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terça-feira, outubro 25, 2022

Lá dentro

Sei que estou aqui, neste corpo. Algures no reflexo deturpado, que me espreita no escuro das manhãs sempre iguais.

Obrigo-me a levantar, vestir, comer... e espero encontrar-me ao canto de uma hora qualquer que desenrola o fio dos dias que passam. Iguais.

Num gesto de coragem, que teimam em traduzir por preguiça, imagino um quadro onde não sou assim, mas igual.

E dentro dessa narrativa, percebo-me parte do todo que me envolve. Vejo-me perto do que todos os dias procuro. Ouço-me com voz própria num solo destemido. 

Mas fora do quarto, o espelho dos teus olhos conta-me outras histórias. E faz-me perguntas. Tantas perguntas que gostava de saber responder, a mim mesmo. E que sem explicação ficam solteiras, às voltas em busca da sua verdade enquanto ecoam o peso da minha culpa, que acaba por morrer em profunda solidão.

Deixo que as horas me dêem força para mais uma viagem ao mundo dos outros. Daqueles que, por capricho divino, se reconhecem individualmente e se relacionam entre si naquela paz que, imagino, os beijou à nascença. Mas os meus movimentos são tão delicados e lentos, com medo de me afogar, que não são perceptíveis para eles.

E a cortina desce entre mim e o mundo, num movimento sempre igual. 

Chega a noite e o sono, embalado num comprimido dourado que abafa qualquer tentativa de sonho. E por instantes paga-se o medo, por segundos calam-se as dúvidas, anula-se ou exponencia-se o cansaço.

Sei que estou aqui, neste corpo. Do lado de cá do reflexo matinal. Mas...

Lá dentro é tão difícil acordar. Cá fora não me consigo encontrar. 

Liliana Lima 



sábado, janeiro 29, 2022

CINZentos

Quando recomeçamos a ver cores, depois de muito tempo nas escalas de cinzento, podemos perder o pé no azul brilhante das ondas. Quando recomeçamos a sonhar, depois de muitas noites em branco, é possível que o chão nos pareça impossível de alcançar quando espreitamos do alto da janela. 

A interrogação aparece no canto do olhar quando tomamos consciência de que, às vezes, nada é o que parece. A dúvida acorda-nos nas horas soltas em que tudo se mostra calmo e inofensivo.

Depois, depois de ouvirmos as perguntas feitas pelo espelho, não mais tornamos a pegar no pincel com a liberdade da inocência. Ficam connosco o medo e ansiedade de não saber, sequer, se sabemos reconhecer e avaliar a realidade.    

Que bom e pacífico e seguro deve ser poder chamar a certeza pelo nome, saber até onde vai a linha do horizonte e nunca perder os pontos cardeais. Olhar para o chão sem nunca duvidar se nos equilibramos em cima de um caminho-de-ferro no meio de terra batida ou de uma corda-bamba entre duas montanhas.

Quando o que de mais profundo sabemos de nós é que nem sempre nos parecemos connosco, tudo o mais é uma estranha e macabra escala de cinzentos.


Quando é que o bom é bom demais?

Onde está a linha que me separa os "normais"?

Qual é a medida máxima de bem-estar aconselhada?

Como sei se nado fora de pé ou chapinho na areia molhada?


Liliana Lima