segunda-feira, janeiro 11, 2010

Porque escreves, Manuel?

Porque escreves? Perguntas-me tu ò vento do oriente...

Se escreves para te ouvires para te sentires para, por fim, te encontrares no emaranhado de letras que vivem apenas nas entrelinhas e que, acreditas tu, mostrarão um dia a tua imagem reflectida nas águas do Tejo, desilude-te. O Tejo mostra apenas as linhas que com as águas dançam.

Se escreves para ti, destilando os sentimentos e as vontades numa folha de papel, como que exorcizando os fantasmas e os medos que moram contigo, para que ao virar da esquina não te assaltem e roubem as palavras, desiste. As folhas apenas revelam o que nelas queremos pintar.

Para que escreves então?

Mais valia deitar as palavras ao vento que até as varre e as leva para longe.

Melhor seria sussurrá-las ao canto da sala no silêncio da noite que cúmplicemente as abafaria.

Porque escrevo, afinal?

Para me encontrar no remoinho de palavras que gira em volta das letras que se penduram nas entrelinhas e rodam em volta dos silêncios não ditos.

Porque escrevo, afinal?

Para ouvir o mundo que não consigo entender com o barulho da cidade.

Para olhar tudo o que não chego a ver com a pressão dos ponteiros do relógio.

Para me sentir inteira, ainda que perdida.

Para me saber verdade.

Para me saber sonho.

Para os distinguir.

Porque escrevo, afinal?

Para que me leias e te encontres onde eu, quem sabe, nunca me procurei.

Liliana Lima




"O leitor põe-se a escrever. Escreve para ti – coisa terrível; como se pode? Aceitemos mesmo que este saber se partilha e que o leitor avance. Já antes era assim que o leitor era: escrevia. Mas digamos que a partir de um determinado momento, por razões alheias à sua vontade, inerentes ao que de ti nele chama, o leitor diz: «o leitor põe-se a escrever».
(...)


Se o leitor escreve, tu escreves, meu amor, meu amor, e então perguntar-te-ás como é que te podes erguer nestas frases, como é que tu própria, quer dizer, o teu corpo e o nome que tu usas e com que te usam, como é que esse teu corpo e esse teu nome podem ser furiosamente aqueles que esse tu designa e desdiz, se só assim te pode dizer. Que me inventes! que me inventes! O leitor abana a cabeça, sempre ferido desta dor e quem sabe se desta alegria. Como te há-de ter viva se logo tu já o morreste? Percebes quando o jogo é aqui só um alibi e é do outro lado que as coisas se lêem. E esse lado é o teu, nome vazio, escritor ao contrário, leitor ao contrário, tu que com o apagaras-me a voz tudo decides destas letras. Que as apagues também! Que me devores! que então correrei em ti, diz o leitor, como se diz, com o coração a sangrar um veneno sem remédio. O leitor escrevendo sabe que alguma coisa o risca como ele risca as frases por cima das quais escreve, que alguma coisa lhe embarga o nome, a voz, o corpo, o desejo, e que só enlouquecendo numa única letra, a tua, é que tudo pode entretanto irromper. Lê:

De alguma maneira o leitor escreve para que seja possível...."

de Manuel Gusmão,
in «As Posições do Leitor» (1971)
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