quarta-feira, janeiro 05, 2011

José, que sentes quando a acaso te trai?!

Ouvi-a falar em surdina, por detrás de todos os ruídos do mundo que ecoaram ao mesmo tempo na minha cabeça. Mantive a pose certa, as costas direitas e os braços não cruzados para não parecer na defensiva, os olhos quietos para não mostrar ansiedade e um meio sorriso de Gioconda que não revelasse o medo. Por dentro jogava às escondidas com as palavras que ela dizia, nomes, conceitos, etiquetas no fundo, que se me colavam à pele e que desesperadamente, em segredo, tentava arrancar.

Depois o silêncio, no meio da Avenida em plena hora de ponta. O enorme e indescritível silêncio que me assombrou, palavras nomes conceitos que se debatiam para me gritar aos ouvidos, e eu isolada no deserto interno de quem não quer fazer parte deste mundo.

A casa e os seus barulhos tão distantes, como um disco antigo mal gravado. A conversa surda sobre o que ela me dissera e mais um manancial de argumentos lógicos e coerentes que nada me diziam. Nada. Apenas os barulhos da casa ao fundo - as costas direitas, os miúdos a brincar, o som de cada berlinde a rolar pelas curvas coloridas até cair no recipiente plástico - os olhos quietos, as resmunguisses para deitar - o meio sorriso, as orações ao anjo da guarda - as mãos distantes a aconchegar os cobertores. Nada.

Ainda os argumentos e a lógica e a coerência enquanto uma solidão escura invadia a cama, cobrindo os cobertores, rasgando os lençóis, separando os corpos. Fechei os olhos e tentei concentrar-me nas palavras que ela me dissera, procurei o significado dos conceitos, a origem dos nomes, etiquetas no fundo, que se me colavam à pele por mais que as tentasse arrancar...

Lá fora a lua e o jardim dormindo com a cidade. As costas que se desmoronavam. As ruas vazias e os carros abandonados. Os braços rígidos e as mãos fechadas com força. As janelas fechadas e as casas dormindo. Os olhos alagados...

A traição da natureza, o acaso da solidão e o silêncio.

Liliana





"(...)
há uma altura, creio
um dia em que se acorda
e se percebe tudo:
a traição do acaso
que dispersa a folhagem do jardim,
a solidão inacessível dos desertos,
a ferocidade da natureza
em certas estações,
essa espécie de errância
que pertence ao silêncio
mais do que a qualquer palavra"

"Duas cidades, Paris"
de José Tolentino Mendonça
in Baldios
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