domingo, janeiro 25, 2009

Contas-me um segredo, Júlio?


Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na última prateleira da dispensa? Dei com ela nas arrumações das tralhas, estava atrás das conservas fora de prazo, do arroz com bicho e do garrafão de água já amarelada que, zelosamente, mantinha para o caso de uma catástrofe desabar sobre Lisboa. Quando a tirei tive uma vontade imensa de a abrir e finalmente descobrir os segredos que há tantos anos encerra... mas não o fiz, contive-me. Houve algo que me impediu de o fazer, um sentimento de traição parecia espreitar da tampa da velha caixa.


Decidi esperar por ti. Guardei-a, imaculada, tal e qual como quando a descobri, pronta para desvendar os mistérios que nos povoaram a imaginação infantil e que nos insprirarm nas tardes chuvosas de Inverno e nas noites quentes de Agosto. Tantas histórias inventámos, para justificar os segtredos fechados naquela caixinha azul, desde amores impossíveis, heranças escondidas a herdeiros secretos... Está tudo aqui, nesta caixa metálica muito velha e ferrugenta, agora no meu colo, tão frágil, tão simples, tão banal.


Decidi esperar por ti, afinal os segredos da caixa da avó acompanharam-nos a infância, fazem parte do nosso imaginário. Era-nos quase impossível pensar a avó sem nos lembrarmos da sua misteriosa caixa, escondida, inviolável e inacessível. E agora no meu colo, convidativa, provocadora, quase a dizer-me baixinho "abre-me... desvenda o mistério..."



Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na dispensa? Descobri-a, tive uma vontade enorme de a abrir, mas depois decidi esperar por ti.


Tive-a no meu colo horas, minutos, séculos, nem sei... Olhei-a, virei-a, lembrei as histórias que inventámos em torno do seu conteúdo. Esperei por ti. Mas não vieste a tempo...


Decidi devolvê-la à avó, afinal os seus segredos eram dela e assim devem ficar para sempre, sugestivos, misteriosos, desconhecidos... Só assim permanecerão na nossa memória com a magia das histórias inventadas, onde o importante vai muito além do desvendar da realidade.

Liliana Lima 09-11-2005



"Quando se conta a outrem um segredo este
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.

Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara

a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já. "


Do fim dos segredos - Júlio Pomar
(in "TRATAdoDITOeFEITO")
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