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quarta-feira, março 09, 2022

Limões sicILLIANos

Ah, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas...

Deixem-me contar das cores, das formas e dos cheiros! Deixem-me dizer das sensações e dos sonhos!

Não quero pensar em tudo o que não me interessa. 

Quero falar de limões, preferencialmente da espécie limão sicilliano que se adapta muito bem em vasos. Sabiam?

Quero falar da lantana e das pedras que se deve colocar no fundo do vaso para que haja uma óptima drenagem, e ficar à espera da possível mudança de cores de ano para ano.

Quero subir e descer escadas pelo prazer, tão raramente prazeroso, de... arrumar.

Quero falar de madeiras e chãos com quem, tenho a certeza, tudo fará para me ajudar porque sabe que "é magra a ceia" mas, já dizia a minha avó, põe mais um copo d'água na sopa e segue em frente!

Quero é falar das cores e das formas e dos cheiros e dos espaços e do Sol e da Lua que ainda não vi e de tudo o que ainda não vivi. 

Porque tenho direito a ser feliz? Sei lá se tenho! Todos temos? Sei lá eu... 

Porque tenho muito para viver, isso sim! 

E quero fazer o pão em casa porque não param de dizer que a farinha ainda não subiu, mas vai subir. E quero acender a lareira porque não param de falar na subida das energias que ainda não subiu, mas vai subir. 

E quero ter espaço para receber os amigos que estou farta de dizer que vou convidar e ainda não convidei! 

E quero ver os meus filhos viver tudo isto comigo com vontade de estar e espaço para verdadeiramente ser com a vontade de participar que ainda não tiveram!

Por isso, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas, porque... eu quero mesmo mesmo é falar de limões! 


Liliana Lima



sábado, janeiro 29, 2022

CINZentos

Quando recomeçamos a ver cores, depois de muito tempo nas escalas de cinzento, podemos perder o pé no azul brilhante das ondas. Quando recomeçamos a sonhar, depois de muitas noites em branco, é possível que o chão nos pareça impossível de alcançar quando espreitamos do alto da janela. 

A interrogação aparece no canto do olhar quando tomamos consciência de que, às vezes, nada é o que parece. A dúvida acorda-nos nas horas soltas em que tudo se mostra calmo e inofensivo.

Depois, depois de ouvirmos as perguntas feitas pelo espelho, não mais tornamos a pegar no pincel com a liberdade da inocência. Ficam connosco o medo e ansiedade de não saber, sequer, se sabemos reconhecer e avaliar a realidade.    

Que bom e pacífico e seguro deve ser poder chamar a certeza pelo nome, saber até onde vai a linha do horizonte e nunca perder os pontos cardeais. Olhar para o chão sem nunca duvidar se nos equilibramos em cima de um caminho-de-ferro no meio de terra batida ou de uma corda-bamba entre duas montanhas.

Quando o que de mais profundo sabemos de nós é que nem sempre nos parecemos connosco, tudo o mais é uma estranha e macabra escala de cinzentos.


Quando é que o bom é bom demais?

Onde está a linha que me separa os "normais"?

Qual é a medida máxima de bem-estar aconselhada?

Como sei se nado fora de pé ou chapinho na areia molhada?


Liliana Lima