sábado, janeiro 16, 2016

aVÔ

Não sei onde estás. 
Pergunto-me todas as semanas, onde será que descansas? 

Questiono-me vezes sem fim... 

Será que olhas por mim nas noites brancas que partilho com os meus fantasmas? 
Conhecer-me-ás os passos nesta cidade que me acolhe e me oprime numa história de amor à beira-rio, vivida de costas para Lisboa? 
Saberás dos meus medos ao apagar a luz do corredor que acaba no meu quarto? 
Ouvir-me-ás cantar, ainda e sempre a cantar, as tardes de domingo passadas na cozinha no meio de tantas receitas que não poderias comer, mesmo se ao meu lado? 
Reconhecer-me-ás nas palavras que escrevo, nesta história que embalo, conto e reconto em mil e uma formas que vou baptizando com mil e um nomes?
Encontrar-me-ás neste caminho tão comprido, nesta viagem tão longa e, decerto, tão distante do que sonhaste, um dia, para mim?

Rever-te-ás nos pequenos nadas, tudos enfim, em que no dia-a-dia te trago comigo?
Nos tamanhos das minhas saias, nunca muito acima do joelho...
No arroz, quase sempre presente na mesa de jantar...
No sorriso espontâneo ao ouvir, por exemplo, o Variações...
Na vontade de paz a acompanhar o almoço....
Nas torradas partilhadas com os meus (será que me reconheces neles?) a fazer lembrar os nossos lanches....
Nos dedos, livres há tantos anos, que eternamente procuram o cigarro...
No gozo de estar com outros, comer com muitos, em casa de preferência....
No fado, o de Coimbra, trauteado com saudades de ti....

Não sei onde estás. 
Pergunto-me todas as semanas, onde será que descansas?

Será que sabes que escrevo, tantas vezes de ti e para ti?
Será que viste que tive filhos, homens que tanto querias?
Será que leste o livro que escrevi?
Será que me viste plantar um pinheiro para ti?
Será que já me cumpri?
Será que um dia me deixas ir até ti?

Não sei onde estás.
Sei que ficaste sempre comigo, aqui.


Liliana


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