quinta-feira, outubro 28, 2010

O que te falta, Ricardo?

Não chega, sabias?! Não vens num cavalo branco nem corres para mim com um beijo para me acordar do sonho mau.

A noite é de um inverno branco e eu, sentada numa jangada de tábuas amarrada com esperança, procuro o calor dos teus olhos que tarda em chegar.

O fundo do corredor está vazio, de um escuro silencioso onde tenho medo de entrar. Procuro a tua mão que se estende, indiferente, ao lado do teu corpo e quase recusa o meu toque.

Afogo-me numa banheira de águas revoltas e olho-te em busca de âncora mas afastas o olhar, como quem dança uma valsa "á mil temps" enquanto te afastas numa prancha de certezas.

Nos dias luminosos de pequenas cores salpintados, dás-me a mão e ris-te para mim quando me entendes perdida. Fazes-me um mapa e ouves-me com carinho, até que chegam as nuvens, minhas ou tuas, e deixas de me ver.

Não chega, sabias?
Nem para mim, nem para ti...

Nunca te encontro nas esquinas das tuas manhãs. Foges como um balão solto no meio dum jardim infantil. Escondes-te atrás das árvores com folhas escuras e copas largas. Não me deixas chegar a ti e, por isso, também nunca chegas até mim. Ficas nessa margem do rio de onde não me consegues tocar e nunca te chegas a mostrar.

Não chega, sabias?


Sim, tu até sabes. Vês o silêncio que me magoa e ouves a barreira que me assusta. Só não compreendes que saltar o muro ou abrir a porta, me faz tanta falta a mim, como a ti. Porque assim não chega, sabias?!

Liliana


"Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece. "

Ricardo Reis, in "Odes"

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