sexta-feira, abril 30, 2010

Que música toca o teu rádio, Carlos?

Há um homem que todos os dias percorre Campo de Ourique numa bicicleta ferrugenta, que um dia terá sido talvez cinzenta, com um cesto de plástico encaixado no guiador onde, amarrado com corda, leva um rádio de pilhas que, apesar de mal sintonizado, tem o propósito de se fazer ouvir por todo o bairro.

Confesso, que nos primeiros tempos de moradora, era algo que me fazia confusão, e até me incomodava aquela personagem bizarra que todos conhecem e que, faça chuva ou faça sol, nos obriga a ouvir a sua estação preferida gritada a plenos pulmões por um rádio daqueles compactos, enormes, muito datados, que ficaram conhecidos como "tijolos", enquanto pedala alegremente no seu enferrujado veículo.

Aos poucos, como acredito se terá passado com os meus vizinhos de bairro, aquela "sanfona estridente" passou a fazer parte da minha vivência diária. Assim que o sol cansado se espreguiça e se encosta lentamente ao Tejo as ruas, que quase todas se cruzam em ângulo recto, enchem-se da música mais diversa e inesperada que se possa imaginar, num equilíbrio sonoro que depende da proximidade da dita bicicleta.

Ao passar, este personagem excêntrico sorri, e segue feliz, como quem cumpre a sua missão de alegrar o mundo, ou pelo menos a pequena parte dele que consegue percorrer a cada tarde que passa. A criançada, habituada ao protocolo, acompanha-o correndo um ou dois quarteirões e depois, enquanto assaltam o chafariz do jardim molhando tudo à sua volta, aguardam pelo regresso da última ronda musical.

Há um homem que todos os dias percorre Campo de Ourique numa bicicleta estridente com um rádio ferrugento e partilha música com quem por ali passa, como quem oferece um bolo a uma criança. Ele é feliz, independentemente do que pensam, dizem ou acham dele. Que me lembre, e já por aqui estou há uns anitos, o rádio enferrujado na bicicleta estridente, raramente se atrasam ou faltam ao compromisso.

A verdade é que todos ouvimos a música que, alegremente, nos oferece dia após dia após dia. E sem pedir nada em troca, quando a noite acorda e decide escurecer o céu, volta para casa com a promessa de amanhã estar novamente pedalando pelas ruas de Campo de Ourique com a felicidade estridente duma sanfona antiga.

Liliana Lima




Vem descendo a avenida
O negro do rádio de pilhas
Todo contente da vida
Porque não chove e o sol brilha

Patilha comprida e carapinha
Com um visual garrido
Dançando enquanto caminha
Rádio colado ao ouvido

Sei de quem tem hi-fis
E lê enciclopédia
Mas este negro curte mais
Mesmo só com a onda média

Filho da savana
Primo de um coqueiro
Deus deu-lhe a devoção
Mas deu-lhe o ritmo primeiro

Quando o negro vai ao baile
Fica o logo o centro
Tal como no rádio
A música vem lá de dentro

No domingo vi o negro desgostoso
O quiosque estava fechado
E o velho rádio fanhoso
Sem pilhas estava calado

"O negro do rádio de pilhas" de Carlos Tê e Rui Veloso
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