com as ondas do mar. 

A minha concha tem paredes feitas de nuvens. Voo no branco-cinzento da sua forma desenhada sobre os azuis do céu primaveril. Afago os verdes das copas das árvores que se reflectem nos meus olhos e, nua de medos, acordo nos castanho-esverdeado dos teus. 

Liliana 





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