segunda-feira, junho 15, 2015

BorBoleta

Acordei esta manhã e encontrei-me escaqueirada pelo chão do quarto. Levantei-me muito devagar e um-a-um peguei em todos os cacos que de mim choveram.

Lembrei-me de outras manhãs, outras chuvas, os mesmos cacos.
Lembrei-me dos mesmo braços esticados para o chão refazendo-me a mim mesma em pequenos puzzles diferentes e tão iguais.

Com muito cuidado, pousei os bocadinhos que de mim se soltaram à força dos ventos e, antes de os colar, guardei-os na concha madre-pérola onde me deito quando não quero ver o mundo. O tempo correu, e eu ainda que meia-desfeita (ou meia por fazer) fui obrigada a seguir, avançar, ou melhor, a acolher.

Vem-me de há muito, esta capacidade circense de me dar apenas com a cara metade (ou metade da cara) da imagem no espelho. E por isso desci o Jardim sem sobressaltos grandes. E por lá serpenteei, sem olhar os cacos que me espreitaram entre os livros que toquei, e me chamaram nas sílabas das palavras que fui trocando, entre sorrisos fugazes.

Às mágoas que correram colina abaixo pelo jardim e às que, mais tarde, dançaram nas águas salpicando a noite de notas coloridas, acolhi como se minhas fossem, guardando-as no meu colo embrulhadas num aconchego rendado. Embalei-as na canção da lua e deitei-as no berço do carinho.

Acordei esta manhã e, depois da tempestade, da acalmia dum tempo que se quer de bonança, do jardim e da cara metade, das mágoas e da canção que lhes cantei, encontrei-me escaqueirada pelo chão do quarto.

Procurei a concha madre-pérola que me protege do mundo e percebi-lhe o aroma do mar e ouvi as ondas desfazerem-se na areia e senti o calor do sol na pele. Lá dentro, feita areia que se desfaz, feita rocha que resiste, descobri-me refeita pela enésima vez.

Peguei-me com todo o cuidado e vi-me, cara completa de corpo inteiro. Vesti-me uma saia rodada e uns sapatinhos vermelhos, e abri as asas em direcção ao mundo.

Quando acordar amanhã, não verei cacos nem mágoas espalhados pelo chão, estarei igual a mim "como sempre como antes", tirando a pequena cicatriz em forma de lua que esconderei no lado esquerdo do peito.


Liliana




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