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domingo, julho 09, 2023

pêra_ROCHA

A caminho de minha casa passo pelos pomares da, tão conhecida, Pêra Rocha do Oeste. Entrelaçam-se com as Maçâs de Alcobaça e outras culturas sazonais como couves, abóboras, milho e algumas vinhas (de que desconheço o nome), mas quem se destaca são, sem dúvida, as pereiras. 

Haverá, de certo, outros caminhos. Possivelmente mais rápidos, mais bonitos ou mais suaves, mas talvez porque "tortuosos são os caminhos do Senhor" acabo sempre por fazer o mesmo percurso. 

Para uma moça da cidade o campo é um manancial de descobertas. Para mim em especial, este caminho transformou-se numa incessantemente fértil nascente de estabilidade. Encontrei, no percorrer da estrada que vagueia por entre os pomares, um apaziguante diálogo entre a minha instabilidade interna e a constância das próprias pereiras. 

Conheci-as no Inverno, de troncos podados e formas rudes. Passava ao largo e estranhava aquele desfile do que me pareciam personagens saídas duma história de terror infantil. Ainda não sabia, sequer, que eram pereiras... Lembro que sou uma rapariga urbana (tipo os autocarros) para quem as pêras sempre tiveram um único propósito, acabar bêbedas, numa taça de vidro duma qualquer mesa de aniversário ou Natal. 

Depois veio a Primavera e o verde nasceu claro, em tímidos tufos aqui e ali, até vestir por completo os corpos castanhos e os decorar com flores alegres. Acompanhei, entusiasmada, o nascimento de pequenos frutos que se fizeram pêras. Até serem, bruscamente, apanhadas e levadas em enormes caixas para todas redes de supermercados, no Verão. 

Nessa altura, a minha relação com este minúsculo pedaço de natureza, já me tornara numa quase perita em pêras (passo a quase redundância). Costumava dizer, em jeito de brincadeira, ao chegar ao corredor das frutas "Olha ali a Aninha e a Manuelinha tão crescidas!" E entendia a mágoa das pereiras quando, indo ou voltando de casa, as via conformadamente sós esperando o Outono... 

No final das férias, os verdes escureceram e assisti, árvore-a-árvore, ao desfolhar do pomar, numa espécie de nevão Outonal que não me inspirou mágoa ou tristeza, apenas uma certa melancolia de fim-tarde de Setembro.

Quando cheguei novamente ao Inverno, os troncos podados e escuros já não pareceram seres estranhos ou assustadores. Todo o percurso tornou-se numa tranquila certeza de constância, num absoluto e permanente equilíbrio que, dentro de mim jamais seria capaz de encontrar.

A caminho de minha casa passo pelos pomares da, tão conhecida, Pêra Rocha do Oeste. Esta estrada, que não é feita de tijolos amarelos, tornou-se num certo ritual de descida à terra, ao ritmo certo das coisas, ao tempo natural e ao espaço onde este silencioso diálogo entre a minha instabilidade interna e a previsibilidade das próprias pêras que se torna, ele próprio, tão profunda e previsívelmente apaziguador.

Liliana Lima



domingo, abril 30, 2023

notas MUSICAIS...

 Ora vamos lá ver, gostava de fazer uma ou duas perguntas (às quais podem responder nos comentários para isto ser interactivo) e depois deixar uma ou duas considerações sobre contas...

Sabe quem me conhece que detesto algarismos, cálculos, operações numéricas e tudo o que lhes está ligado. Mas, e na vida há sempre um "mas", infelizmente e cada vez mais temos de fazer contas, olhar para os resultados e fazê-los esticar até ao fim do mês.

Vamos às perguntas:

1 - Quantas vezes já foram ao pão e trouxeram-no sem pagar?
2 - Quantos dias, nos vossos empregos, foram trabalhar sem receber o vencimento, subsídio de refeição, horas noturnas ou extraordinárias e todas as remunerações a que têm direito?

Vamos às considerações que, no fundo, são mais duas perguntas:

1 - Se pagamos (e muito bem) o pão que compramos para comer com a família no feriado, porque vamos ao concerto do Dia do Trabalhador sem pagar entrada?
2 - Se nos empregos se recebe (e bem) de acordo com o número de horas/dias trabalhados, porque é considerado normal que um artista participe num evento sem ser remunerado?

Quando convidam um artista para participar num evento, estão a organizar aquela que é, A causa mais nobre e mais importante para cada um e para as suas associações, terras, angariação de fundos, homenagens, tributos e tantas outras causas meritórias na grande maioria dos casos. E, por isso, esperam que o artista se sinta lisonjeado pelo convite. E, na maioria dos casos, sente.

Mas (e na vida há sempre um mas), quando a remuneração do artista depende do número de dias ocupados no calendário com concertos pagos, ou da quantidade de bilhetes vendidos para concertos feitos à bilheteira, e quando essa remuneração tem de pagar uma série de custos como outros artistas, deslocações, técnicos, dias e dias ocupados no calendário com ensaios, despesas de saúde (também as têm), com a família (também as têm), com a casa onde vivem (convém que as tenham) e, também com o pão que vão buscar ao feriado para comer com a família...

...Sair de casa para receber a honra de actuar num tributo, homenagem ou angariação de fundos, (muito meritórios, obviamente) sem receber o valor da farinha e da água, sem falar do seu próprio trabalho de amassar, levedar e cozer o pão, fica caro. Quando o número de dias ocupados com convites, dignos e nobres, são mais do que os ocupados com convites, dignos e nobres, pagos ou arriscando a aceitação do público, as contas ficam (no mínimo) desiquilibradas

1 - Se todos pagam (e muito bem) o pão que compramos, porque é tão difícil compreender que o padeiro, por muito que goste da música,, só pode fazer um número reduzido de pães grátis por ano para não entrar em bancarrota?...

Liliana



sexta-feira, novembro 18, 2022

PARAbéns AMANHÃ

Fomos hoje, não amanhã, que afinal os dias são o que fazemos deles.

Fomos à margem, não ao leito, que tudo vale pelo que de nós pomos no quase nada.

Fui dar-te os parabéns e, mais uma vez, agradecer por me "olhares assim", com esse amor maternal que, ainda, olha por mim.

Fui relembrar o teu aniversário dos 90. Lembras-te? Fomos ao Vitor, todos e todas, duas mesas cheias de primas (somos uma família de mulheres...) e uma mão cheia de canções "escolhidas pela senhora" cantadas pelo Carlos (tão longe do que hoje é o nosso).

Fui lembrar os dias, os que nos dão o nome e os que passam na corrente do Tejo, o teu mar e o meu colo.

Vi-te no prateado das ondelações, na tranquilidade da maré baixa, na claridade do céu que nos beijou de azul.

Vi-te como te vejo nas horas claras das receitas que repito, das histórias que partilho, das palavras que perpetuo.

Depois despedimo-nos e tu acenaste um até já corriqueiro.

Depois despedimo-nos e o céu choveu, por entre o Sol que se manteve aberto.

Fomos hoje, não amanhã que seria o dia certo, para te dizer Parabéns!

Liliana



terça-feira, março 23, 2021

MARia

Trazes no colo a luz mais pura
da manhã clara e Primaveril 
Semeias a palavra candura 
em cravos pintados de Abril

Mulher-água, mulher-fogo 
Mulher-terra, mulher-flor 

Saltitas por entre as hortenses 
dum azul salgado à beira-mar 
Pé de catraia em terra-firme 
Sorriso aberto para abraçar 

Mulher-água, mulher-fogo 
Mulher-terra, mulher-flor 


Liliana Lima

quarta-feira, abril 29, 2020

Crónicas duma Separação Consumada XXIX

Meus amores, 
Que vos dizer, nestes dias tão compridos que parecem nunca mais acabar, que não tenha sido já dito, escrito, cantado, declamado ao vivo, ou melhor, em directo para todo um admirável mundo que (se) sente quase em uníssono nas mesmas inquietações? 

Talvez comece por vos explicar que nunca vos disse que "vamos ficar todos bem", porque não acredito que assim seja. Não vamos, não estamos. Infelizmente cada vez mais se aproxima de nós a notícia de que alguém que conhecemos, que nos é querido, que admiramos, que é nosso vizinho, e que está muito mal ou até já morreu. 
Sempre fui mais dada ao pessimismo (ou se calhar ao realismo directo e bruto, o que deixa deveras incomodados os optimistas românticos), quem sabe por isso mesmo prefira a cautela de não elevar demasiadamente as expectativas. 
Quem sabe por isso mesmo prefira dizer-vos que vamos ficar o melhor possível, sabendo que todos faremos de tudo para cada um de nós ficar bem.

Gostava, isso sim, de vos falar dos arcos-íris e de toda a simbologia que acarretam para mim. 
Nunca vos disse que "somewhere over the rainbow" há um pote de ouro. 
Mas desde sempre presenciaram o sentimento de overwhelming (desculpem-me não encontrar a palavra em português, já sabem que acontece, cada vez mais) quando o avisto, nem que por um só instante. 
E também vos contei, quando ainda me davam a mão para andar na rua, como este magnífico arco colorido, que pinta o céu com uma tinta tão breve como um suspiro, simbolizou/a "a nova e eterna aliança" entre Deus e o Homem. 
E talvez seja por esta última razão que, mesmo antes de a conhecer, escrevi tantas e tantas vezes sobre ele, mais precisamente em 136 textos a acreditar no que este caderno de virtual me diz.

É que, para mim, o arco-íris simboliza a passagem para um mundo paralelo, imaginário talvez, simbólico diria Freud ("tudo depende da bala e da pontaria"). 
Um mundo seguro onde as cores se diluem para neutralizar as dores e os medos. 
Para mim, o arco-íris, é uma espécie de portal (tentando ser cinematográfica) para uma dimensão onde há muitos caminhos, amarelos ou não, que percorremos escolhendo que direcção tomar a cada cruzamento, com a certeza de que "para quem não sabe onde vai, todos os caminhos são certos" e que temos em nós o poder de, a qualquer momento, bater com os calcanhares dos nossos sapatos, esses sim vermelhos sem dúvida, e voltar para casa. 

Há aqui algo de mágico, uma espécie de metamorfose auto-infligida para uma utopia que nunca deixo de ver no céu.

Então, estão vocês a pensar, não estarei eu a ser contraditória ou até "ligeiramente snob" ao franzir o sobrolho a tanto arco-íris que pelas janelas e ecrans e televisões (e não é só de agora) se multiplica? 
Talvez sim. 
Talvez tenha receio que o vulgarizar de algo tão profundo para mim, tão pessoal e sagrado até, faça perder o sentido ao "meu" arco-íris.

No fundo, o que hoje vos queria dizer era da força da utopia, tenha ela o formato que tiver. 
No fundo, o que quero como vossa mãe é que encontrem em cada um o "vosso" arco-íris e que, quando o descobrirem o guardem bem protegido no mais profundo recanto de ti e de ti e de ti, para que fique resguardado de todas e quaisquer intromissões do mundo, por muito estranho ou até (aparentemente) unido que ele se encontre. 
E que se lembrem que a dúvida, é normal e saudável, obriga a pôr-nos em causa, a questionar-nos repetida e criativamente toda e cada certeza adquirida até nos levar, invariavelmente... a uma nova dúvida.

Deixo-vos uma citação de uma das canções da minha vida, e depois deixo-vos uma cantiga, com letra minha e música do Carlos, sobre a nossa vida.

Com muito amor,
Mãe

"Homem que olhas nos olhos

que não negas

o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?"


Utopia
José Afonso

Que sei eu das ruas desertas para vos explicar?
Que sei eu de quantos dias aqui vamos passar?
Que sei eu destas tantas rotinas sem parar?
Se também eu me perco neste mundo a desmoronar?

É sempre mais fácil o que nas outras janelas reluz
Sempre menos doloroso o medo que eu não compus
É tão confusa esta liberdade que, da porta, me chama
Fico. Livre e consciente, para salvar quem me ama

Trago a força renovada no corpo ao amanhecer
Trago as mãos cobertas de sonhos por acontecer
Trago tempo embalado em latas de magia
Que guardo na esperança de nunca perder a utopia

É sempre mais fácil o que nas outras janelas reluz
Sempre menos doloroso o medo que eu não compus
É tão confusa esta liberdade que, da porta, me chama
Fico. Livre e consciente, para salvar quem me ama

Canção de uma mãe
Carlos Alberto Moniz / Liliana Lima



quinta-feira, abril 02, 2020

Crónicas duma Separação Consumada XXVIII

Faz hoje treze anos do dia em que, pela terceira (e última) vez fui mãe. Tua mãe.

Os dias eram agitados e as noites tinham muitas vozes. Os abraços, a sério mesmo, tinham cheiro, sabor e força, e eram dados amiúde (penso até que os desvalorizávamos). Toda a gente dava dois beijinhos quando chegava e quando partia e os namorados passeavam de mãos dadas na rua.

Faz hoje treze anos! E hoje, pela primeira vez, não tiveste embrulhos nem os primos a correr pela casa, nem mesmo o teu irmão mais velho estará contigo à hora dos parabéns. 

Hoje, pela primeira vez (e espero que última), vivemos o teu aniversário em quarentena, reclusos de um vírus que não sabemos combater e que nos afasta uns dos outros. E que me obrigou a mim, tua mãe há precisamente treze anos, à situação mais bizarra que me poderia ocorrer viver, ver-me obrigada a negar ao teu pai o direito de, simplesmente, passar o serão contigo e trazer-te de volta, porque fazes parte do grupo de risco. E que transformou um dia, naturalmente agitado, numa tentativa de alterar as rotinas, sem mais do que três saquinhos, de sugos, pastilhas e bolachas cobertas de chocolate e creme de avelã, para te oferecer à primeira hora da madrugada que esperaste ansioso no quarto.

Faz hoje treze anos do dia em que, pela terceira (e última) vez fui mãe. Tua mãe.

E hoje, ao mal estar que senti (aliado à vontade, sempre presente, de te ver feliz) tu contrapuseste uma alegria tão genuína, pura, despida de quaisquer preconceitos ou egoísmos, que nos serviste como lição de vida. E com o sorriso de menino que, aos treze anos naturalmente ainda tens, mostraste-nos que o importante não é estarmos aqui ou numa praia cheia de turistas. O que realmente interessa não é sermos nós os quatro em videoconferência com o Hugo e primos ou toda a família fisicamente reunida. O que valor do que se dá e recebe não se mede em muitas prendas com laços coloridos ou três sacos de doces. O importante é estarmos bem, com saúde, com espaço intelectual para sermos nós próprios e nos expressarmos sem constrangimentos, termos a capacidade de nos aceitar uns aos outros e às nossas idiossincrasias (às vezes antagónicas). O importante é sabermos acordar a cada manhã com vontade de viver mais um dia, seja ele de chuva ou de sol. O que é de facto importante, é procurarmos no nosso coração a inocência do amor de meninos, e só esse é inocente e capaz de nos mostrar o arco-íris que, sabes, sempre me inspirou (muito antes de qualquer tipo de catástrofe mundial, ou muito para além de qualquer tipo de pote no outro lado das cores). 

Faz hoje treze anos! (e para mim talvez seja o dia 0) E, em quarentena, com a ementa possível, a família no écran dos telemóveis, os doces que repartiste pelos quatro, e o bolo de cenoura e chocolate que pediste, comemoramos o teu aniversário e com ele a vida e o amor. 

Que bom ser tua mãe!

Obrigada por seres quem és! 
Que a vida te permita manteres-te assim por muitos e felizes anos!

Com muito amor,
Mãe


quarta-feira, março 25, 2020

Crónicas duma Separação Consumada XXVII

Meus amores, sem me querer repetir às milhares de vozes que se escrevem a cada hora sobre a estranha realidade que vivemos, há algumas palavras que vos queria dizer.

É difícil e confusa qualquer explicação que tentemos acerca do estado de espírito que estes dias conturbados nos inspiram. Não há, ainda, estudos sociológicos que acolchoem as teorias, nem há certezas científicas que nos apoiem as opiniões. Há o bom senso e a tranquilidade possível que cada um de nós consegue encontrar dentro de si próprio.

Tudo é novo, tudo é descoberta. Expectativa e desilusão, medo e persistência. Tentativa e erro, erro e nova tentativa. 

Dizia ontem à vossa madrinha que me parece que tenho um ascendente, e só posso adjectivar assim pelo absurdo quotidiano mundial, em relação às "outras" pessoas. Já me vi, por várias vezes, confinada ao espaço de casa. Não me é novo, portanto, o sentimento de pensar "hoje não saio e amanhã e depois de amanhã também não"... A grande diferença, que neste momento se faz pequena, é que desta feita está meio mundo na mesma situação que eu. Onde entra o ascendente que não tem nada a ver com tarot nem alinhamento planetário? É que para mim, na verdade, como não é a primeira vez que estou fechada, pelo menos isso já não me assusta.

Sei que nenhum de vocês leu Kafka que, para qualquer dos três, Metamorfose é simplesmente o processo pelo qual, por exemplo, a lagarta se transforma em borboleta. Se tivessem lido a Metamorfose ou até mesmo O Processo, seria mais fácil partilhar convosco esta sensação de absurdo que se torna real numa noite igual às outras, ou esta angústia de não saber quando daqui vamos sair nem o que fizemos para cá chegar.
Mas tenho certeza que também sentem toda esta incerteza que entrou nas nossas vidas e inundou os nossos dias, por muito que não partilhem as vossas inquietações.

Sei que os meus dias estão tão cheios de tarefas que não tive ainda tempo para respirar, quanto mais para ler ou escrever ou simplesmente estar. Sei também que, embora necessárias e indispensáveis, talvez com um pouco mais de organização (ou descontracção) as possa limitar ao essencial. Sei que o tempo que disponho para os trabalhos da escola ou jogos de tabuleiro ou exercício é sempre insuficiente.

Sei que por muitos ascendentes (em Vénus) que tenha, não deixo de ter "cá dentro inquietação", tanta inquietação que nem sempre me é possível tapar com a roupa que está a secar ou que já se molhou com a chuva, com os tachos do almoço e do jantar, com a areia dos gatos por mudar ou as casas de banho por limpar. 

Sei tudo isso, mas também sei que tento com tudo o que tenho ajudar-vos, dar-vos o mínimo de preocupações e o máximo de conforto.

Ou seja. O que vos queria dizer, meus amores, é que estamos todos dentro dum absurdo que nunca imaginámos viver (para além dos 120 minutos de cinema americano) e nem nós nem ninguém, leia-se ninguém mesmo, nos sabe explicar quando sairemos dele.
Cabe-nos, em família, com os nossos amigos, de forma menos próxima fisicamente mas não obrigatoriamente menos real, encontrar a tranquilidade possível, sendo que teremos de ser nós próprios agentes de criação e manutenção dessa mesma paz.

Com muito amor,
Mãe




sábado, fevereiro 22, 2020

Cónicas de uma Separação Consumada XXVI

Ouçam sempre com atenção os reflexos que, como quem não quer a coisa, nos olham por entre as projecções aparentemente límpidas das horas que passam.

A sobreposição de imagens, principalmente quando quase não nos denunciam a presença, tem o condão de nos fotografar a alma e todas as histórias que dentro daquele ínfimo momento vivem em nós.

Acreditem que, por muito que nos esforcemos por manter o semblante coerente com o ritmo externo haverá sempre um reflexo, uma espécie de instantâneo com a diferença de não ficar impresso em lado nenhum, que captura a verdadeira essência do que sentimos, vivemos ou até escondemos.

Dizia o José Mário Branco que "quem conta uma alegria que não tem / não conta nada a ninguém". 

Não estamos sempre sorridentes, penteados, vestidos casualchic como mandam os bons (ou maus) costumes. Não somos sempre delicados com os outros, por mais bem-educados que nos achemos. E ninguém está completamente em paz com aquele que nos olha do outro lado do espelho.

Dizia ainda o José Mário "deixa a tristeza sair / pois só se aprende a sorrir / com a verdade na boca".

Quem está connosco, verdadeiramente connosco (e só esses interessam), saberá interpretar os reflexos destas nossas complexidades e, quem sabe reconhecer-se-à em muitos dos esgares que, decapando as várias realidades que nos moldam, acabam por denunciar as idiossincrasias que fazem de cada um de nós... cada um de nós.

Não acrescentará grande coisa dizer-vos que estarei sempre aqui, sejam de que cor forem os possíveis reflexos dos dias que se espelhem nas nossas janelas, ao fim do dia quando parece que não vamos conseguir dar nem mais um passo em frente.

Acrescento isso sim, que sei que nunca vos assustaram as fragilidades que tantas vezes me mostram desfocada em todas as montras da cidade.

Volto mais uma vez ao José Mário Branco e ao que me disse, quando era bem pequenina em frente a um gira-discos, "canta da cabeça aos pés / canta com aquilo que és", mas foram precisas muitas e muitas vezes a cantar com ele para, por fim, entender o que queria dizer com "só podes dar o que é teu".

Por isso, meus amores, não tenham medo da canção que ouvem dentro de vós. Acolham-na e cantem-na se assim acharem por bem. Mas não a tentem abafar por este ou aquele ou mesmo nenhuma razão. 

Sejam da cabeça aos pés. Como dizia, desta feita, Ricardo Reis "sê inteiro: / nada teu exagera ou exclui". 

É que, sempre que nos escondemos por trás duma qualquer máscara (e até estamos no tempo delas), os reflexos que, como quem não quer a coisa, nos olham por entre as imagens aparentemente límpidas das horas que passam, devolver-nos-ão a verdade que apenas a nós próprios pensávamos reservada.

Com muito amor,
Mãe



   
   

sábado, fevereiro 08, 2020

Crónicas duma Separação Consumada XXV

Ouvi, no outro dia, um grande senhor da rádio e da comunicação, dono duma daquelas vozes inconfundíveis e incontornáveis, dizer que "a voz é a nossa impressão digital sonora"*. 

Estas palavras, e a voz dele também, ficaram dentro de mim "do coração para a cabeça e da cabeça para o coração"* a pedir-me que vos falasse de como encontrar a nossa voz no meio do imenso ruído que nos circunda.

Não são só vocês que se debatem com esta crise de identidade, se bem que tudo o que a crises diga respeito seja quase sempre colado à adolescência e suas flutuações. Na verdade, meus amores, muitos são os adultos que não sabem/conseguem identificar e dar voz... à sua voz.

A questão não está no tom ou na intensidade. A dúvida resulta sempre desta máxima que afirma que "a voz é nossa impressão digital" e, como tal, é única e irrepetível. 

Dir-me-ão vocês, isso são já duas dúvidas. São. São muito mais que duas, na verdade. 

Acrescenta-se uma, por exemplo, em cada vez que tomamos consciência de que estamos a falar, não com a nossa, mas com uma voz colectiva com a qual podemos concordar e comungar das mesmas cores, imagens, mudanças de tom, ritmos, respirações e mensagem... mas que não nos espelha na nossa complexidade interior e exterior que faz de nós, lá está, únicos e irrepetíveis.

Acrescentam-se mil receios sempre que sentimos a nossa voz abafada, ou estrangulada por situações ou alguéns que julgam saber melhor do que nós próprios, o que é bom e indicado... para nós. 

Dobra-se a distância que separa a voz com que falamos da nossa voz interior, cada vez que nos proíbem de escrever, ler, estudar, conhecer, e dizer do tanto que vamos sentindo, porque são ideias fora do quadrado considerado seguro pelo status quo, seja ele a que nível for.   

A impressão digital de cada um é assim como que a nossa sombra reflectida, ora pelas luzes coloridas sempre em movimento nas paredes e muros da cidade, ora pelo Luar nas águas irrequietas do Tejo, ora mesmo pelo Sol do meio-dia debaixo dos nossos pés na paz dum cerrado no meio do Oceano. Por muito que mude de aspecto, é sempre o nosso corpo que se recorta na luz envolvente.

Ou seja, o que nos identifica na nossa complexidade pessoal não é o tom mais grave ou agudo das frases, nem a forma como dizemos as palavras (seja em termos de dicção ou de sotaque), nem a força com que gritamos, nem mesmo a velocidade a que debitamos ideias ou falta delas. Tudo isso faz parte do embrulho em que a nossa voz se apresenta, e que, obviamente também ajuda a identificar sonoramente cada indivíduo.

O que realmente faz da voz a nossa impressão digital sonora, é sempre o resultado dum caminho interior de conhecimento e procura (que não tem idade) da narrativa que nos conta em todo o nosso esplendor, sem apagar as nódoas negras nem destacar excessivamente as vitórias (pois qualquer dos casos iria desequilibrar essa mesma auto-narrativa e, por conseguinte, desbotar a impressão digital).

Esse caminho, por muito que neste momento não concordem, começa muito antes da adolescência, antes mesmo de começarmos a falar, e não acaba até deixarmos de cá estar.

Por isso, meus amores, não se inquietem demais com os receios e dúvidas que vos assaltam o espírito. Eles são saudáveis e servem de bússola para esse caminho que, quão mais tranquilo e livre for, mais transparente soará o vosso canto. Sabendo, claro, que na vida haverá sempre tensões e conflitos, e é nesses momentos que aprendemos que a voz... "é uma arma/ tudo depende da bala/ e da pontaria/ tudo depende da raiva/e da alegria..."*

A vossa voz é a vossa impressão digital sonora, única e irrepetível.

Podem (e devem) juntar-se a tantas outras vozes quantas vos pareçam interessantes e merecedoras.

Mas não se deixem calar, nem abafar sequer, seja porque motivos for.

Espero que a minha voz, uns dias rouca outros leve, às vezes amarga, tantas vezes cansada, mas quase sempre cantada, de alguma forma, vos vá ajudando a encontrar cada uma das vossas!

Com muito amor,
Mãe



   


*António Sala dixit
*Uma Flor, Almada Negreiros
*A cantiga é uma arma, José Mário Branco




sábado, fevereiro 01, 2020

Crónicas duma Separação Consumada XXIV

Amar, meus amores, não é "apenas" estar presente no dia-a-dia, partilhar desafios e enfrentar as tempestades. 

Isso reduziria as relações a uma, mais ou menos prazeirosa, manutenção do caos. E afinal, o amor é tão mais abrangente.

É claro que apenas uma forte ligação consegue superar, os horários sobrecarregados e mal arrumados de escolas que se preocupam muito pouco com a ginástica contorcionista a que obrigam milhares de pais e filhos semana após semana.

É claro que somente uma conjugação forte de vontades supera, os imprevistos que, tão previsivelmente, teimam em aparecer no caminho de cada um, fazendo lembrar que controlamos muito pouco da rota em que seguimos.  

É claro que apenas uma profunda ligação ultrapassa, o desgaste de acordar com a mesma pessoa que connosco se deita todos as noites, e que tem frio quando temos calor, ou deixa a escova cheia de cabelos, ou não limpa os restos da pasta dos dentes e, tem calor quando temos frio.

Mas, meus amores, amar é muito mais dos que estar presente no dia-a-dia, partilhar desafios e enfrentar as tempestades. 

Já viram centenas de filmes e conhecem mil canções que falam de amor. Na vossa idade o importante é mesmo essa presença, muito física, do ser amado. E não estão errados. Partilhar, com-viver, experienciar, descobrir e conhecer em conjunto, comungar dos mesmos gostos e preferências. Essa é, não só para vocês, a verdadeira essência do amor.

No entanto eu, que "vim de longe, de muito longe", gostava de partilhar convosco que amar não é "apenas" estar presente no dia-a-dia, partilhar desafios e enfrentar as tempestades. 

Diria mais, amar é saber estar longe sem que a distância que nos separa se pinte de vazio. Para alimentar uma relação in loco há mil e duas estratégias. Um recado na cabeceira... Um adjectivo à saída de casa... A mesa posta com guardanapos de pano... Panquecas para o pequeno-almoço... 

O desafio, meus amores, é estar sem estar. 

Amar é ser criativo. É mostrar que mesmo quando não se passam os dias a par, o mundo continua a ser sentido em conjunto. É, acima de tudo, partilhar esse sentimento que se torna ainda mais urgente quando não se está por perto.

É o que sinto e é o que vos quero passar. 

Mesmo quando não estamos juntos, há uma miríade de referências, lembranças, antecipações e certezas que me ligam a cada um de vocês. Quem sabe não vos mostre tanto quanto devia é certo, mas... "atrás dos tempos vêm tempo e outros tempos hão-de vir"...

E afinal, meus amores, o nosso amor é tão abrangente que estamos sempre a tempo para dar uma volta ao tempo.

Com muito amor,
Mãe


  

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Crónicas duma Separação Consumada XXI

Todos temos os nossos receios, normalmente projectados no tecto do quarto quando não conseguimos adormecer. 

Todos temos as nossas memórias mais ou menos reconstruídas, retocadas ou maquilhadas, no decorrer dos anos.

Esta é a época dos sonhos e das expectativas, que fecho à chave numa gaveta pequenina não vá o diabo vê-las e, por pura diversão, desmontá-las com um sopro como de castelos de cartas fossem. 

Meus amores, sei que a árvore que comprámos não era bem a queríamos, que ainda por cima não a conseguimos montar, e acabámos por ficar com uma miniatura do que imaginámos. 

Sei que este vai ser "o primeiro ano do resto das nossas vidas", e sei que todos estamos com muito cuidado, avançando bem devagarinho para ninguém se magoar.

Meus queridos, quero dizer-vos que sinto tudo o que vocês sentem, reflectido no tecto do quarto quando não consigo adormecer. 

Mas também vos quero dizer, e isto é que mesmo importante, que sei que quando o "tempo faz cinza da brasa, nasce um novo dia e no braço outra asa".

Sei que, quando estamos todos juntos, o tamanho da árvore não interessa nada.

Sei que o importante de cada dia é vivermos as escolhas do nosso amor e não das datas impostas pelo calendário.

Sei que, das prendas que trocaremos, as mais valiosas são as escolhidas para cada um em especial e não as que têm um talão mais avolumado.

Sei que as filhoses só ficam boas contigo a ajudar a tender e contigo a ajudar a passar na calda (e contigo a roubar do tabuleiro).

Sei que queres que este ano haja um "peru mesmo a sério, recheado e tudo", e assim será.       

Sei que não queres magoar ninguém, e que tudo fazes para a todos agradar (e, embora saiba também que isso, meu amor, não é possível, tudo farei do meu lado para não ser eu a mensageira dessa triste notícia).

Sei também que, embora pareças alheio, estás cá, à tua maneira, e é isso que devo valorizar.

Todos temos as nossas memórias, os nossos sonhos, os nossos receios. O desconhecido é, normalmente, causa de medos e ansiedades. E este é, afinal, "o primeiro ano do resto das nossas vidas". Mas quero assegurar-vos que tenho certeza de que o amor é, foi e será sempre, o pilar mais importante da nossa relação e isso faz toda a diferença! (tenha o pinheiro meio metro ou dois metros e meio de altura!)

Com muito amor,
Mãe 



segunda-feira, novembro 25, 2019

Crónicas duma Separação Consumada XX

Meus queridos, tenho andado às voltas com uma preocupação que me assalta o sono de quando em vez. É assim como que um mau estar que aparece do nada e com o nada faz aumentar a pulsação e a sensação de que nada posso fazer a não ser deixar passar a onda...

Diz o poeta* que "é preciso avisar toda a gente", mas eu já não tenho essa pretensão.

Quero dizer-vos a vocês, meus amores, que o mundo não se pinta a preto-e-branco. 
Quero explicar-vos a vocês, meus amores, que as acções dos outros não se podem ler com os olhos de quem não fez a sua viagem, de quem não conhece o que carregam na sua bagagem.
Quero muito que entendam, meus amores, que sempre que julgamos quem se senta ao nosso lado, temos primeiro que experimentar o lugar onde seguiam.
Preciso de acreditar, meus amores, que vocês vão saber nadar contra a corrente e não seguir cegamente nenhum carreiro, porque mudar de rumo não é uma fraqueza é uma prova de inteligência e amor-próprio.
Quero ensinar-vos, meus amores, que ouvir alguém, ouvir a sério olhos-nos-olhos, não é obrigatoriamente entender, perceber ou mesmo concordar. Quantas vezes gostamos de pessoas de quem discordamos aqui e ali. 
Quero dizer-vos, meus amores, e acho que isto é muito importante, que ouvir/vendo as outras pessoas, é ser capaz de ser solidário mesmo quando não compreendemos ou concordamos totalmente com elas.

Diz o poeta* que é preciso "dar a notícia, informar, prevenir", assim o tento, mas não a toda a gente que já me deixei de utopias. 

Mas a vocês, meus amores, a vocês quero avisar que devem sempre desconfiar de discursos inflamados e muito cheios de si. Quem não tem espaço para dúvidas, não tem espaço para acolher o diferente. 
Mas a vocês, meus amores, a vocês quero explicar que quem não consegue acolher (reparem na palavra que escolhi) o que nos é contrário, estranho, difícil de perceber, nunca conseguirá ver o mundo para além duma paleta de cinzentos.

Diz o poeta* que é "preciso, imperioso e urgente", e vocês são as minhas flores. 

Por isso vos trago a notícia, a linha que divide o certo do "in"certo é ténue, curvilínea e muito instável. Não se encostem, não se deixem embalar, não cedam a certezas empacotadas com laços coloridos.

Pensem. Estudem. Questionem. Tomem decisões. Pensem. Questionem. Estudem. Mudem de rumo, se assim acharem. Pesem. Questionem. Tomem decisões. Questionem. Pensem. Questionem...   

Com muito amor,
Mãe





*Luís Cília - É preciso avisar toda a gente

sexta-feira, novembro 01, 2019

Crónicas duma separação consumada XIII

Filho, há tantas coisas que gostava de te dizer. 
Filho, há tantas coisas que gostava que soubesses o quão grata te sou. 
Filho, há tantas coisas que gostava de te pedir desculpa.

Sempre que não estás, não vens, não apareces ou não dizes de ti... Fico numa luta interna entre o espaço que o silêncio te dá e, hipoteticamente tu desejas (sabes o quão ensurdecedor é o silêncio de um filho?!), e o grito que como qualquer mãe, ancestralmente, te chamo, te reclamo para perto, o mais perto possível de mim.

De tão atento e meigo e companheiro e prestável que és, quase não me dás tempo para te dizer, obrigada! Para te reconfortar na minha identificação e, por isso, compreensão da tua mente inquieta como um pardalito que saltita na relva. Para te assegurar que nos vamos habituando a esses saltitos quase imprevisíveis e à sua cadência insistente e permanente. Para te contar o tanto que podes fazer, assim o queiras, com esse pardalito também chamado ideia, ou mente, ou narrativas, ou subconsciente, de formas mais ou menos (in)conscientes.

Há tantas coisas na vida que não correm como nós gostaríamos... Gostava de te pedir desculpa por não conseguir mostrar-te que há sempre outras tantas (ou mais) que correm melhor do que algum dia esperaríamos. Os óculos com que olhamos à nossa volta, moldam o que vemos, sentimos e compreendemos da realidade, de formas tão profundas que condicionam todas as nossas interacções com "essa" (nossa) verdade. E quando agimos (porque não vivemos em grutas sozinhos e afastados do mundo) tocamos e interferimos com outros, como uma peça de Lego que permite ou anula a possibilidade duma determinada construção. Por isso, e apesar do tanto que não corre como eu própria gostaria, deixa-me ensinar-te a ver com os óculos certos o que a vida de bom nos traz.

Tenho saudades tuas. Obrigada pelo apoio que me dás. Vamos ver as estrelas? (mesmo com a chuva que lá fora cai...)

Com muito amor.
Mãe





quarta-feira, outubro 30, 2019

Crónicas duma separação XII

Recorto os horários e colo-os nos azulejos da cozinha. Não podiam ser mais díspares! 

Olho para os (muitos) relógios que tenho espalhados pela casa, cada um diz uma hora diferente do outro, ou pelo menos uns minutos: "são dois p'ra lá, dois p'ra cá"(*1).

E com esses quatro, fui deitar-te e (tentar) organizar a manhã seguinte. E assim o fiz. Ou pensei que o fizera.

Sabes, meu querido, sinto-me baralhada. Com os horários. Com os tempos entre horários que passo no carro "esperando, esperando, esperando alguém. .."(*2)

Esta manhã instalou-se o caos,  porque apesar dos dois despertadores programados, ninguém acordou na hora certa para te levar a ti e a ti levar também .

E, com este sentimento de baralhação, te levantei, te chamei, me vesti e saímos, sem telemóveis, o que nos valeu mais uma subida é certo, mas saímos. Muitos minutos para além dos que devíamos ter saído, e que todos somados dariam exactamente a hora a que devíamos ter acordado.

Fomos fugindo ao trânsito e aos acidentes,  também muitos  (talvez de pessoas tão atrasadas como nós mas que chegarão muito mais tarde com certeza), andámos o melhor que pudemos, com a ajuda Maria Papoila sempre tão expedita com as alternativas e as fugas à confusão. Mas o resultado, apesar do tanto esforço, não foi diferente do esperado. 

A verdade, meu querido, é que de cada vez que olho para os horários, para os mapas de testes, para a agenda com tanto por fazer... para as actividades... para as explicações... para os gatos por cuidar... para a catequese, para a roupa por comprar... e para os horários e para a agenda com tanto por fazer... sinto-me, baralhada...

Com muito amor, 
Mãe 



(*1)João Bosco e Aldir Blanc
(*2)Chico Buarque de Hollanda

sexta-feira, outubro 25, 2019

Crónicas duma separação consumada XI

Vamos! Empurra-me do sofá, que eles já não demoram a chegar.
Tentemos descomplicar a minha complicada cabeça e encaremos o Sol, de frente.
Deixa que o mar nos diga para onde ir. Está tão calma a maré, como calma devo aprender a estar, mais vezes.
Há um ultra-leve que rompe o silêncio das ondas. Acho que conhecemos o piloto, mas não me lembro do nome dele. Nunca me lembro dos nomes.

Vamos! Empurra-me deste banco e leva-me à areia molhar os pés.
Tentemos salgar os dias que, às vezes deixo passar ensonsos. 
Deixa que o Sol, de Outono, me aqueça o corpo e abra as mãos para os abraços que aí vêm. 
Há um bando de gaivotas que saltitam em torno dos barcos. Procuram restos da pesca e lutam por eles. Não gosto de pássaros. Afasto-me e saio pelo lado contrário da praia.

Vamos! Empurra-me desse nevoeiro por mim criado e por mim sentido, e leva-me neste primaveril dia de Outono fora.
Tentemos desenhar caminhos amarelos e espreitar os dois lados dos espelhos com que nos cruzarmos.
Há um mundo inteiro por descobrir na ponta de um lápis e eu tenho tempo.  Os rapazes chegam amanhã! 

Venham com calma que eu cá vos espero! 

Com muito amor, 
Mãe 


quarta-feira, outubro 23, 2019

Crónicas duma separação consumada X

Eu sei, que tu te esforças o mais que podes; que tu ainda não consegues entender completamente a realidade que te rodeia; e que na verdade, não sei o que tu sentes ou pensas.

Às vezes chego ao final de um dia e, ao olhar o espelho, assalta-me um sentimento de culpa que invade tudo o que vivi ou senti, pelo simples facto de... o ter sentido e vivido sem ter estado com vocês. 

Ainda há uns dias, acordei bem disposta, cozinhei, arranjei-me, preparei a casa, acolhi os amigos. Senti-me bem. Conversei, ri, cantei, contei e despedi-me. Senti-me bem. Arrumei a cozinha e a sala. Continuei a sentir-me bem. Fui-me despir e desmaquilhar, e quando olhei para o espelho, o pano caiu... em cima de mim. De mim e de um dia inteiro de sol que ficou encoberto pelo peso da culpa e da vergonha, por ter "ousado" ser leve e alegre longe dos meus filhos.

Sabem? Não é difícil dizer "isso é normal, mas tens direito a ser feliz", não é difícil e socialmente é mesmo o discurso vigente. Mas, parar e olhar para mim, para a forma como o espelho me vê e eu me vejo no seu reflexo, e a partir daí aprender a sentir-me mulher. Antes de mãe. Antes de amiga. Antes de amante. Antes de companheira. Isso, meus amores, isso é deveras complicado.

É que, trago no peito esta ideia de que tudo tem de girar em torno de vocês. De que sou mãe e mãe sou. E, portanto, a vida corre em compasso binário, viva - convosco, suspensa - sem vocês. E sempre que me vejo em plena valsa, dançando sem dar conta que fui eu quem pediu a música, num dia, numa semana em que vocês estão longe, parece-me que estou a ser infiel a esse papel quase religioso que parece ser a maternidade.

Não. Não espero, nem quero, que qualquer um de vocês perceba, muito menos responda a estas questões, para as quais, afinal, eu até tenho as respostas dentro de mim (ainda que nem sempre saiam no tempo certo).

Eu sei que te esforças. Que ainda não consegues entender. E que não sei de ti. E é por sabê-lo, que me parece importante que percebam que existe esse outro lado do meu espelho. 

Acredito que é partilhando o que sinto, o que vivo (convosco e sem "vosco"), que vos preparo. Que vos deixo pistas para as vossas vidas. 

Quem sabe um dia ao olhar o espelho o pano cai... e um de vocês se lembra o que não entendeu do tanto que vivemos e, como por magia, ao perceber tudo se torne mais fácil. É que, "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir"(*)

Com muito amor, 
Mãe




(*) Fausto

quarta-feira, outubro 16, 2019

Crónicas de uma separação consumada IX

Somos todos feitos da mesma matéria. Luz. Dia. Alegria. Noite. Dor. Inquietação. 
Somos todos sentimento em bruto, que a vida há-de moldar.
Somos carentes, de amor, de felicidade, de aceitação. 
Somos iguais, então, tu e eu, e eu e tu, e tu e tu. 
Saberás, tu, o quanto dói, o tanto que fere, a ausência, o silêncio, o afastamento? 

Somos todos sentimento, pela vida moldado, pelo tempo esculpido, pela experiência vivido. 
Não somos iguais, então, eu, tu, tu e tu. 

Cada um tem em si "todos os sonhos do mundo" *. 
Do seu mundo. 
Do filme que, noite após noite, vê espelhado nas costuras do sono. 

Não somos iguais, então, tu e eu. 
É possível que não saibas o quanto. 
Não te apercebas do tanto.
Não consigas interpretar o silêncio.

És um entre biliões, em milhões, em dezenas, em três. 
Ou seja, és único para mim. Como tu. E tu. 
Ou seja, a ausência, nesta equação, ao ser multiplicada por um, é exponenciada ao infinito. 
Ou seja, este sentimento único é "impossivelmente real" *. 

Somos todos feitos da mesma matéria. Luz. Dia. Alegria. Noite. Dor. Inquietação. 
Mais ou menos dobrados pela vida e quebrados à força do tempo. 

Somos todos iguais, na essência. 
E é lá que te procuro. 
E é para lá que olho. 
E é de lá que te digo que, sabendo, só podes não saber.

Com muito amor, 
Mãe 




*"Tabacaria" de Álvaro de Campos


quarta-feira, outubro 09, 2019

Crónicas de uma separação consumada VIII

Pontes 
Sem alicerces 
Sem pilares 
Pontes
Por sobre as ilhas 
Por sobre as nuvens 
Por sobre as imagens 
Pontes 
Cantadas 
Faladas 
Caladas 
Pontes 
Em alta velocidade 
No trânsito 
Pontes 
Com "mais cinco" 
Sabendo "o que faz falta" 
Pontes 
Com ensaio 
À capela 
Com segunda voz 
Pontes 
Por entre o Zeca 
E o João 
E o Carlos
Pontes
A vapor 
Metidas à força 
Pontes 
Em palco e sem ensaio 
Pontes 
Até ti
Para ti
E por ti


Com muito amor, 
Mãe