quinta-feira, março 28, 2013

Tralha

Já passei por tantas vidas, encarnei tantas personagens, vesti tantas máscaras e pintei tantos sois na minha pele, que ao fim-do-dia é-me difícil reconhecer-me no meio de tanta tralha.

Vivi contos de assombrar e histórias que se baralharam entre caminhos íngremes e desconhecidos. Acreditei sempre, até à última letra, num final feliz mesmo quando era óbvio que essas palavras se desfaziam em fumo de um qualquer cachimbo de lagarta em transformação.

Encarnei todas as personagens que me piscaram o olho ao virar duma dificuldade e mantive-as vivas até já não mais as poder pegar ao colo e embalar com o choro da noite.

Vesti as máscaras que o espelho me pediu para conseguir apagar as lágrimas que caiam. Num suspirar profundo vesti-as e usei-as como palhaço alegre em muitas histórias contadas de pernas para o ar.

Pintei o sol na minha pele para não me esquecer que depois de cada grande e escura e, tantas vezes, solitária noite ele haveria de nascer e iluminar o mundo com todo o seu esplendor e luz e calor. 

Já vivi tantos mundos que às vezes me perco neste que aparentemente é o meu, e onde devia deitar fora a tralha, encontrar as palavras, prescindir das personagens, tirar as máscaras e olhar o sol no céu.

Liliana





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