terça-feira, julho 13, 2010

Vamos brincar com as nuvens, Gilberto?

Veio numa nuvem colorida. Quando pousou ninguém sabia se traria bom ou mau agoiro. A figura alta e pouco definida deixava espaço para todas as leituras, para quaisquer projecções. Em pouco tempo toda a aldeia se viu envolvida naquele laranja-amarelado que desfigurava as árvores e iluminava até os mais recônditos esconderijos.
As crianças juntaram-se na praça, em frente à nuvem, deslumbradas com aquela visão tão estranha e poderosa, capaz de fazer entrar em casa todos os adultos, por maiores, fortes e resmungões que fossem. Na verdade, para eles a aparição era claramente algo de bom, pois viera do céu e enchera a aldeia de cor e, por isso, brincavam com as suas sombras formando imagens novas e criando cenários impensáveis.
A figura dentro da nuvem laranja-amarelada parecia brincar com eles. Girava e dançava no ar ao ritmo das correrias e cantilenas infantis que os pequenos gritavam. Não disse nem uma palavra durante todo o tempo em que ali esteve, mas partilhou um sentimento que se expressou numa narrativa conjunta, uma espécie de peça de teatro improvisada no meio de uma história que se escrevia com as palavras indizíveis de cada um.
O sol brilhou enquanto assistiu a todo o espectáculo que se desenrolava na praça da pequena aldeia. Já os adultos, fechados em casa, projectavam todos os medos que cabiam dentro de uma nuvem vinda do céu com uma figura alta e pouco definida.
Quando o sol finalmente se encostou à linha do horizonte, a nuvem laranja-amarelada desapareceu no céu com a mesma imprevisibilidade com que tinha aparecido naquela manhã. As crianças, exaustas da brincadeira, voltaram a casa enquanto os adultos, ainda desconfiados, se atreviam vagarosamente a sair e espreitar a rua.
Nada disseram as crianças do que se passara ou sobre o que era aquele ser, por mais que pais, tios e avós tentassem saber. Tudo o que se disse e contou pelas aldeias vizinhas foram meras conjecturas criadas por quem não teve a ousadia, a coragem para sair à rua e experimentar a novidade, a diferença, o inesperado...
Liliana



"A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia
Metade um grande rabo de baleia

A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia

Ó mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
De um lado este carnaval
De outro a fome total

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia

A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado"
"A novidade" de Gilberto Gil
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