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quinta-feira, fevereiro 13, 2020

vale DE lobos


Os troncos, molhados pela chuva da manhã, espreiram

Ao ritmo certo 
As ruas estreitas mostram vidas que imaginamos sempre tão mais felizes quanto a distância da cidade
No tom certo 
E os corredores, que se repetem e seguem, têm portas com vidros de navio
Na pista certa

Longe é mais perto nas guitarras que se juntam canção a canção 
Às letras respectivas 
O baixo ecoa alto nas paredes revestidas com cores diferentes e recortadas
Em grandes janelas 
E tudo o que se separa é para mais tarde se juntar 
Aos afetos que cantam numa só voz


O Sol entra através das sombras das nuvens pintando de amarelo 
Os troncos que espreitam

Liliana Lima 



sábado, fevereiro 08, 2020

Crónicas duma Separação Consumada XXV

Ouvi, no outro dia, um grande senhor da rádio e da comunicação, dono duma daquelas vozes inconfundíveis e incontornáveis, dizer que "a voz é a nossa impressão digital sonora"*. 

Estas palavras, e a voz dele também, ficaram dentro de mim "do coração para a cabeça e da cabeça para o coração"* a pedir-me que vos falasse de como encontrar a nossa voz no meio do imenso ruído que nos circunda.

Não são só vocês que se debatem com esta crise de identidade, se bem que tudo o que a crises diga respeito seja quase sempre colado à adolescência e suas flutuações. Na verdade, meus amores, muitos são os adultos que não sabem/conseguem identificar e dar voz... à sua voz.

A questão não está no tom ou na intensidade. A dúvida resulta sempre desta máxima que afirma que "a voz é nossa impressão digital" e, como tal, é única e irrepetível. 

Dir-me-ão vocês, isso são já duas dúvidas. São. São muito mais que duas, na verdade. 

Acrescenta-se uma, por exemplo, em cada vez que tomamos consciência de que estamos a falar, não com a nossa, mas com uma voz colectiva com a qual podemos concordar e comungar das mesmas cores, imagens, mudanças de tom, ritmos, respirações e mensagem... mas que não nos espelha na nossa complexidade interior e exterior que faz de nós, lá está, únicos e irrepetíveis.

Acrescentam-se mil receios sempre que sentimos a nossa voz abafada, ou estrangulada por situações ou alguéns que julgam saber melhor do que nós próprios, o que é bom e indicado... para nós. 

Dobra-se a distância que separa a voz com que falamos da nossa voz interior, cada vez que nos proíbem de escrever, ler, estudar, conhecer, e dizer do tanto que vamos sentindo, porque são ideias fora do quadrado considerado seguro pelo status quo, seja ele a que nível for.   

A impressão digital de cada um é assim como que a nossa sombra reflectida, ora pelas luzes coloridas sempre em movimento nas paredes e muros da cidade, ora pelo Luar nas águas irrequietas do Tejo, ora mesmo pelo Sol do meio-dia debaixo dos nossos pés na paz dum cerrado no meio do Oceano. Por muito que mude de aspecto, é sempre o nosso corpo que se recorta na luz envolvente.

Ou seja, o que nos identifica na nossa complexidade pessoal não é o tom mais grave ou agudo das frases, nem a forma como dizemos as palavras (seja em termos de dicção ou de sotaque), nem a força com que gritamos, nem mesmo a velocidade a que debitamos ideias ou falta delas. Tudo isso faz parte do embrulho em que a nossa voz se apresenta, e que, obviamente também ajuda a identificar sonoramente cada indivíduo.

O que realmente faz da voz a nossa impressão digital sonora, é sempre o resultado dum caminho interior de conhecimento e procura (que não tem idade) da narrativa que nos conta em todo o nosso esplendor, sem apagar as nódoas negras nem destacar excessivamente as vitórias (pois qualquer dos casos iria desequilibrar essa mesma auto-narrativa e, por conseguinte, desbotar a impressão digital).

Esse caminho, por muito que neste momento não concordem, começa muito antes da adolescência, antes mesmo de começarmos a falar, e não acaba até deixarmos de cá estar.

Por isso, meus amores, não se inquietem demais com os receios e dúvidas que vos assaltam o espírito. Eles são saudáveis e servem de bússola para esse caminho que, quão mais tranquilo e livre for, mais transparente soará o vosso canto. Sabendo, claro, que na vida haverá sempre tensões e conflitos, e é nesses momentos que aprendemos que a voz... "é uma arma/ tudo depende da bala/ e da pontaria/ tudo depende da raiva/e da alegria..."*

A vossa voz é a vossa impressão digital sonora, única e irrepetível.

Podem (e devem) juntar-se a tantas outras vozes quantas vos pareçam interessantes e merecedoras.

Mas não se deixem calar, nem abafar sequer, seja porque motivos for.

Espero que a minha voz, uns dias rouca outros leve, às vezes amarga, tantas vezes cansada, mas quase sempre cantada, de alguma forma, vos vá ajudando a encontrar cada uma das vossas!

Com muito amor,
Mãe



   


*António Sala dixit
*Uma Flor, Almada Negreiros
*A cantiga é uma arma, José Mário Branco




quarta-feira, julho 18, 2018

minha vOZ

Solto o meu canto acordado por ti
Canto este sonho tão vivo em mim
Vives na minha voz

Banho-me neste rio que canto contigo
Abraço este canto que fala de nós 
Danço este beijo que te chama comigo 

Solto o meu canto acordado por ti
Canto este sonho tão vivo em mim 
Vives na minha voz 

Onde me abraço 
Onde te beijo

Banha-te neste rio que cantas comigo
Abraça este canto que fala de nós 
Dança este beijo que me chama contigo

Soltas o teu canto acordado por mim
Cantas este sonho que vive por si
Vives na minha voz 

Onde te canto
Onde te solto


Liliana Lima