quinta-feira, março 12, 2009

Onde te escondes tu, António?

As pessoas fazem coisas estranhas quando se sentem ameaçadas....

O meu avô, quando a terra tremia deitava-se dentro da banheira. Não debaixo da ombreira da porta, não debaixo da mesa grande e forte da sala, nem mesmo debaixo do balcão comprido da cozinha em mármore cor-de-rosa. Quando a terra tremia, ele deitava-se na banheira.

Um dia, quando era pequena e o balcão da cozinha ainda me ficava à altura do nariz, meti-me dentro da banheira a imaginar que a terra estava a tremer, para ver se entendia a razão de tal escolha tão invulgar. Nada... a única coisa que entendi foi que a minha avó não gostava lá muito que eu molhasse o vestido.

Nessa altura a minha avó arranjou uma rapariga que ficava as tardes tarde comigo e com a minha prima em casa dos meus avós e que, supostamente, tomava conta de nós enquanto ela ia para o escritório ajudar o meu avô com as escritas.

Estávamos em plenas férias de Verão, os dias estavam lindos e o Tejo, que inundava as janelas, chamava por nós em pequenas ondulações douradas... A rapariga, quase da nossa idade (mentalmente pelo menos), também ouvia o chamamento do rio que entrava pela sala dentro e nos dizia o quão frescas estavam as suas águas. Naquele dia decidiu, depois de um longo discurso sobre os adultos e a sua incapacidade para entender este tipo de diálogos entre meninas e rio, que iríamos atravessar a marginal, saltar a linha do comboio e, por fim, responder ao pedido do rio e brincar na sua água (naquela altura não tão azul como seria desejável). Depois de concordarmos o quão dispensável seria que os adultos soubessem desta inócua aventura, lá fomos as três, correndo pela marginal e saltando as barreiras até ao rio. O difícil foi mesmo atravessar a estrada, a partir daí foi uma brincadeira de crianças (que éramos as três).

Voltámos a casa antes dos "grandes", tomámos os banhos necessários para apagar as pistas e esperámos por eles com os nossos melhores sorrisos de anjinhos papudos. Tudo correu bem, ninguém suspeitou da nossa descrição das brincadeiras com os carecas durante a tarde inteira e a noite caiu na mais tranquila paz.

Foi de manhã, que era quando chegava a minha prima (a quem o balcão da cozinha ficava ainda por cima da cabeça), que, nas conversas azedas e nas respostas da minha avó ríspidas e em tom de desagrado, que percebi que tínhamos sido descobertas.

Sabia que as consequências não seriam agradáveis e a vontade era desaparecer ou matar a minha prima mas, como isso daria muito nas vistas, optei pela primeira e, enquanto todos me procuravam nas escadas, na casa da Dª Odete que vivia de baixo de nós e tinha um cão irritante com um lacinho na cabeça, no Sr João da Tendinha onde o meu avô gostava de beber um café e um copito, na Padaria onde eu comia os melhores pães de leite de sempre, e em muitos outros sítios perfeitamente lógicos, para eles pelo menos, eu passei o dia inteiro... deitada dentro da banheira!

(Escusado será dizer que o resultado não foi o melhor, nem para mim nem para a "rapariga" que, aliás, nunca mais tornámos a ver...)



Liliana Lima, 13 de Março de 2009


"Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras."


António Ramos Rosa in "Sobre o rosto da Terra"

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