quarta-feira, maio 25, 2016

Sil ênc io

Nunca soube ouvir no silêncio,
arranha-se-me o corpo à ausência de sinais
legíveis nos simbolos mudos
desenhados pelos ponteiros do relógio.

Fico muito quieta à espera de ver
aparecer o som que me dirá tudo
o que o silêncio, teimosamente,
esconde dos meus olhos cansados.

Saberá ele o quanto vasculho e procuro,
nas gavetas da secretária,
nas prateleiras do escritório,
até mesmo nos armários da cozinha,
pelo manual que me permitirá
aprender os segredos
da comunicação
na total
ausência
de fonemas?

Nunca soube entender o silêncio,
marca-me a pele esta espera,
por uma palavra não
dita,
por uma resposta não
dada,
por uma explicação não
partilhada.

Desco pela cidade,
sento-me à beira-rio
e desenho letras na água
com os pés descalços.

Olho o silêncio, na outra margem,
que se estende
pelo Tejo
e abraça
Lisboa
num beijo sem som.

Pergunto-lhe se me pode ajudar
e ele
em silêncio
responde
com frases que
não
consigo ouvir,
nem
entender.

Nunca soube ouvir o silêncio.


Liliana


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