quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Os teus olhos também vêem?!

No mundo em caracol dos papeis e burocracias do dia-a-dia, entrei numa sala grande cheia de cartazes sorridentes prometendo solução a todos os males, um deles, com uma cara simpática que parecia falar directamente para mim, dizia "Nós reclamamos por si". À minha volta as muitas pessoas conversavam, subiam, desciam, entravam, saiam, perguntavam, passavam... sem nunca chegar a olhar para fora de si.

Tirei a senha e esperei... esperei que me atendessem, que ouvissem a minha história, que me dissessem o que fazer para resolver a questão...

No caracol dos papeis e burocracias disseram-me para subir ao andar de cima. Entrei numa sala pequena com cadeiras a toda a volta, uma televisão pendurada no tecto e um letreiro luminoso onde se seguiam conselhos de bem viver "Controle o colesterol", "Mantenha-se calmo", "Se conduzir não beba", "Aguarde em silêncio" alternando com uns efeitos coloridos que piscavam como foguetes ou chuvas de estrelas.

Tirei a senha e esperei... Esperei que me chamassem, que me deixassem contar a minha história e, já agora, que me explicassem como resolver a questão...

No caracol voltei a descer, depois de me dizerem ali não me podiam ouvir, nem ajudar. Assim parti em busca de um papel que se perdera na burocracia das escadas e das salas e dos cartazes. Na sala grande e barulhenta voltei a tirar uma senha, sem grande convicção de que seria a mais adequada.

Encostei-me à parede e pouco tempo depois descobri os únicos olhos que olhavam para além de si mesmos. Olhei para eles e sorri, perguntei-lhes se, acaso, sabiam o que tinha de fazer para que me atendessem, ouvissem a minha história e me dissessem o que fazer para resolver a questão. Eles sorriram e vieram ter comigo por entre as muitas pessoas que conversavam, subiam, desciam, entravam, saiam, perguntavam, passavam... sem nunca chegar a olhar para fora de si.

Conversámos apenas dois minutos que pareceram duas horas e em que eles, os olhos que olhavam para além de si mesmos, me disseram que já me tinham visto chegar, tirar a senha e esperar, subir e novamente descer. Disseram-me que logo que me viram perceberam que não era dali, ou daqui deste mundo em caracol onde os olhos não vêm para fora de si, que tudo se resolveria, que a senha não era aquela, que a sala certa era mais acima e que não desistisse. Disseram-me que não estava sozinha, que há no mundo mais olhos, desses que quebram barreiras e saltam fronteiras. Respondi-lhes que o meu olhar se sentia perdido e eles lembraram-me que "o essencial é invisível aos olhos" e sussurraram-me que, pelos meus olhos, se via que eu conseguia ver com o coração.

Antes de me ir embora, depois de subir novamente no caracol, encontrar a sala, contar a minha história e, finalmente trazer o papel para resolver a minha questão, os olhos agora meus amigos chamaram-me e contaram-me que no mundo há uma lei universal que diz que o bem que fazes aos outros virá ter contigo, mais cedo ou mais tarde. E que eles já sabiam que, se eu quisesse, o meu olhar podia ser janela para novos horizontes a que outros olhos se puderiam também abrir...

Guardei o papel, abracei aquele olhar e, de olhos bem abertos, sorri enquanto saía do caracol agradecida por me ter apresentado aqueles estranhos, mas sábios, olhos.


Liliana




"Os teus olhos, negros, negros
São gentios, são gentios da Guiné
Ai da Guiné, por serem negros
Da Guiné por serem negros,
Gentios por não ter fé"

Canção popular
(tocada e cantada pelo meu avô em todas as reuniões familiares)
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