segunda-feira, março 03, 2014

Borrão

As ondas batem, ao fundo, rebentando a harmonia e o silêncio da sala
A força com que embate a água nas rochas, ao fundo, 
eleva um remoinho de espuma que se dispersa com o vento 
e me molha a folha e borra as palavras que se desfazem, 
como a onda que empurra e varre a areia para cima da estrada

Pego na folha e tento secar as letras que te escrevi
um borrão de tinta azul que tudo mistura e transfigura,
gritando com o mar que hoje não é o dia de escrever para ti

A sala é envolvida pela onda que tudo submerge e conserva em sal,
a folha, o  borrão, eu, as letras, as palavras ,e o tu para quem escrevia
olhando-me de lado e segredando no meio das águas, "não estou aqui"
A maré vaza e deixa para trás os despojos espalhados na sala
de quem escrevia, do que escrevia e para quem escrevia

A areia continua espalhada na estrada
olho-a da janela e vejo as palavras que se diluíram
desenhando ao mundo o que, afinal, te podia escrever 

Liliana



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