domingo, janeiro 31, 2016

hiaTO

Rodas a chave na fechadura e fechas tudo lá fora. Enquanto a cidade se apaga, cá dentro abrimos um hiato de tempo num mundo só nosso.

Estendes-me a mão, como pedi, e levas-me e até ti. Debaixo dos lençóis, que já me tratam por tu, os corpos encostam-se com a calma de quem conhece de cor as curvas do caminho. A minha pele, quente, arrepia-se ao toque da tua e um ligeiro tremor percorre-me o corpo. Estou deitada ao teu lado e todos os meus poros te sentem aproximar.

Desligas o candeeiro e sussurras que o faça também, mas com a tua mão a passear pelo meu corpo não consigo (nem tento) esticar o braço, e a luz, alada, fica por apagar.

Nunca consegui resistir ao toque dos teus dedos e sem esforço deixo-me ir, contigo, em mim. Sei-te aqui quando a tua cintura, aos poucos, inicia uma dança de ida e volta numa maré que já deixa adivinhar o maremoto que seremos. Entre as pernas que se confundem com os braços e as línguas que se trocam em beijos, a respiração do quarto adensa o ambiente húmido do tango que dançamos.

Os corpos misturados, feitos um, desfeitos em dois e novamente unos, deslizam por entre os gemidos ora audíveis, ora calados. O meu coração encontra o bater do teu e, a par, acertam a cadência das pulsações. As mãos, as minhas nas tuas, agarram o momento que sustêm juntamente com a respiração, até que desabam as paredes e as janelas e a luz e o quarto inteiro que se faz corpo, nosso.

Perco-me em ti todas as vezes que te encontro em mim. E é em mim que te sou, numa maré viva que rasga a carne à força duma vontade ancestral e nos faz onda que rebenta na rocha e se desfaz em espuma na areia cor da pele.

Estendes-me a mão, como te pedi, e trazes-me de ti. Debaixo dos lençóis que tão bem me conhecem, o meu corpo acorda do calor do teu, com a calma de quem sabe de cor as curvas do caminho de regresso.

Esticas o braço e apagas a luz.  

Estou deitada ao teu lado e a respiração, a par, volta aos poucos ao normal, até que, aos poucos também, se atrasa e arrasta num sono leve, livre. Lá fora, fechado à chave, suponho o mundo. Mas cá dentro, com a cidade apagada, um hiato de tempo só nosso.

Liliana



Enviar um comentário