quinta-feira, outubro 08, 2009

Tu sabes António, não sabes?

Eu não sei se eles sabem, ou mesmo se sonham. Mas eu sinto-o com tanta força em todo o corpo que chega a doer de tantas sirenes que me gritam aos ouvidos cada vez que, por momentos, me afasto desta certeza.

Eu não sei se eles sabem e nem perguntei se sonham. Mas a mim é-me tão claro como o sol do meio dia em plena primavera que mergulha devagar nas águas do Tejo e abraça Lisboa até ao lusco-fusco.

Ah! se eles soubessem, com certeza que sonhariam o mesmo sonho que joga comigo às escondidas por entre as ruas e as escadas e os jardins e as janelas e os pátios de onde se avista o rio, fazendo-me perder o fôlego numa correria infantil atrás do arco-íris que brilha dentro de uma bola de sabão.

Eu não sei se eles sabem e até nem me importa saber se sonham. Mas tu, tu que me lês desse lado da folha, diz-me. Tu sabes não sabes? Tu sentes este movimento perpétuo que avança por nós fora e nos impele e nos inspira e nos empurra e nos revela o que afinal há tanto tempo já sabíamos?

Eu não sei até onde é que eles sabem nem com o que é que sonham. Mas tu, tu que me lês os sonhos escritos onde o sorriso me denuncia e o brilho dos olhos me expõe e o tom de voz me mostra nua de adereços e máscaras, diz-me. Tu também sonhas e te perdes no sonho como se uma onda que te leva a um mundo distante e por lá te deixa numa correria infantil atrás dos arco-íris que brilham dentro das bolas de sabão?

Liliana Lima


"Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem
sonha o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."

"Pedra Filosofal" de António Gedeão
in 'Movimento Perpétuo'
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