segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Sou um poeta invertebrado - José Luís Peixoto


Sou um poeta invertebrado

Faço perguntas às minhas próprias dúvidas e lembro-me
De um filme antigo quando percebo que não respondem:
silêncio a preto e branco.

Procuro no meu caderno de linhas direitas. Em tempos,
Andei na escola e tinha a régua mais bonita da terceira
Classe. Era um menino de meias e calções.

Encontro uma esferográfica sem tampa e sei que sou
O último kamikaze antes da derrota. É sempre assim:
Um sentimento trágico oriental sentido a Ocidente.

O meu coração está localizado a oeste. Quero invectivar
Contra a própria rosa dos ventos que me fez nascer:
Multinacional sentimento trágico: milhares de filiais.

Quando começo a anotar as minhas preocupações, tão
Importantes apenas para mim, já me esqueci de tudo:
Os segredos esconderam-se atrás de um muro.

Restam as metáforas, alinhadas por ordem de presumível
Intensidade. Escuto-as no meu walkman tonto e desaprendo
Outra vez de ser infeliz.

José Luís Peixoto
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