quinta-feira, novembro 05, 2015

Lençóis

Deito o meu corpo, longe das intimidações iniciais despidas pelo tempo, ao teu lado, por baixo dos lençóis 
Encosto-me ao calor do teu corpo e deixo-me ficar assim, quieta em ti, dentro do teu abraço 
O tempo pára, olhando para nós com um sorriso meigo antes de fechar a porta à cidade
Lá fora o alarme dum qualquer carro esquecido no passeio apaga-se na minha respiração, que acompanha a tua mão que percorre as minhas costas
Apago a luz já num ensaio de tango que enlaça as minhas pernas nas tuas

O ritmo do meu coração acelera à medida que te sinto chegar a mim numa dança de roda
A tua mão perde-se em mim ao mesmo tempo que os meus braços te procuram no meio dos lençóis que se enrolam ao fundo da cama
Oiço-te respirar sem me conseguir distinguir nos movimentos ritmados do teu corpo no meu
E entrego-me sem reservas no beijo em que me te dás

As paredes do quarto caem uma a uma quando os nossos corpos, por fim, deixam de ser plural
O Tejo entra pela janela e invade a cama numa onda de marés vivas
Sou o teu veleiro numa viagem em que me perco em ti
E tu és as águas que reviram as areias e rebentam na minha praia
Deixamos de ser no preciso momento em que, juntos, somos

Deito o meu corpo, húmido, cansado, ofegante, ao teu lado
Encosto-me na mesma humidade quente que, comigo partilhas e fico assim, quieta, no teu respirar acelerado
O tempo, olhando para nós com um sorriso, volta muito lentamente ao lugar dos ponteiros da cidade
Lá fora o alarme dum carro qualquer toca ritmadamente
Pousas a mão no meu peito e enroscas-te nas minhas pernas
A cidade acorda enquanto puxo os lençóis para cima

Liliana Lima 


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