Não sei como te ver sem nos olhar
Não sei como te ver sem nos olhar
Não sei como te ver sem nos olhar
Liliana Lima
Liliana Lima
Não há um caminho certo. Por muito que, por muito tempo, me tenham tentado convencer que sim.
Como seria, então, a (minha) estrada dos tijolos amarelos? Uma linha mista, sem um único cruzamento, com toda a certeza. E só com um sentido, obviamente. É que a dita linha certa vai do ponto A ao ponto Z, não o contrário. Pois isso mudaria tudo, a ordem dos acontecimentos, tornando-a imediacta e irremediavelmente em errada. Poder-se-ia até admitir que se descubra o caminho mais à frente, tornando-o em mais ou menos pequenas semi-linhas mistas, por exemplo [C:Z] ou mesmo [Y:Z]. Afinal, foi prometido aos trabalhadores da última hora o mesmo do que aos que trabalharam desde a manhã.
Desbaralhando...
Imaginem o trânsito na estrada dos tijolos amarelos se só houvesse um caminho certo e, fruto de grande infortúnio, esse fosse mesmo o meu. O que seria de cada vez que brilha no céu o arco mais colorido do mundo, de gente à procura dessa cor (que desde tão pequenina me ensinaram que era de mau gosto) para seguir até ao fim... e no fim será que encontrariam Oz?... Ou será apenas um metafórico erro meu?!...
Sem brincar...
Não há um caminho certo por oposição a milhares de outros, todos eles errados e condenados desde o início. Não é assim este mundo meio louco a chamamos casa funciona. Atrever-me-ia a concordar com o poeta e dizer mesmo que não há caminhos. Nem certos nem errados. Nem pré-desenhados.
Há escolhas, muitas mais do que pessoas.
Tomamos decisões e fazemos centenas de escolhas a cada dia. Há escolhas que nos levam a criar um ou outro caminho, ou até a cair na tentação de achar que estamos a percorrer caminhos há muito navegados. E à medida que vamos escolhendo, acordar-dormir, arriscar-parar, enfurecer-acalmar, lutar-calar, sorrir-frazir-o-sobrolho, avançar-desistir, gritar-sussurrar, sonhar-apenas ser... estamos a fazer o nosso caminho único e especial, porque assim o somos também.
Claro que há escolhas erradas! Claro que há caminhos onde atolamos, onde nos afogamos, caminhos que acabam em precipícios. E mesmo aí as escolhas não acabaram... Há mesmo caminhos onde só se chega depois de algumas escolhas duvidosas. E outros há que por muito certinhos que sejam os passos, um dia acabam mal. E sim, há caminhos que seria muito melhor não iniciar nunca.
Mas não estamos, então apenas a trocar a palavra caminho pela palavra escolha?...
Acredito que não. Acredito que temos o poder de escolher se andamos descalços, vamos a nadar ou viramos à esquerda ao fundo da rua. E essas escolhas encaminham-nos numa determinada direcção que, por si só raramente é taxativamente errada.
Há milhares de milhares de escolhas que dão origem a outros tantos caminhos, começados, deixados a meio, percorridos com muito brio, ou sofrimento, cheios de rotundas e passagens de níveis, mudanças buscas e até mudanças repentinas de direcção.
Às vezes brilha o arco-íris e por breves segundos podia jurar que a estrada amarela de tijolos reluzentes. Tantas vezes sento-me no meio do cruzamento sem saber para onde virar. Outras vezes volto para trás e não conheço de todo o caminho que (des)faço. E de quando em vez decido apenas parar.
Não podemos esquecer que nem tudo depende de nós.
Muito pouco depende de nós.
Mas cá estamos, eu escolhi neste momento escrever e tu... não sei quando nem porquê, mas fizeste deste momento duas linhas coincidentes. Não é bom nem mau. É simplesmente assim.
Não há um caminho certo. Por muito que, por muito tempo, me tenham tentado convencer que sim.
Liliana Lima