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domingo, maio 15, 2022

saIR DE TI

Sair de ti sem te trazer comigo
Não sei como te ver sem nos olhar
pelo espelho da memória no postigo
que abrimos e não consigo fechar

As faces da Lua continuarão a mudar
e os dias seguirão sem olhar para trás
Há caminhos e casas que construímos
em vidas tão dispares vividas em uníssono
numa distância oca que nos separa 

Passo em revista os anos passados
e vejo-nos diferentes (por fora, pelo menos)
Invadem-me imagens desarrumados
que me levam numa viagem atribulada
por lençóis brancos amachucados
 
Sair de ti sem te trazer comigo
Não sei como te ver sem nos olhar
pelo espelho da memória no postigo
que abrimos e não consigo fechar

Há pontes antigas que teimam em não ruir
mas os barcos já foram para novas paragens
num movimento lento de aparente abandono
E o rio, esse, corre beijando outras margens
seguindo as marés comandadas pelo luar

Sei-nos dois, distantes, num agora afastado
caminhando e andando em sentidos diferentes
Oiço o silêncio demorado que agora nos une
rasgado por uma ou outra palavra escolhida
que nos deixa num limbo oco e impune   

Sair de ti sem te trazer comigo
Não sei como te ver sem nos olhar
pelo espelho da memória no postigo
que abrimos e não consigo fechar   
 

Liliana Lima



quarta-feira, março 09, 2022

Limões sicILLIANos

Ah, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas...

Deixem-me contar das cores, das formas e dos cheiros! Deixem-me dizer das sensações e dos sonhos!

Não quero pensar em tudo o que não me interessa. 

Quero falar de limões, preferencialmente da espécie limão sicilliano que se adapta muito bem em vasos. Sabiam?

Quero falar da lantana e das pedras que se deve colocar no fundo do vaso para que haja uma óptima drenagem, e ficar à espera da possível mudança de cores de ano para ano.

Quero subir e descer escadas pelo prazer, tão raramente prazeroso, de... arrumar.

Quero falar de madeiras e chãos com quem, tenho a certeza, tudo fará para me ajudar porque sabe que "é magra a ceia" mas, já dizia a minha avó, põe mais um copo d'água na sopa e segue em frente!

Quero é falar das cores e das formas e dos cheiros e dos espaços e do Sol e da Lua que ainda não vi e de tudo o que ainda não vivi. 

Porque tenho direito a ser feliz? Sei lá se tenho! Todos temos? Sei lá eu... 

Porque tenho muito para viver, isso sim! 

E quero fazer o pão em casa porque não param de dizer que a farinha ainda não subiu, mas vai subir. E quero acender a lareira porque não param de falar na subida das energias que ainda não subiu, mas vai subir. 

E quero ter espaço para receber os amigos que estou farta de dizer que vou convidar e ainda não convidei! 

E quero ver os meus filhos viver tudo isto comigo com vontade de estar e espaço para verdadeiramente ser com a vontade de participar que ainda não tiveram!

Por isso, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas, porque... eu quero mesmo mesmo é falar de limões! 


Liliana Lima



segunda-feira, fevereiro 21, 2022

Se EU

Se eu não estivesse cá amanhã, o Sol ia continuar a aquecer os campos e abrir as flores.

Se eu amanhã não acordasse, os carros não iam deixar de correr para as cidades e as escolas tocar para os seus alunos entrarem.

Se os meus olhos não abrissem as pálpebras de manhã, as torradas iriam ser feitas, mais ou menos morenas nas casas das redondezas.

Se eu não tomasse o duche matinal, vocês acabariam por encontrar o meu colo num aconchego da noite.

Se...

Se eu não lançar o meu livro, não é assim tanta a diferença de pessoas que o deixam de ler.

Se eu não te paginar o livro, outro alguém o fará, quem sabe mais rápido e melhor.

Se...

O que sei é que não consigo sair daqui. Hoje. Ontem. Anteontem. E tento, ah! Se tento!

Mas "não posso parar assim", "não posso deixar de estar, de ir, de fazer". 

Se....

Se eu conseguisse!...

Se eu pudesse!...

Se eu soubesse como!...

Se vocês imaginassem!...

Se...

Se eu não estiver cá, a Lua continua a iluminar o mar para o Sol saber o caminho até casa.


Liliana Lima



   

segunda-feira, abril 06, 2020

NA minha JAneLA

Na minha janela batem as ondas do mar,
enrolam-se-me os cabelos ruivos 
nesta busca infrutífera pelo sol.

Na minha janela salpicam as estrelas,
enrolam-se-me os inquietos sonhos
numa projecção à luz da lua.

Na minha janela sussurra o vento,
enrolam-se-me os dias repetidos
nesta estranha sequência sem fim.

Na minha janela espreitam gaivotas,
enrolam-se-me os poucos carros
no silêncio das ruas desertas.

Na minha janela ecoam canções de amor,
enrolam-se-me as mãos aos corpos
deitados num sono acordado. 

Na minha janela batem as gaivotas
no silêncio dos dias repetidos

Na minha janela ecoam as estrelas
deitadas nos meus cabelos ruivos

Na minha janela salpicam canções de amor
enroladas nos corpos inquietos

Na minha janela espreita o vento
projectado na luz da lua

Na minha janela sussurram as ondas mar
em estranhos sonhos desertos

Liliana Lima

terça-feira, junho 18, 2019

esta OUTRA margem

Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar. 
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM. 
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.

Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão. 
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.

Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM. 
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.

Liliana Lima 



quarta-feira, janeiro 02, 2019

aNO NOVO

E como ontem, o dia nasce
e vemo-lo passar diante nós
Traz no azul do céu a cor dos sonhos que trazemos nos olhos
Na brisa a suavidade das manhãs grávidas de esperança
No branco das nuvens a pureza do acordar dos amantes
E no Sol a força da utopia

E como ontem, a tarde cai
e sentimo-la descer sobre nós
Carrega no colo os sonhos, os novos e os de sempre
Embala a esperança que se tornou vontade
Faz crescer o amor na pureza dos gestos
E transforma a utopia em horizonte

E como ontem, a noite nasce
e, do alto do luar, olha-nos
Encobre os medos dos sonhos desfeitos
Apaga a inércia e a invontade de quem não crê
Ilumina os lençóis das camas dos amantes
E dentro da lua cheia faz renascer a utopia

E como ontem, o ano começa...


Liliana Lima


quinta-feira, agosto 30, 2018

REdoMA

Estou presa numa redoma que tinge o mundo dum tom esverdeado 
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém 
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado 
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim

Liliana Lima


domingo, agosto 12, 2018

sabias MEU amor?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E nas noites de Lua Nova, tu sabes,
tudo me parece mais estranho e assustador
todo o mundo parece girar em meu redor
e dos fantasmas que tão bem conheces.
Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar?
Estás aí sequer? 
Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
O mar, desapareceu num horizonte profundo 
e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro,
procurei na forma certa das estrelas o caminho
para me encontrar.
Dás-me a mão para me acalmar?
Tens calma sequer?
Ou procuras também a tua noite iluminar?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas,
parecem fugir de mim apenas para me assustar
e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar.
Chamas o meu nome, para te encontrar?
Falas comigo sequer?
Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E eu, tu sabes, não consigo dormir. 
Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir.

Liliana Lima 


sexta-feira, agosto 10, 2018

os DIAS em que (não) SOMOS

Olho para o jardim 
onde a vida (de)corre dentro 
da normalidade dos dias quentes.

Lá fora uma leve brisa 
faz as folhas das árvores dançar.
Cá dentro uma ventania
despenteia ideias 
e desarruma sentimentos. 

Chegam os dias em que somos,
cada um 
e deixamos de ser 
nós.

Vês o Sol que anuncia  
a sua chegada no alto de cada
alvorada?

Ouves o mar que canta
a morte anunciada na volta 
de cada onda? 

Olho o jardim e sei-te saíndo,
de malas feitas e vontade de silêncio.
fugindo dos dias, cansados, extenuados.

Lá fora o dourado da tarde
pinta a vida que vive no jardim.
Cá dentro um crescente vazio
afoga as palavras nascem em mim.

Vês as estrelas, altas
que te dizem a morada
das histórias em que estou?

Ouves os aviões, rasteiros
que abafam a vida que não há
quando estamos sós?

Chegam os dias em que somos,
cada um 
e deixamos de ser 
nós.

Liliana

 

sábado, junho 30, 2018

hoRas

Nem todos os dias a maré sobe e me beija os pés
Nem todas as noites a lua brilha no leito do rio

Há horas que se demoram
No sabor acre da tua ausência
No tocar áspero do teu silêncio
Na impensável ideia da tua indiferença

Nem todos os dias o meu rumo me leva ao Tejo
Nem todas as noites me descalço e entro no seu leito

Há horas que se demoram nos caminhos das marés


Liliana Lima


sábado, junho 02, 2018

SuSpiro

No silêncio das palavras

Abraço
Vontade
Beijo
Tejo

Abraço
Querer
Tejo
Beijo

Abraço
Arrepio
Calor
Tejo
Abraço

Me perco e nos encontro

Seda
Suspiro
Humidade
Beijo
Tejo

Lua
Vontade
Lábios
Mãos
Abraço

Me sinto e nos uno

No silêncio das palavras


Liliana Lima


domingo, abril 29, 2018

fecha os OLHOS

Fecha os olhos para que se apague a luz e tudo o que parece possa ser.

Acende uma vela ao fundo para que o que é se possa mostrar.

Aproxima-te e, baixinho, junto do meu ouvido, diz-me as inverdades que conseguires manter como certas.
Aqui onde as formas dançam ao ritmo da luz da vela, tudo parece tão mais simples! O meu corpo que se entrega ao teu sem inibições ou medos. O mundo inteiro que fechamos fora da porta. E a cumplicidade entre o que é e o que apenas parece ser.

Fecha os olhos para que se apague a luz e deixa que acredite nas fadas da noite.

Mas amanhã, de olhos abertos e corpos vestidos, não deixes que o que é seja apenas o que parece.
Amanhã, na luz do dia, diz-me a cor do rio e a força do mar, por muito que não o queira ouvir.

E depois não te preocupes, haverá sempre um espaço onde, de olhos fechados, deixaremos que, o que parece possa ser.

Lili


sexta-feira, agosto 25, 2017

gAIvotas

Lá fora as gaivotas choram, ou riem (não lhes consigo distinguir a narrativa)
O mar ao fundo do fundo de todos os barulhos da noite, conta-me histórias de embalar
Mas desde cedo que não é com histórias que lá vou e o sono, acordado, diz-me que já é de madrugada

Antigamente era comum ficar em conversa com a lua
Espreitar-lhe o quarto e sentir-lhe o humor
Sentava-me ao pé da janela, sempre tive as escrivaninhas encostadas a uma janela
E escrevia com a cumplicidade silenciosa do luar
A noite sempre se mostrou mais próxima de mim, da minha essência, da minha verdade

#Uma moto ruidosa rasga a tranquilidade desta noite tão clara e os cães acordam assustados, sobressaltando os donos e vizinhos#

Mais tarde chegaram os filhos e, quem sabe, os anos e os médicos com as suas milagrosas teorias, diagnósticos e penitências
E fui como que obrigada a esquecer a noite e abraçar os dias e as suas longas horas claras
Quanto à lua, não deixei de lhe espreitar o quarto e dizer olá mas, no fundo, como que a abandonei

Hoje em dia já consigo escrever em plena praia ou até no meio do mais barulhento recreio
Nos cadernos, de capa preta, rabiscados, com setas, anotações e até flores secas
Ou num simples guardanapo que depois guardo bem dobrado na carteira
Ou cada vez mais, no teclado dum qualquer equipamento electrónico

#A passagem dum grupo animado e bem audível pelas ruas em volta, diz que a madrugada não tarda a acabar#

No entanto lá fora ainda as gaivotas que riem chorando, ou choram rindo
Mas ao fundo do fundo de todos os barulhos desta noite, deixo de ouvir os búzios contando histórias do mar

Tu dormes
Acho
Não te consigo chegar para me certificar
E, talvez, te queira assim, imaginando
A dormir
Para que eu possa velar o teu sono
Daqui, deste lado da noite

Levanto-me e vou à varanda, que não dá para o Tejo, que deixei lá atrás
E espreito a lua para lhe dizer desta minha noite tão clara
Não lhe encontro o quarto, era crescente, muito no início
Imagino-a então contigo, aninhada, a salpicar de estrelas os teu sonhos

#O barulho do carro do lixo e os vizinhos de cima na sua casa-de-banho, trazem-me de volta aqui, a esta folha de papel onde, na verdade, nada conto#

Lá fora as gaivotas já não cantam
E o céu, muito devagar vai deixando antever que, como sempre "amanhã será outro dia"
Volto para dentro num arrepio e olho sem grande intetesse para a cama, aberta, à minha espera

Resignada, abro a gaveta de cima da mesa-de-cabeceira e tiro um smarti com a promessa duma noite tranquila
Tomo o segundo da noite em deixo-me enganar pelas promessas que me faz

Tu dormes
Acho
Não tenho como saber
Antes de me deitar, olho para a fresta aberta da janela
E peço ao luar que te entregue o meu beijo

Recebeste?!


Liliana Lima



quarta-feira, agosto 23, 2017

as VELHAS da praia

Sei que voltas. Mas ainda agora saíste e já algo de nós ficou. Um nó, uma rede, que caiu no porão com o embate das tuas malas.

Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"

Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.

Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".

Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.

Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.

Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.

Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.

Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.

Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?

Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.

Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.

Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...


Liliana Lima



segunda-feira, agosto 07, 2017

PeRtO

Olho-te de tão longe...
Sinto-te em cada palavra
Vejo-te em cada letra
Oiço-te em cada espaço

Olho-te de tão longe, 
De repente tão perto nesta singela frase
"Também gosto de ti"
E a lua, cheia, que ilumina a distância 
A trazer-me o silêncio da suspresa repetida
A cada vez que te leio

Olho-te, assim, de tão longe 
Nas palavras que cheiram a ti
Nas frases a que me agarro para chegar aí
Onde me dizes que gostas de mim

Olho-te daqui, onde 
A lua te traz em tudo o que escreves
A distância encurta e ilumina o sorriso
E a surpresa se repete e ecoa na noite

Olho-te de tão longe 
E sei-te tão perto...


Liliana 



terça-feira, novembro 22, 2016

fALTA

Faz falta alguém que nos faça falta
Não que a ausência nos imobilize
Mas que seja notada a falta de quem nos faz, falta
quando o sol brilha dentro e fora de nós,
quando precisamos de colo,
quando a vida nos tráz à memória um filme,
quando a lua imponente nos sorri,
quando nos sentimos mais pequenos que a sombra do meio-dia,
quando vemos um arco-íris,
quando sentimos o mar inteiro escorrer pelos olhos,
quando sentimos o coração bater descompassado,
quando chegamos ao fundo de mais um copo,
quando o livro que lemos parece escrito para nós,
quando não queremos ver ninguém,
quando encontramos uma papoila no campo,
quando perdemos a esperança,
quando nos deitamos para dormir,
quando sentimos fugir o chão,
quando cantamos todas as canções que se atropelam no decorrer do dia-a-dia,
quando o corpo quente pede o toque de outra pele,
quando as noites teimam em passar brancas,
quando alimentamos a utopia com a força dos sonhos.
E quando queremos tudo, menos sentir falta de alguém...

Liliana Lima




terça-feira, outubro 11, 2016

pALMA

Aperto o relógio na palma da mão, os minutos demoram horas a passar e a noite avança sem esperar por mim

Espero

Espero dias que parecem infinitos, por entre os destroços das batalhas que travo entre o que quero e o que gostava de querer

Guardo dentro de mim o pó das lágrimas secas à força do vento que eu própria sopro para enfonar as velas de cada partida

Abraço as certezas, ainda que efémeras, ainda que trémulas e sorrio para os ponteiros na esperança de os ver dançar com um tempo que teima em não se encontrar com o meu 

Espero

Espero noites e noites, despida de ilusões, deitada numa cama de rede que baloiça entre o que sou e o que não quero ser 

Procuro dentro da redoma em que me escondo do tempo a chave para dar corda ao relógio de pé que me olha, imóvel, num canto da sala 

Sento-me à beira-rio com as inquietações o mais aquietadas possível e recorto pequenas luas onde desenho números romanos 
Peço ao lado de mim que tenta abafar o outro, que me deixe soltar os ponteiros
Aperto o relógio na palma da mão

E espero


Liliana



terça-feira, setembro 13, 2016

de TUDO o que TE não DIGO

Hoje, no silêncio dum fim-de-tarde de Verão, vi um arco-íris brilhar para mim. Cores das mil e uma noites em te(me) conto das utopias que iluminam os meus dias. 

Encosto o meu corpo quente, húmido ainda, ao teu e deixo entrar o Luar na nossa cama. É aqui, neste silêncio abafado desta noite de Verão, que brilha tudo o que te (não) digo. Mil e um arcos que se abrem em mim, cores de todos os tons que guardo, enquanto (não) falamos. 

A Lua entra pela janela aberta e dança com as sombras do que calamos. Procuro as palavras certas para me(te) dizer do tanto que trago no peito, mas elas esvoaçam, coloridas, e perdem-se no azul escuro da noite. 

No tecto a luz dos carros que passam bate no que te quero dizer e reflecte um arco-íris esbatido, quase imperceptível. É nele que eu, em silêncio, projecto tudo o que te (não) digo. 

Hoje, num céu de Verão, vi um arco-íris brilhar para mim. Mil e uma cores que (me) espelham (n)as utopias que iluminam as nossas noites. 

Liliana 



domingo, agosto 14, 2016

branco E preto

Ela não sabia se os camaleões conseguiam vestir-se de todas as cores. Ela queria ser capaz de se tornar no arco-íris sem esborratar a sua cor, única e verdadeira. 

Uma noite de Lua cheia, em que o Luar apagava as estrelas com a sua luz branca e toda a vida lhe parecia fugazes diferenças entre cinzas claros e escuros, o peso das horas pediu um novo vestido, não verde nem rosa, não roxo ou vermelho, mas preto, branco e preto apenas. 

Procurou no baú do guarda-roupa dos muitos teatros levados a cena em tantos palcos quantos a vida aplaudiu, ou correu o pano mesmo antes do final. Nos fatos e vestidos, por estrear pendurados por tons, ou espalhados e já gastos em muitos monólogos, nenhum branco e preto. 

Sem camuflagem, não conseguia entrar sem ser vista. Sem conseguir vestir-se das cores da noite, não conseguiria estar sem estar, olhar sem sentir, falar sem contradizer. 

Ela não sabia em quantas cores conseguiam os camaleões camuflar-se. Ela apenas queria ser capaz de vestir a cor certa para passar por entre o peso das horas num mundo a preto e branco. 

Liliana Lima 


sexta-feira, junho 10, 2016

noVelos

Enrolando o novelo com as horas vazias do absurdo emaranhado de linhas da alma

Bordando o lenço com que a mão acena no cais a cada despedida que corta o rumo da gaivota

Embalando o vazio tão cheio de palavras cosidas em cima umas das outras para abafar as que não se querem dizer 

Alinhavando o alvoroço interno que tropeça no cais e se faz cascata abrupta rompendo as veias e queimando a pele

Retrocedendo os pontos para voltar à rota inicial antes das "chuvas de Maio fechando o Verão" 

Enrolando o novelo com os sonhos pintados outra e outra e outra vez porque o Sol sempre nasce quando a Lua se deita


Liliana Lima