quinta-feira, abril 23, 2009

Diz-me então, quem sou eu, Lewis?


Suspirei fundo, com calma procurei a caixa de fósforos e acendi uma vela. Estava escuro e a luz da chama reflectiu no espelho e inundou o quarto de um amarelo baço e ondulante, que parecia jogar às escondidas entre formas e sombras, enchendo a toda a divisão de um estranho movimento.

Virei-me e dirigi-me à porta, ao meu lado eu avançava zangada por entre móveis e tapetes, lutando com os cortinados ao ritmo da chama que dançava em cima da cómoda, atrás de mim. Os meus movimentos na parede denunciavam um mau estar interior que eu própria desconhecia. Parei e observei com atenção a sombra que, claramente se revoltou com a minha curiosidade.
De pé em frente à porta, admirei-me com o que via de mim mesma projectado na parede. Avançada e esticava-me tentando alcançar a porta, recusava aceitar esta paragem a que me obrigava. Gesticulava sem sair do mesmo sítio. Estava notoriamente zangada e frustrada, imersa na escuridão que me inundava o quarto, a alma e o coração não me permitindo ver mais do que a vontade imediata de abrir a porta e sair.
Sentei-me na cama e fixei o olhar na vela e na sua chama ondulante, enquanto tentava perceber como sair, não do quarto, mas daquela sombra zangada e inquieta que me fitava da parede impaciente. Estava escuro, era um facto. E estava atrasada para o encontro que tanto ansiava, tinha o vestido do decote generoso e os sapatos menos cómodos mas mais elegantes, e estava ainda em casa, às escuras, sem encontrar a mala e as chaves do carro. Devia estar zangada e frustrada como aquela sombra que, já sem paciência gesticulava comigo. No entanto, havia algo em mim que me pedia para parar, parar e sair da espiral que me prendia a sombra e encobria o momento, tornando muito mais negro o cenário onde decorria a acção.
O filme projectado na escuridão da parede sou eu? Se sou não saio. Não me levanto nem me me animo. Fico aqui, escondida de mim mesma, à espera da luz que apagará as sombras e me devolverá a tranquilidade.

E fiquei. Sentada na cama, acorrentando a sombra aos meus pés para a ver bem. E foram precisos muitos dias, muitos dias e muitas noites em que a luz que usava para iluminar o quarto vinha de fora e apenas mudava de sítio a sombra que lutava ora com a cómoda, ora com os cortinados. Sentada na cama fui vendo como ela, ao ritmo do Sol e da Lua, me rodeava impaciente e inquieta.

Veio outro dia de escuridão, e mais uma vez o vestido e o decote, os sapatos e a ansiedade, e claro, a caixa de fósforos. Suspirei fundo e, antes mesmo de os acender, o espelho em cima da cómoda reflectiu uma luz, branca e límpida, que inundou o quarto numa aguarela de cores. Procurei-me na parede, mas encontrei-me na luz. Saí sem correr enquanto espreitava o filme que projectava no quarto as cores do meu arco-íris. Já na porta da rua, voltei atrás, agarrei-o e levei-o comigo.

Liliana Lima





"Então quem sou eu?
Digam-me isso primeiro,
e depois,
se eu gostar de ser essa pessoa,
eu subo;
senão,
fico cá em baixo
até ser outra pessoa qualquer."

in "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carrol
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