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sexta-feira, janeiro 28, 2022

REconstruir o FUTURO

Deixei livros pelo chão

E o leite por beber

Saímos quase a correr

Sem perceber a razão

Que me obrigou a deixar a terra que conhecia

E me fez crescer depressa, bem mais do que queria


Já passaram tantas noites

Que nem as consigo contar

Sei que há um destino 

Um dia a desabrochar

Uma mão que me abraçou e me fez acreditar

Esta é a casa certa, é aqui que quero ficar


Vamos escrever uma história nova

Contigo ao meu lado estou seguro

Vamos reconstruir o futuro

Aqui não tenho medo do escuro


Tenho livros na mochila

E o leite já bebido

Volto ao quarto a correr

Buscar o chapéu esquecido

Lá fora espera o Igor, o Gonçalo e a Mila

Temos tanto p'ra fazer, somo jovens a crescer


Já passaram tantos dias

Já nem os tento contar

Sei que há um destino

Um Sol a acordar

Uma mão que me abraça e me faz acreditar

Esta é a casa certa, é aqui que quero ficar


Vamos escrever uma história nova

Contigo ao meu lado estou seguro

Vamos reconstruir o futuro

Aqui não tenho medo do escuro


Liliana Lima


 

sábado, fevereiro 22, 2020

Cónicas de uma Separação Consumada XXVI

Ouçam sempre com atenção os reflexos que, como quem não quer a coisa, nos olham por entre as projecções aparentemente límpidas das horas que passam.

A sobreposição de imagens, principalmente quando quase não nos denunciam a presença, tem o condão de nos fotografar a alma e todas as histórias que dentro daquele ínfimo momento vivem em nós.

Acreditem que, por muito que nos esforcemos por manter o semblante coerente com o ritmo externo haverá sempre um reflexo, uma espécie de instantâneo com a diferença de não ficar impresso em lado nenhum, que captura a verdadeira essência do que sentimos, vivemos ou até escondemos.

Dizia o José Mário Branco que "quem conta uma alegria que não tem / não conta nada a ninguém". 

Não estamos sempre sorridentes, penteados, vestidos casualchic como mandam os bons (ou maus) costumes. Não somos sempre delicados com os outros, por mais bem-educados que nos achemos. E ninguém está completamente em paz com aquele que nos olha do outro lado do espelho.

Dizia ainda o José Mário "deixa a tristeza sair / pois só se aprende a sorrir / com a verdade na boca".

Quem está connosco, verdadeiramente connosco (e só esses interessam), saberá interpretar os reflexos destas nossas complexidades e, quem sabe reconhecer-se-à em muitos dos esgares que, decapando as várias realidades que nos moldam, acabam por denunciar as idiossincrasias que fazem de cada um de nós... cada um de nós.

Não acrescentará grande coisa dizer-vos que estarei sempre aqui, sejam de que cor forem os possíveis reflexos dos dias que se espelhem nas nossas janelas, ao fim do dia quando parece que não vamos conseguir dar nem mais um passo em frente.

Acrescento isso sim, que sei que nunca vos assustaram as fragilidades que tantas vezes me mostram desfocada em todas as montras da cidade.

Volto mais uma vez ao José Mário Branco e ao que me disse, quando era bem pequenina em frente a um gira-discos, "canta da cabeça aos pés / canta com aquilo que és", mas foram precisas muitas e muitas vezes a cantar com ele para, por fim, entender o que queria dizer com "só podes dar o que é teu".

Por isso, meus amores, não tenham medo da canção que ouvem dentro de vós. Acolham-na e cantem-na se assim acharem por bem. Mas não a tentem abafar por este ou aquele ou mesmo nenhuma razão. 

Sejam da cabeça aos pés. Como dizia, desta feita, Ricardo Reis "sê inteiro: / nada teu exagera ou exclui". 

É que, sempre que nos escondemos por trás duma qualquer máscara (e até estamos no tempo delas), os reflexos que, como quem não quer a coisa, nos olham por entre as imagens aparentemente límpidas das horas que passam, devolver-nos-ão a verdade que apenas a nós próprios pensávamos reservada.

Com muito amor,
Mãe



   
   

quinta-feira, novembro 21, 2019

ATÉ já, José!

Não conheci o José Mário Branco. "Zé Mário" é como lhe chamam os amigos, que hoje parecem ser todos, é verdade, mas para mim foi sempre 'O' José Mário Branco.

Não o conheci? Se calhar sim... Quer dizer, o homem, o pai, o avô, o vizinho... na verdade não (com uma certa mágoa, posso dizer, agora que já não faz diferença nenhuma). Mas o poeta, o músico, o cantor, o exemplo, a ideologia, a luta, a força, a voz, o poeta, o cantor, o músico... 

Porra, José! O tanto que aprendi contigo desde que, tão cedo, te comecei a ouvir! 
O tanto que conversei e cantei contigo desde que, tão cedo, te conheci. Não foi, José?!
O tanto que descobri nas tuas letras...

Porra, José! Canções que me despem palavra-a-palavra desde que me sei quem sou. Como é isso José?! 
Sem nos conhecermos. Nem nos cruzarmos, nos tantos cruzamentos em que tão perto fomos estando... Como é isso, José?! 
O tanto que aprendi na força da tua interpretação. Estar lá todo, a cada nota, a cada frase. Porque a cantiga é uma arma, não é José?!

Sempre disse que, de uma forma impossível, tu me conhecias melhor que muita malta que de muito perto conviveu comigo... 
Disse eu, e aposto que milhares de outras almas que te conheceram, como eu, no gira-discos e nas cassetes.

É que, tu não sabes José, mas eu guardo as tuas palavras dentro de mim. Contam-se comigo, da cabeça aos pés. Porque tudo depende da raiva e da alegria, não é José?!
Acho que é aqui que nos continuaremos a encontrar, com o tanto que temos para nos dar. Não achas, José?!

É que mesmo não te conhecendo, José, estou (eu e aposto que milhares de outras almas) a tentar fazer desta perda uma raiz, assim, por sobre a tua morte. Como em canções, mesmo sem quereres, me (nos) ensinaste.

Mas já que estamos a conversar, aqui que ninguém nos ouve, acho que se cá estivesses, de viva voz, era capaz de te ouvir dizer qualquer coisa do tipo... É pá, continuem a cantar-me, continuem a lutar, mas já agora vão ter com a malta que ainda está viva enquanto estão vivos, porra!... 


Não conheci o José Mário Branco (com uma certa mágoa, posso dizer, agora que já não faz diferença nenhuma) ou talvez tenha conhecido... Quer dizer, o homem em si, não. Mas o homem que vive para sempre no legado que nos deixa, sim. E a esse digo: 

Obrigada José Mário Branco! 
Que bom conhecer-te!
Guardo em mim tudo o que de ti me confiaste
e sempre que Abril aqui passar
dou-lhe este farnel para o ajudar!
Até Já!


Liliana Lima 



quarta-feira, abril 03, 2019

AMAnhã

Há sempre o dia depois
Há sempre a manhã seguinte
que tráz na aurora
os cheiros
os sons
os movimentos
que nos levaram até...
ao dia depois

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Há sempre a palavra que vem
Há sempre a escolha
de dizermos ou não
como chegámos
o que demos
quanto recebemos
para tentarmos chegar até...
à palavra que vem

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Há sempre a espera
Há sempre o silêncio
que nos pára em frente 
do espelho
do ontem
da dúvida
de como agir até...
superar a espera

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Liliana Lima


sábado, outubro 06, 2018

Do La.Do esquerdo

às vezes confundo o lado esquerdo com o direito
diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto
baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito

às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração
com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo 
respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação 

às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera
num jardim que se encanta com tudo o que se canta
e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera

às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo
diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito
quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito

Liliana Lima



quinta-feira, abril 05, 2018

O canto DA papOILA

Fui descendo a calçada
Por entre carros fora dos carris
E respostas por aparecer
E palavras que esperava ler

Os sorrisos primaveris
Fogem rápido como balões
E as promessas que nos fazemos
Borboletas inquietas a esvoaçar

Fui subindo a avenida
Com os sacos cheios de promessas
Quase todas por começar
E um cansaço, enjoativo, pesado
Com o poder de tudo apagar

As tardes de Primavera
Cantam canções de embalar
Mesmo quando o silêncio que ecoa
Não nos deixa avançar

No canto dum passeio
Perdida num canteiro
Uma papoila chama por mim
Tráz-me à terra, e neste dia louco
Lembra-me de ti

Liliana Lima


sábado, março 31, 2018

PAR.is

Ela chamou-o para jantar
Abriu um abraço de par em par
e disse tudo o que há muito ele esperava ouvir
No seu corpo, há tanto tempo sedento do dela, aceitou,
num beijo doce em que se permitiu fugir,
e na manta de retalhos, por fim, se entregou

Ela chegou num remoinho
e abanou o seu coração
Falou do futuro, alegre,
olhando um postal de Paris
e cantou feliz, gravando, a sua canção

Rasgou-se-lhe o peito e o céu choveu noites sem fim
Ele deu-lhe a mão e tentou acender flores
Abriu um abraço e deu-se como queria, por fim
Mas sem nunca lhe conseguir afastar as dores

Ela chegou com o passado atrás de si
Ele fechou os olhos, e fingiu,
embalando-os, que não o viu
As noites frias acenderam fagulhas
e arranharam-lhe bem fundo muitas palavras cruas

Ela pediu-lhe espaço, tempo e paz
com um tom grave e frio na voz
Ele tentou entender o que fazer,
mas perdeu-se no escuro que o silêncio faz
E esperou que novamente ela o decidisse querer

Chegou decidida depois do tempo que passou
Abriu-lhe um abraço onde ele se entregou
Deu-se e recebeu-a em corpo e poesia
E, despido do mundo, ao seu lado se deitou
numa calma e meiga suspirada melodia

Ele sentiu o vento norte nas suas velas soprar
e as palavras, ainda a arranhar
e o passado sempre a avisar
na maresia salgada das lágrimas que choveu
nos tantos anos que sem ela viveu

Ela chegou depois do tempo
Com o corpo dele dela sedento
mas sem calor suficiente para a acalmar
nem tempo, nem paz, para a abraçar
Apesar de hoje e sempre a continuar a amar

Liliana Lima