segunda-feira, abril 13, 2009

Ajuda-me a desembrulhar-me, Fernando...

Escrever é uma coisa que me acontece, de repente, como se em mim existisse um gesto que não me pertence e que, quase sem querer, assim como que por acaso, escreve...
Às vezes calha que as ideias se juntam e a um canto pedem para ser escritas. Outras vezes é como que uma necessidade, uma vontade que pesa, uma angústia que se queixa, que não me deixa esquecer as palavras que querem ser sentidas...
Escrever torna-se, assim, uma forma de sentir o mundo que me rodeia, filtrado por palavras, por letras, por riscos e rabiscos no papel.
Quando escrevo é como se dançasse uma valsa com os sentimentos, que rodam e giram em volta das minhas ideias. Nem sempre consigo escrever o que sinto. Às vezes escrevo mesmo antes de sentir, antes de ter, de facto, vivido. Outras vezes demoro muito tempo até que as ideias se juntem às palavras que me permitem escrever o que, há tanto tempo senti.
Então escrever acontece-me como uma espécie de catarse de vidas e pensamentos que já me tinha esquecido e, através do papel, revivo, sem mágoas, sem dores, sem alegrias, como um rio que atravesso a nado, devagar, e nele, a vida acontece, escrita.
Procuro, nestes breves momentos em que aconteço, desembrulhar-me. Despindo as letras e as ideias a que me encosto, para desencaixotar as verdadeiras emoções. Escavando nos sentidos, para chegar ao seu verdadeiro pulsar.
Assim, mesmo quando caio numa palavra mais brusca, sei que me levantarei noutra mais terna. Acerto e erro, magoo-me e animo-me, e avanço.
Escrever é uma coisa que me acontece, e quando escrevo procuro o caminho certo que me leve não ao outro, mas a mim.

Liliana Lima


"Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos."

Alberto Caeiro in "Guardador de Rebanhos"(XLVI)

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