Não sei como te ver sem nos olhar
Não sei como te ver sem nos olhar
Não sei como te ver sem nos olhar
Liliana Lima
Liliana Lima
Ah, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas...
Deixem-me contar das cores, das formas e dos cheiros! Deixem-me dizer das sensações e dos sonhos!
Não quero pensar em tudo o que não me interessa.
Quero falar de limões, preferencialmente da espécie limão sicilliano que se adapta muito bem em vasos. Sabiam?
Quero falar da lantana e das pedras que se deve colocar no fundo do vaso para que haja uma óptima drenagem, e ficar à espera da possível mudança de cores de ano para ano.
Quero subir e descer escadas pelo prazer, tão raramente prazeroso, de... arrumar.
Quero falar de madeiras e chãos com quem, tenho a certeza, tudo fará para me ajudar porque sabe que "é magra a ceia" mas, já dizia a minha avó, põe mais um copo d'água na sopa e segue em frente!
Quero é falar das cores e das formas e dos cheiros e dos espaços e do Sol e da Lua que ainda não vi e de tudo o que ainda não vivi.
Porque tenho direito a ser feliz? Sei lá se tenho! Todos temos? Sei lá eu...
Porque tenho muito para viver, isso sim!
E quero fazer o pão em casa porque não param de dizer que a farinha ainda não subiu, mas vai subir. E quero acender a lareira porque não param de falar na subida das energias que ainda não subiu, mas vai subir.
E quero ter espaço para receber os amigos que estou farta de dizer que vou convidar e ainda não convidei!
E quero ver os meus filhos viver tudo isto comigo com vontade de estar e espaço para verdadeiramente ser com a vontade de participar que ainda não tiveram!
Por isso, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas, porque... eu quero mesmo mesmo é falar de limões!
Liliana Lima
Se eu não estivesse cá amanhã, o Sol ia continuar a aquecer os campos e abrir as flores.
Se eu amanhã não acordasse, os carros não iam deixar de correr para as cidades e as escolas tocar para os seus alunos entrarem.
Se os meus olhos não abrissem as pálpebras de manhã, as torradas iriam ser feitas, mais ou menos morenas nas casas das redondezas.
Se eu não tomasse o duche matinal, vocês acabariam por encontrar o meu colo num aconchego da noite.
Se...
Se eu não lançar o meu livro, não é assim tanta a diferença de pessoas que o deixam de ler.
Se eu não te paginar o livro, outro alguém o fará, quem sabe mais rápido e melhor.
Se...
O que sei é que não consigo sair daqui. Hoje. Ontem. Anteontem. E tento, ah! Se tento!
Mas "não posso parar assim", "não posso deixar de estar, de ir, de fazer".
Se....
Se eu conseguisse!...
Se eu pudesse!...
Se eu soubesse como!...
Se vocês imaginassem!...
Se...
Se eu não estiver cá, a Lua continua a iluminar o mar para o Sol saber o caminho até casa.
Liliana Lima