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terça-feira, março 01, 2022

pAZ

O que te faço quando apareces atrás dum sorriso forçado para que me deixes em paz?

Diz-me o que te dar para que não me espreites a sincera tentativa de fuga?

Explica-me, que passos de dança me levam para longe, longe de ti?


O cançaso chega de mansinho com final do dia, pé-ante-pé, no bolso do teu casaco, e vence-me. Todos os dias.


A cada manhã acordo e esforço os movimentos e a música ao levantar-me, como que para te mostrar que já te venci, que já sou eu, só eu, apenas e completamente eu.

E assim avanço pelo dia, até que apareces atrás dum sorriso forçado... E pergunto a mim mesma, o que faço para que me deixes em paz?...


Liliana Lima


quarta-feira, fevereiro 23, 2022

Escolhas de Tijolos Amarelos

Não há um caminho certo. Por muito que, por muito tempo, me tenham tentado convencer que sim.

Como seria, então, a (minha) estrada dos tijolos amarelos? Uma linha mista, sem um único cruzamento, com toda a certeza. E só com um sentido, obviamente. É que a dita linha certa vai do ponto A ao ponto Z, não o contrário. Pois isso mudaria tudo, a ordem dos acontecimentos, tornando-a imediacta e irremediavelmente em errada. Poder-se-ia até admitir que se descubra o caminho mais à frente, tornando-o em mais ou menos pequenas semi-linhas mistas, por exemplo [C:Z] ou mesmo [Y:Z]. Afinal, foi prometido aos trabalhadores da última hora o mesmo do que aos que trabalharam desde a manhã.

Desbaralhando... 

Imaginem o trânsito na estrada dos tijolos amarelos se só houvesse um caminho certo e, fruto de grande infortúnio, esse fosse mesmo o meu. O que seria de cada vez que brilha no céu o arco mais colorido do mundo, de gente à procura dessa cor (que desde tão pequenina me ensinaram que era de mau gosto) para seguir até ao fim... e no fim será que encontrariam Oz?... Ou será apenas um metafórico erro meu?!...

Sem brincar...

Não há um caminho certo por oposição a milhares de outros, todos eles errados e condenados desde o início. Não é assim este mundo meio louco a chamamos casa funciona. Atrever-me-ia a concordar com o poeta e dizer mesmo que não há caminhos. Nem certos nem errados. Nem pré-desenhados.

Há escolhas, muitas mais do que pessoas. 

Tomamos decisões e fazemos centenas de escolhas a cada dia. Há escolhas que nos levam a criar um ou outro caminho, ou até a cair na tentação de achar que estamos a percorrer caminhos há muito navegados. E à medida que vamos escolhendo, acordar-dormir, arriscar-parar, enfurecer-acalmar, lutar-calar, sorrir-frazir-o-sobrolho, avançar-desistir, gritar-sussurrar, sonhar-apenas ser... estamos a fazer o nosso caminho único e especial, porque assim o somos também.

Claro que há escolhas erradas! Claro que há caminhos onde atolamos, onde nos  afogamos, caminhos que acabam em precipícios. E mesmo aí as escolhas não acabaram... Há mesmo caminhos onde só se chega depois de algumas escolhas duvidosas. E outros há que por muito certinhos que sejam os passos, um dia acabam mal. E sim, há caminhos que seria muito melhor não iniciar nunca.

Mas não estamos, então apenas a trocar a palavra caminho pela palavra escolha?...

Acredito que não. Acredito que temos o poder de escolher se andamos descalços, vamos a nadar ou viramos à esquerda ao fundo da rua. E essas escolhas encaminham-nos numa determinada direcção que, por si só raramente é taxativamente errada. 

Há milhares de milhares de escolhas que dão origem a outros tantos caminhos, começados, deixados a meio, percorridos com muito brio, ou sofrimento, cheios de rotundas e passagens de níveis, mudanças buscas e até mudanças repentinas de direcção. 

Às vezes brilha o arco-íris e por breves segundos podia jurar que a estrada amarela de tijolos reluzentes. Tantas vezes sento-me no meio do cruzamento sem saber para onde virar. Outras vezes volto para trás e não conheço de todo o caminho que (des)faço. E de quando em vez decido apenas parar.  


Não podemos esquecer que nem tudo depende de nós. 

Muito pouco depende de nós.

Mas cá estamos, eu escolhi neste momento escrever e tu... não sei quando nem porquê, mas fizeste deste momento duas linhas coincidentes. Não é bom nem mau. É simplesmente assim. 

Não há um caminho certo. Por muito que, por muito tempo, me tenham tentado convencer que sim.


Liliana Lima



  

segunda-feira, fevereiro 21, 2022

Se EU

Se eu não estivesse cá amanhã, o Sol ia continuar a aquecer os campos e abrir as flores.

Se eu amanhã não acordasse, os carros não iam deixar de correr para as cidades e as escolas tocar para os seus alunos entrarem.

Se os meus olhos não abrissem as pálpebras de manhã, as torradas iriam ser feitas, mais ou menos morenas nas casas das redondezas.

Se eu não tomasse o duche matinal, vocês acabariam por encontrar o meu colo num aconchego da noite.

Se...

Se eu não lançar o meu livro, não é assim tanta a diferença de pessoas que o deixam de ler.

Se eu não te paginar o livro, outro alguém o fará, quem sabe mais rápido e melhor.

Se...

O que sei é que não consigo sair daqui. Hoje. Ontem. Anteontem. E tento, ah! Se tento!

Mas "não posso parar assim", "não posso deixar de estar, de ir, de fazer". 

Se....

Se eu conseguisse!...

Se eu pudesse!...

Se eu soubesse como!...

Se vocês imaginassem!...

Se...

Se eu não estiver cá, a Lua continua a iluminar o mar para o Sol saber o caminho até casa.


Liliana Lima



   

sábado, janeiro 29, 2022

CINZentos

Quando recomeçamos a ver cores, depois de muito tempo nas escalas de cinzento, podemos perder o pé no azul brilhante das ondas. Quando recomeçamos a sonhar, depois de muitas noites em branco, é possível que o chão nos pareça impossível de alcançar quando espreitamos do alto da janela. 

A interrogação aparece no canto do olhar quando tomamos consciência de que, às vezes, nada é o que parece. A dúvida acorda-nos nas horas soltas em que tudo se mostra calmo e inofensivo.

Depois, depois de ouvirmos as perguntas feitas pelo espelho, não mais tornamos a pegar no pincel com a liberdade da inocência. Ficam connosco o medo e ansiedade de não saber, sequer, se sabemos reconhecer e avaliar a realidade.    

Que bom e pacífico e seguro deve ser poder chamar a certeza pelo nome, saber até onde vai a linha do horizonte e nunca perder os pontos cardeais. Olhar para o chão sem nunca duvidar se nos equilibramos em cima de um caminho-de-ferro no meio de terra batida ou de uma corda-bamba entre duas montanhas.

Quando o que de mais profundo sabemos de nós é que nem sempre nos parecemos connosco, tudo o mais é uma estranha e macabra escala de cinzentos.


Quando é que o bom é bom demais?

Onde está a linha que me separa os "normais"?

Qual é a medida máxima de bem-estar aconselhada?

Como sei se nado fora de pé ou chapinho na areia molhada?


Liliana Lima



sexta-feira, junho 21, 2019

hiATO A.zul

Onde está o chão quando o azul escorre e cobre o horizonte? 
De que lado ponho o pé se tudo o que vejo são ilhas de nuvens semi-transparentes?

Onde está o norte se perdi o céu? 

Enrosco-me numa almofada branca e tento, sem sucesso, encontrar Terra.

Como andar se não tenho o que pisar? 

Quando o azul do céu escorre e apaga o horizonte, o tempo desaparece com o chão.
Há um hiato feito nuvens que nos permite sentir sem tocar, amar sem desgastar, ser sem falhar.

O azul que me envolve não é todo igual. As tonalidades distinguem os sonhos perfeitos, impossíveis, das incertezas com que sonhamos acordados.

Estou direita ou do avesso? 

O Sol, que reflecte no tapete branco que compõe o céu, cega-me e deixo de ter qualquer ponto de referência.

Estarei lá em baixo, onde nunca sei bem onde assentar as ideias? Ou estou por cima das nuvens, onde tudo é filtrado pela condensação da água pura, branca?

Trago na mochila o peso das mil culpas que destilo ao fim de cada dia. Os receios, as mágoas. 
Aqui, neste hiato de nuvens feito, posso largar a mochila. Aqui não há peso, nem gravidade a classificar os pecados, as falhas, as dores.

São horas de descer, dizem. 

Eu continuo num contínuo azul. Neste ar frio, rarefeito. 

Gosto do branco que nasce dos azuis vários e da luz intensa do Sol, que me permitem ver mais além deste céu sem hora nem beira.

Vamos descer, pousar na Terra, ficar com os pés bem assentes no chão.

Talvez me enrosque numa nuvem branca e nem procure Terra à vista.
Talvez me deixe cegar pelo Sol e não mais veja os sonhos impossíveis ou inatingiveis.
Talvez deixe que me descaia "o meu pé de catraia" e me encontre no mar azul que escorre do céu em diferentes tonalidades que apagam o tempo. 
Talvez. 

Podemos viver sem horizonte? 


Liliana Lima 


sábado, junho 15, 2019

SAPI(paci)ÊNCIA

Só sei explicar o que sinto através do ritmo com que, nas entrelinhas, escrevo. 
Sou sempre inteira, mas nem sempre me traduzo completamente para a linguagem corrente.
Não que não queira ser lida. 
Não que me importe aparecer transparente. 
Não que queira ser altiva ou, propositadamente, diferente. 
Pelo contrário. 
A batalha comigo trava-se dentro mim própria e o leito onde jazem os argumentos derrotados é um ringue de difícil saída. 
É que é nas gavetas, que se escondem por dentro daquelas portas de vidro que guardam o comum e vulgar dos dias, que se sentam os meus fantasmas, tão educados e persistentemente presentes. 
E é precisamente nos dias banais que, como um carro mal arrumado ou uma nota fora do tom, saem dos seus aposentos e se apresentam, em formação, marchando sobre o meu corpo. 
É então que procuro guarida na escrita e passo outro dia completo a estudar táticas e movimentos, na esperança de ganhar a guerra que, resguardadamente, se debate em e sobre mim. 
Um dia, ou dois, ou três, conforme a sapi(paci)ência dos outros de ler o tanto que, nas entrelinhas, escrevo. 
É que, só mesmo assim me sei explicar. 

Lili








sexta-feira, maio 10, 2019

A(qu)Í

Estou aqui
À tua espera
Se calhar à minha 

Como se espera alguém
Sem se saber de onde vem?

Podes chegar à hora marcada
(Aqui estou eu) 
Mas marcada por quem? 
Se todas as horas são uma hora 
Mais tarde?
(E eu aqui sentada)

Seria de perguntar
De onde vens? 
Para perceber 
Onde irias chegar
(Podia jurar que perguntei) 

Como se chega assim
Sem saber se alguém nos espera? 

Não sei de onde vens
Nem quando chegas 
Mas sei que estás aí 
(E eu continuo aqui)

Lili







sábado, fevereiro 23, 2019

(des)CONSTRUÇÃO

Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares 
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos

E deixo os quadros e as panelas 
Deixo os sofás e os candeeiros 
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes

Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores 
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos 
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo 
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"

Liliana Lima



sábado, novembro 10, 2018

quase SEMPRE, ou quase NUNCA, Fernando?!

Quase sempre ao fundo do sonho a vida espreita
Quase nunca o horizonte é direito ao fundo do mar
Quase sempre uma gaivota, ainda que ao longe, pinta o céu
Quase nunca as tempestades anunciadas ficam para jantar
Quase sempre as ondas se acalmam no coração
Quase nunca a espuma branca permanece na areia
Quase sempre o vento nos canta até percebermos
Que quase nunca o alinhamento programado é, afinal aquele que escolhemos

Liliana Lima 



Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Fernando Pessoa 
in Ideias Políticas 

sexta-feira, setembro 21, 2018

grito MUDO

Há um desespero, tão fundo, tão profundo, que desaba em mim sem pedir licença
Há uma porta que se abre à minha frente, por muito que tente virar numa rua qualquer, longe da minha
Há um vazio que, de repente, preenche os dias cobrindo o rio e a ponte e toda a cidade  
Há uma solidão tão antiga que canta uma cantiga que não consigo abafar
Há uma inquietação que me fere o peito e se instala sem me deixar respirar

E há um grito dado no alto do mais longo silêncio 
E há uma mão que não deixo acenar
E há uma máscara pintada no espelho

E há um mar a pedir para nascer
E um enjoo pouco nítido no olhar
E há uma palavra que quer ser dita
E uma força que me faz calar

Há desespero e vazio e solidão
E tu, sem me saberes ouvir no barulho da distância
Há máscaras e silêncio onde grito
E tu, sem me conseguires ver no nevoeiro da manhã

E aquela inquietação que tudo turva
E não se diz, e não se vê
que só se canta

Há um silêncio onde grito tudo o que não te digo
E a minha mão, que procuro, para me aquietar


Liliana Lima

  

sábado, setembro 08, 2018

s.AÍ.ste

Vais sair

Ou melhor já saiste
Para dentro daquele tempo
onde não há espaço
Para mim

Saíste novamente
sem avisar que irias entrar
nesse espaço onde não há tempo
Para mim

Vais sair e eu devia perceber
que deixei de estar
Dentro de ti

Devia saber que ao sair te queres
inteiro, vazio, com a possibilidade única
De ti

Vais sair
ou melhor, já saiste

E eu entrei, aqui


Liliana Lima


quinta-feira, agosto 30, 2018

REdoMA

Estou presa numa redoma que tinge o mundo dum tom esverdeado 
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém 
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado 
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim

Liliana Lima


sexta-feira, agosto 24, 2018

não CONSIGO

Não consigo dizer que, não consigo
E enrolo-me numa teia de histórias que separo por cores

Não consigo dizer que, não consigo
E afundo-me num pântano escuro onde não vejo nada

Mas a ti, digo
Não sei pintar as palavras sem que as percebas falsas
Não sei fingir o sorriso que conheces de cor

Mas a ti, digo
Que não consigo avançar
Que não consigo (re)começar
Que nem me consigo levantar

Não consigo dizer que, não consigo
Mas a casa por arrumar
E os filhos para almoçar
E as certezas que devo inspirar
E as peças com que devo jogar
E a vida, enfim, por encarar

Levanto-me
Visto o vestido mais leve
Penteio aquele olhar
Reinvento aquele sorriso
E...
Não consigo dizer
O que dentro de mim está a gritar

Não consigo continuar


Liliana Lima


quinta-feira, junho 07, 2018

REALidade

Deixei de te dizer de mim
Da falta de vontade
de contar, sequer
E do caos instalado no fim
de tantos dias em que
em vez de descansar
me obriga a revirar o mundo interno
que se queria encerrar na concha
deitada ao mar

Porque demora a explicar
(e a entender...)
Porque cada palavra,
soletrada,
no seu mais baixo volume,
um dia, uma tarde,
uma noite qualquer
Será virada do avesso,
despida, interrogada e,
sempre sem querer,
rejeitada, incompreendida
fechada

Porque é este o signo
da loucura
trazermos em nós a semente
da mais pura clarividência
e com ela a sua irmã solidão
É que é não é possível
a (sobre)vivência
ao comum espectador, são,
aos maleficios da realidade
nua e crua

E por isso hoje,
esta noite pelo menos,
deixarei de te dizer de mim
Para que, em paz, possas dormir
por fim

Liliana Lima


quinta-feira, março 22, 2018

ó MAR SALgado

Diz ao mar que pare de balançar o barco
Pede às ondas que não me desequilibrem no caminho
Convence o vento a soprar de mansinho
Que a minha rota é marítima e é difícil dobrar, da boa esperança, o cabo

A maré que me ameaça não vem da lua nem do sol
vem com a força da inquietação que em mim se faz onda e rebentação
Ah! Soubera eu acalmar esta corrente e, juro, nadaria até à beira-mar
correria pela areia e brincaria nas pequenas ondas da maré vazia

Diz ao mar que me embale o meu canto
Pede às ondas que me afaguem o cabelo
Convence o vento a enrolar-me, dançando
Que nesta rota marítima é em ti que me encanto

Sopram, decididos, os medos do vento norte
Eu, parada, não grito ao mar... nunca lhe soube falar
E o barco agita-se, desce e sobe por entre vagas de amor e morte
enquanto canto à lua para que, em sonhos, me venhas salvar

Diz ao mar que acalme estes medos
Pede às ondas que não espalhem meus segredos
Convence o vento às minhas velas soprar
para esta rota marítima em teu porto atracar

Liliana
21-03-2016


terça-feira, fevereiro 20, 2018

mi nu tos

Pergunta aos minutos se vêm que as horas não chegam
Pede à vontade que se arrume ao lado do bule que o chá está servido
Senta-te ao meu lado, sem cerimónia, que os bolos não têm de estar inteiros no prato
Tira os ponteiros que correm ao contrário no relógio que o barulho do tempo invade o espaço 

Olha para mim e deixa os olhos falar que da boca só saem palavras mudas
Estende o sonho até mim e promete que tudo vai correr bem
Mata o silêncio que o medo invade a saudade
Pergunta aos minutos se os segundos vêm que as horas nunca chegam 

Liliana



domingo, janeiro 28, 2018

QUADRAnte

Porque me vieste buscar, boneca de trapos vestida para teu bel prazer
Se não queres coser os remendos? 

Porque me vieste buscar, relógio avariado, adiantado ou atrasado, quase nunca acertado com o teu
Sem a disponibilidade de calibrar os ponteiros e olear a engrenagem?

Porque que me vieste buscar, vela enfonada pelos ventos do oriente 
Se não trazes contigo o quadrante?

Porquê?

Porque me dizes que queres uma paz que não sabes(emos) construir?
Querêla-às de facto?
Existirà sequer?

Porquê?
Diz-me. 
Tu. 
Que me vieste buscar...


Liliana
  


Museu da Electricidade

segunda-feira, dezembro 25, 2017

SERra

Lembras-te quando me dizias "Vamos para a Serra, ficamos no Hotel lá no alto, levamos uns bolos, uns sumos e pão. Esperamos que estes dois dias passem e, lá no alto onde há ninguém, respiramos a paz de quebrar as algemas. Vamos?"

Lembras-te? 

E eu; que no alto do monte das ilusões, onde tudo o que via eram fitas farfalhudas e coloridas, e a mesa que se enchia até ao auge da magia, quando os embrulhos apareciam com tudo o que queria e ainda mais; franzia o sobrolho e até me zangava com a tua displicência em relação a momentos tão vivos, tão alegres, tão mágicos. 

Lembras-te?

E tu, sentada no alto das obrigações, onde as horas comandavam toda a acção duma peça sem guião assinado, mas onde cada personagem conhecia de cor a sua deixa e nenhuma ousava sair do compasso, marcado pelo que era porque tinha de ser e sempre assim tinha sido. Vestias o teu papel e sorrias.

Lembras-te? 

Há um ano em que o teatro, agora escrito e controlado por mim, deixa de encontrar palco para se pôr em cena...

Há um dia em que a tradição com cheiro a canela e água ardente, deixa de nascer na cozinha...

Há um ano em que esta procura do embrulho certo que, afinal sempre preferi distribuir pelos outros dias do ano "só porque sim", deixa de ser um prazer e passa a ser raiz de instabilidade e conflito...

Há um ano em que o pinheiro, morto e seco, espalha todas as folhas em forma de agulha pelo chão e as luzes se enrolam e deixam de piscar as lâmpadas coloridas...

Há um ano  em que tudo o que quero é ir para a Serra da Estrela, ficar num qualquer quarto do Hotel, levar um cesto com pão e queijo e bolo rei e, lá no alto onde não há mais ninguém, respirar a paz de quebrar as algemas.

Lembras-te? 

Podes vir. Faço a mala e arranjo a lancheira num minuto. E, enfim, partimos as duas para a Serra, onde não há ninguém. 

Lembras-te, mãe? 

Podes vir.


Liliana Lima 




quarta-feira, agosto 23, 2017

as VELHAS da praia

Sei que voltas. Mas ainda agora saíste e já algo de nós ficou. Um nó, uma rede, que caiu no porão com o embate das tuas malas.

Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"

Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.

Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".

Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.

Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.

Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.

Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.

Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.

Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?

Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.

Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.

Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...


Liliana Lima



segunda-feira, março 20, 2017

_ti

Passam os dias pela minha janela sem olhar para mim. Pergunto-lhes para onde vão, dizem-me que apenas sabem que não param aqui, onde, em frente ao espelho, me arranjo para ti.

Rolam os sonhos por sobre a minha almofada sem, contudo, me tocarem na noite que custa a passar. Peço-lhes que se aninhem a mim, respondem-me que não se deitam ali, onde, no escuro, procuro por ti.

Correm as horas e as datas e o desejos que a eles se colam. Chamo-os para o meu lado, abro-lhes um abraço, contam-me que não têm espaço ali, onde, sozinha, espero por ti.


Liliana Lima