segunda-feira, setembro 28, 2009

Ajudas-me a traduzir o silêncio, Mia?


Levanta um bocadinho mais o véu, que assim só vejo esgares que nada me dizem.
Mostra-te! Ainda que só por um momento... ah! breve eternidade em que não fecharei os olhos para nada fugir na corrente das horas!
Nestas entrelinhas, que de lupa na mão leio e releio tentando descodificar a própria matriz, não te encontro, não te reconheço, não te aprendo. Apenas me perco mais e mais.

E se, decidida por fim a revelares-te-me, aparecesses como o sol que cintila no rio ao cair da tarde em Lisboa?
Conseguiria reconhecer-te no meio de tantos recortes encriptados que envias desse longínquo farol nas noites de lua nova?
Conseguiria sentir-te real, dar-te a mão e, por fim, descobrir-te tão igual?

Como poderia então, assim somente com um mapa de caminhos nunca antes navegados, encontrar-te perdida da tua estrada?
Como poderia então, com apenas uma fotografia de imaginação feita, saber-te do outro lado da rua, cantando cantigas de amigo?

Levanta um bocadinho mais o véu, que os traços misturam-se e não te consigo desenhar o rosto, límpido, nítido, genuíno...
Mostra-te! Ainda que só por um momento... ah! breve eternidade em que não respirarei para que o bater do coração não apresse o desenrolar da fita!
Nestas entrelinhas em que me enrolo, já não sei onde acabas e começa a figura que compus de ti, embebida nas linhas que vou tecendo dos silêncios em que penso que te oiço, nos vazios onde, juro! te vejo...
Liliana Lima





Nunca escrevi
sou
apenas um tradutor de silêncios
a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

de Mia Couto
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