quarta-feira, janeiro 07, 2009

Quem tens do lado de lá do arco-íris, Dorothy?


Um dia, numa conversa telefónica, ele disse "Se me procurares, no lado de lá do arco-íris, já não me encontrarás." e desligou.

O mundo caiu aos pés dela como um castelo cartas que se desfaz com um sopro. Seria possível que ele lhe tivesse dito aquilo? Chorou, pousou o telefone e chorou. Saiu para a rua e, no carro, chorou. Parou o carro à beira da estrada com o Tejo ao fundo, e chorou como já há muito tempo não lhe acontecia.

Porque chorava assim? Seria pelo facto de estar tudo acabado? Mas afinal não estava já tudo acabado muito antes daquela conversa? Ele não tinha já pegado no saco e saído da casa dela? Não tinham já dito todas as palavras que se dizem quando, no ar, ecoa o "adeus"? E não o tinham feito até mais do que uma vez?

Na verdade, ela ficara pendurada naquela repentina despedida e avançara olhando para o lado, enquanto fechava o tempo numa caixinha dourada e a escondia no seu coração. Ela sabia que ele já lá não estava, mas enquanto tentava varrer as dores e apanhar os cacos, fechava os olhos ao vazio que enchia a casa. Ele partira há muito tempo sim, e ela podia até fingir que não, mas no fundo sabia-o porque sentia a sua falta como uma bússola que perde o norte.
Mas não era bem isso que a fazia chorar.

Não, o que a fazia chorar era aquela frase ao telefone, "Se me procurares, no lado de lá do arco-íris, já não me encontrarás." Se assim era, então ele nunca lá tinha estado realmente. Era isso que a fazia chorar, a consciência de que afinal, depois de tudo (ou de nada, já não sabia bem), ele nunca estivera verdadeiramente ao seu lado.

Na verdade ela não chorava por ele, nem pela falta que ele lhe fazia, mas por ela própria, pelo vazio que sentia ao olhar o espelho e ver que estivera sempre sozinha.
Afinal, quem se encontra no "lado de lá do arco-íris" não mais deixa de se ter, está lá e fica lá para o que der vier. Para o encontro, para o desencontro, para o silêncio, para a festa, para o afastamento, porque no "lado de lá do arco-íris" não há abandono, há cumplicidade.
Ligou o carro, desligou os quatro piscas, limpou a cara, inspirou fundo e arrancou.
Passados alguns dias voltaram a encontrar-se, falaram de questões burocráticas por assim dizer, não falaram sequer, não se cruzaram sequer, foi um encontro inócuo e bem esterilizado. Despediram-se como dois estranhos e ao entrar no carro, de novo com o Tejo à sua frente, pareceu-lhe ouvir as estrelas dizer "Se me procurares, no lado de lá do arco-íris, já não me encontrarás." Fez força e agarrou uma lágrima que teimava em sair, ligou o carro e arrancou, no rádio tocava uma música de um filme antigo - "...birds fly over the rainbow / why then, oh why can't I?..."


LL Jan/2009


Com o "Somewhere over the Rainbow" de EH Harburg no ouvido, num post antigo aqui na curva das letras.
Enviar um comentário