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terça-feira, maio 26, 2020

maRIAjoÃO

Maria, não tens de ser sempre sorridente
Chega-te ao mar e deixa cair a máscara
João, não tens de estar sempre perfeito
Encosta-te a mim e deixa fugir as mágoas

Maria, não tens de ser sempre amarga
Chega-te ao Tejo e pinta uma nova aguarela
João, não tens de estar sempre inquieto
Encosta-te a mim e ouve o cantar das águas

Maria, não tens de ser Joana ou Manuela
Podes espalhar no chão o que trazes no peito
João, não tens de fingir uma outra cara 
Só tu sabes as cores da tua aguarela

Maria, não tenhas medo de sorrir
O mundo não é tão escuro como parece
João, tens em ti o poder de te reconstruir 
Há outras cores para a tua aguarela

Podes ser simplesmente Maria João,
Vestida de noite ou de dia
Chorando ou repleta de alegria
Serás sempre, Maria paixão


Liliana Lima



quinta-feira, julho 30, 2015

aguarela (in)acabada

Olho-te. Demorada e persistentemente procuro encontrar-te neste eu teu que pareço desconhecer.

Oiço-te com a maior atenção que consigo convocar, apesar das palavras que dizes arranharem os quadros pendurados nas paredes cansadas, cúmplices de tantos dias, anos, que se sucederam num caminho a par.

Procuro no meio dos teus cabelos, os caracóis morenos que me aconchegaram o desejo nas noites em que, navegando no meu corpo, me fizeram desaguar no teu.

Esforço-me por enquadrar esta cena numa qualquer série americana, onde nada é coerente e o tempo corre ao sabor das audiências com a certeza dum final feliz.

Quem és tu que, desse lado da casa, me falas como se comigo não vivesses a história que vivi contigo?

Olho para ti e não encontro nada que me aqueça. O calor que ainda agora, neste Pólo a desnorte, arrepiou os meus sentidos e rasgou as minhas memórias arrefeceu a cozinha e enregelou o chão.

Teremos vivido a mesma vida ou, lado a lado, criámos duas estradas em dimensões paralelas?

Esforço-me por manter intacto o teu eu que, me parece agora, criei ao correr dos ponteiros numa aguarela inacabada. É que, ao olhar para ti neste momento, não identifico o modelo com o retrato. Atiro ao chão as telas. E as aguarelas, por secar, escorrem da entrada até à sala onde as tuas fotografias ainda falam de nós.

Olho-te com muita atenção, projectando os dias que passam no tecto do quarto, deitado na vida que não deixo avançar.

Encontro-me e perco-te, desenho-te e apago-me.

Espelho-nos, por fim, numa história que não escolhi mas que, demorada e persistentemente, tento aceitar. 


Liliana