quarta-feira, agosto 11, 2010

Também tens medo, Sérgio?!


Enrolo novelos com os fios dos dias. Faço-os coloridos e redondos com a ponta solta, caso os queira um dia juntar. Depois arrumo-os na cristaleira da sala, empoleirados uns nos outros como brinquedos numa montra.

Sempre que me foge o fio das mãos assusto-me, pensando nos novelos que vou deixar de fazer. Então, como um felino atrás da presa, procuro por todo o mundo um novo fio que possa enrolar. E acabo sempre os encontrar, numa esquina de um sorriso ou ao fundo de um olhar. Contente, volto a casa e recomeço o meu trabalho enquanto admiro as prateleiras cheias de rolos às cores numa pirâmide mal montada.

À noite sinto-os inquietos, espreito devagar tentando perceber o seus lamurios. Sonham com vidas coloridas e pontas soltas, recordam os dias entrelaçados noutros fios em formas divertidas, choram pelas agulhas que lhes dariam vida... Calem-se! Grito do canto. Que mais querem vocês, se não estar a salvo do mundo, num novelo resguardado, amado e bem enrolado?! Ingratos! Bato com a porta da sala e volto para a cama zangada. Ao fundo a ladainha continua como um murmúrio sem fim. Finjo que durmo, mas não engano nem a mim mesma. Com os olhos abertos no escuro da noite sonho com vidas coloridas, recordo dias entrelaçados noutros braços e choro pelos que me dariam vida.

De manhã, sento-me à janela, olho para o dia que corre já no meio do trânsito e das crianças que saltitam em volta das mães apressadas e procuro o fio do dia. Agarro-o devagar para não o assustar e enrolo-o num novelo colorido do que poderia ser o meu dia vivido...

Um dia, igual a todos os outros, encontrei um fio escondido no vaso da janela da frente. Tentei agarrá-lo mas ele não se deixou apanhar. Também não fugiu como era costume acontecer, ficou suspenso nos troncos da árvore em frente, enquanto me desafiava a descer à rua e passear com ele. Que ideia tão parva! Disse eu. Para quê sair e correr os perigos da rua se podia viver ali enroscada num novelo colorido, espreitando pela janela como uma boneca na montra de uma loja, sempre bonita, sempre penteada, sempre a sorrir...

Nesse dia não enrolei nenhum novelo, mas também não corri o mundo à procura de um novo fio. Fiquei apenas sentada, espreitando o sem número de outros fios que se entrecruzavam, enrolavam, deslizavam, saltavam, rolavam, ali mesmo à minha frente. É verdade que não estavam tão limpinhos como os meus novelos, nem tão pouco a salvo de tristezas ou sobressaltos. Mas pareciam... vivos! Alegres ou tristes, com caminho ou sem ele, depressa ou devagar, eram livres e isso parecia ser-lhes suficiente para afastar o medo.

Olhei para trás, na cristaleira, empoleirados nas prateleiras os meus novelos coloridos pareciam uma triste imitação dos fios que lá fora corriam. Sem pensar bem no que fazia, abri a portas de vidro com moldura de carvalho e, um a um, tirei os novelos cá para fora. Espantados, não choravam nem resmungavam, estavam tão surpreendidos que apenas um silêncio imenso se ouvia em toda a casa. Enrolada num sonho, abri a janela e comecei a atirar os novelos que, como serpentinas de carnaval, se espalharam por toda a rua colorindo a cidade das mais improváveis combinações de cores.

Depois de todos libertos, procurei uma mala onde guardei duas agulhas de tricô, algumas roupas e um caderno em branco. Fechei a porta a tremer de medo, mas lá fora ouvia as vozes dos fios cantando. Foi embalada pelos meus novelos que me atrevi a sair pelo mundo sem medo. E, sem fios de segurança, avancei pela corda bamba no circo da vida.

Liliana



Eh! Meu irmão, o que é que tu tens
que tremes como um chouriço?
Eh, meu irmão que é que tens,
parece que viste bicho!
Um bicho vi, sim senhor
enroscou-se a mim e pediu-me amor
tinha corpo de mulher
cabelo encaracolado
beijou-me, apagou as luzes
e eu então gritei!
Ai, um bicho!

Eh meu irmão, que é que tens
estás branco que nem um nabo!
Eh, meu irmão, que é que tens,
parece que viste o diabo!
Vi mesmo, bateu à porta
disse que o povo estava na rua
e que a rua era do povo
que é p’ra quem ela foi feita
e o povo somos nós todos
e eu, então gritei:
Ai o diabo!

Eh, meu irmão, que é que tu tens
estás branco como o jasmim!
Eh, meu irmão que é que tu tens
o que é que te pôs assim!
Foi o medo da água fria
o medo da vida, o medo da morte
o medo da lua cheia
o medo da lua nova
o medo até de ter medo
que me faz gritar
Ai, que medo!

E assim com medo de tudo
perdeu meu irmão a vida
e assim com medo de tudo
viveu-a e não foi vivida
meteram-no num caixão
às duas por três, num dia de Verão
desceram-no p’ra uma cova
deitaram terra por cima
espetaram-lhe uma cruz
ita missa est
Amen

"Eh! Meu irmão" de Sérgio Godinho

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