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quarta-feira, agosto 05, 2020

À jaNELA

Trouxeste os medos fechados em bolsinhas coloridas que guardaste na mochila, ao entrar.

Todas as pessoas que escondem medos debaixo do tapete sabem que podem tropeçar a qualquer momento. E, por isso, chegaste com a falsa confiança de quem vive uma farsa.

Quando te sentaste ao meu lado não consegui agarrar a curiosidade, quase patológica, de espreitar o interior das bolsinhas coloridas.

Ficámos no equilíbrio que vive suspenso entre a vontade de quem quer acolher e a turbulência de quem não se permite, sequer, a hipótese de... acolher.
É que, por princípio, o verbo é o mesmo.

Eu quero acolher os teus medos na esperança de te/me tranquilizar e tu precisas de os acolher em ti para os poderes superar. E para tal tens de, no mínimo, conseguir imaginar-te pegar em cada uma das bolsas e, mesmo sem derramar as suas cores, deitá-las ao mar.

A verdade é que a narrativa desta viagem foi algo intranquila e as bolsinhas teimaram em cair, à vez, da mochila que ficou aos teus pés.

Ao teu lado eu fui descobrindo formas, cores, fechos e laços, todos tão diferentes uns dos outros, bonitos até. Para mim claro, que apenas os via a saltar da mochila com os solavancos da viagem.
Acho que te tentei até ajudar, a apanhar e guardar uma das bolsas, mas o teu "medo até de ter medo", não me deixou aproximar mais do que a distância social (completamente subvertida à necessidade capital).

As viagens são como o Teorema de Pitágoras, tudo somado partida e chegada têm sempre o mesmo peso.

Então partimos, lado-a-lado, numa viagem em que tu chegaste com uma mochila cheia de medos que pousaste a teus pés. E eu parti do conforto (?) de quem se consegue contar em mil espelhos e escolher a qual vai perguntar se há no mundo alguém mais complicado, do que eu.

E então chegámos, de uma viagem conturbada, da qual tu partiste com a mochila às costas e a vitória de ter sobrevivido mais umas horas nesse instável equilíbrio. E eu cheguei com o sensação de vazio de ter deixado na porta de embarque mais do que devia deixar e a impotência de não te saber ajudar, aqui tão perto, mesmo ao meu lado.

Todas as pessoas que escondem medos, sabem que podem tropeçar a qualquer momento.

No cais desta viagem, quem tropeçou? Eu? Ou tu?


Liliana Lima

Algues sobre o Atlântico


segunda-feira, abril 06, 2020

NA minha JAneLA

Na minha janela batem as ondas do mar,
enrolam-se-me os cabelos ruivos 
nesta busca infrutífera pelo sol.

Na minha janela salpicam as estrelas,
enrolam-se-me os inquietos sonhos
numa projecção à luz da lua.

Na minha janela sussurra o vento,
enrolam-se-me os dias repetidos
nesta estranha sequência sem fim.

Na minha janela espreitam gaivotas,
enrolam-se-me os poucos carros
no silêncio das ruas desertas.

Na minha janela ecoam canções de amor,
enrolam-se-me as mãos aos corpos
deitados num sono acordado. 

Na minha janela batem as gaivotas
no silêncio dos dias repetidos

Na minha janela ecoam as estrelas
deitadas nos meus cabelos ruivos

Na minha janela salpicam canções de amor
enroladas nos corpos inquietos

Na minha janela espreita o vento
projectado na luz da lua

Na minha janela sussurram as ondas mar
em estranhos sonhos desertos

Liliana Lima

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

vale DE lobos


Os troncos, molhados pela chuva da manhã, espreiram

Ao ritmo certo 
As ruas estreitas mostram vidas que imaginamos sempre tão mais felizes quanto a distância da cidade
No tom certo 
E os corredores, que se repetem e seguem, têm portas com vidros de navio
Na pista certa

Longe é mais perto nas guitarras que se juntam canção a canção 
Às letras respectivas 
O baixo ecoa alto nas paredes revestidas com cores diferentes e recortadas
Em grandes janelas 
E tudo o que se separa é para mais tarde se juntar 
Aos afetos que cantam numa só voz


O Sol entra através das sombras das nuvens pintando de amarelo 
Os troncos que espreitam

Liliana Lima 



quinta-feira, dezembro 12, 2019

janELA

Passo na rua e olho para a que foi a minha janela durante tantos anos
Converso comigo própria e pergunto-me se sinto saudades
Não sinto nada

Os cactos estão maiores e lá dentro espreita um bocado de mim
Não sorrio nem choro para esse eu que ficou no anjinho que reluz do lado de dentro do vidro
Não sinto nada

Sempre gostei da vista daquela janela
No calor, os ramos das árvores quase que entram dentro de casa, atravessando a rua na passadeira em frente à porta
No Inverno, as folhas cobrem os passeios de neve verde amarelada e há uma espécie de papagaios miniatura que estrabucham enquanto procuram bagas para comer
Hoje, cá em baixo na rua, oiço-os e penso se sinto falta deles
Não sinto nada

Passo na rua daquela que foi, durante tantos anos, a minha janela
Deixo por baixo dela tudo o que de pesado pudesse vir comigo e levo tudo o que de bom consigo carregar no colo
Olho para trás enquanto e para o outro lado do passeio
Não sinto nada

Avanço e suspiro ao mesmo tempo que me arrepio com o vento fresco desta tarde solarenga de Inverno
E, de repente, sinto tudo

Liliana Lima


sábado, fevereiro 23, 2019

(des)CONSTRUÇÃO

Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares 
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos

E deixo os quadros e as panelas 
Deixo os sofás e os candeeiros 
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes

Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores 
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos 
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo 
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"

Liliana Lima



sexta-feira, agosto 10, 2018

os DIAS em que (não) SOMOS

Olho para o jardim 
onde a vida (de)corre dentro 
da normalidade dos dias quentes.

Lá fora uma leve brisa 
faz as folhas das árvores dançar.
Cá dentro uma ventania
despenteia ideias 
e desarruma sentimentos. 

Chegam os dias em que somos,
cada um 
e deixamos de ser 
nós.

Vês o Sol que anuncia  
a sua chegada no alto de cada
alvorada?

Ouves o mar que canta
a morte anunciada na volta 
de cada onda? 

Olho o jardim e sei-te saíndo,
de malas feitas e vontade de silêncio.
fugindo dos dias, cansados, extenuados.

Lá fora o dourado da tarde
pinta a vida que vive no jardim.
Cá dentro um crescente vazio
afoga as palavras nascem em mim.

Vês as estrelas, altas
que te dizem a morada
das histórias em que estou?

Ouves os aviões, rasteiros
que abafam a vida que não há
quando estamos sós?

Chegam os dias em que somos,
cada um 
e deixamos de ser 
nós.

Liliana

 

domingo, abril 29, 2018

sOMBRA

Não digas que já não vês a sombra,
tem-na colada aos pés e às mãos,
cosida com fio de pesca ao coração.

Não te zangues quando a vejo
à tua procura, atrás das colunas,
por entre as caixas, acordando os medos.

Não esperes que não a oiça chamar-te
à janela, do lado de lá da noite,
em vontades inquietas, amordaçando os sonhos.

A sombra a que estás preso
das mãos aos pés,
tolda-te os sentidos
e traz-nos sempre ao início.

Acende a luz
Levanta-te
Liberta os fantasmas
E deixa-nos voar

Lili