domingo, novembro 29, 2015

siLÊNcio

Esfrego o tacho e a frigideira do jantar de ontem com a esperança de lavar os fantasmas duma noite que passou, mas que teima em arrastar-se pela manhã e sentar-se a meu lado na mesa do almoço. 
Arrumo os pratos na máquina e encaixo os talheres no cesto, de acordo com os seus tamanhos e feitios. Tento com eles organizar as ideias que aperto nas mãos mas que me fogem, como a água do lava-loiças que escorre pelo armário e molha o tapete colorido.

Procuro a organização exterior no caos interno que me leva sempre aos mesmos locais, tão gastos como 'as palavras pela rua' e a ti, tão inalcansável como os 'peixes verdes' que os meus olhos nunca chegar(am)ão a ser.

Ponho a mesa num ritual cénico, que uso como guarda-chuva para me equilibrar nos movimentos caóticos escondidos em cada gesto dançado.
As horas exponenciam esta tentativa de fuga à onda que sinto formar-se dentro do meu peito e que tenta, a todo o custo, soltar-se no meu corpo. 
Às vezes tenho a sensação que posso ruir a qualquer momento, como um castelo de cartas que desmorona com o simples movimento do passar dos minutos. E por isso me pesam tanto, os segundos que agarro e guardo no armário, junto aos copos, virados para baixo para não se encherem de pó, o pó do passar do tempo.

Tiro a carne e a farinha, as batatas e o açúcar, as cebolas e a canela. Poiso tudo na mesa onde junto a batedeira, o tabuleiro e a forma. E o tacho e a frigideira que esfrego mesmo antes de usar, com a esperança de lavar os medos que acordam aqui mesmo, ao meu lado na mesa do almoço.

Procuro na paz exterior uma canção de embalar que adormeça o caos e a inquietação que nunca deixar(am)ão de habitar o silêncio que, por muito que tente, nunca se gasta(rá).

Liliana



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