domingo, julho 09, 2023
pêra_ROCHA
quarta-feira, março 09, 2022
Limões sicILLIANos
Ah, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas...
Deixem-me contar das cores, das formas e dos cheiros! Deixem-me dizer das sensações e dos sonhos!
Não quero pensar em tudo o que não me interessa.
Quero falar de limões, preferencialmente da espécie limão sicilliano que se adapta muito bem em vasos. Sabiam?
Quero falar da lantana e das pedras que se deve colocar no fundo do vaso para que haja uma óptima drenagem, e ficar à espera da possível mudança de cores de ano para ano.
Quero subir e descer escadas pelo prazer, tão raramente prazeroso, de... arrumar.
Quero falar de madeiras e chãos com quem, tenho a certeza, tudo fará para me ajudar porque sabe que "é magra a ceia" mas, já dizia a minha avó, põe mais um copo d'água na sopa e segue em frente!
Quero é falar das cores e das formas e dos cheiros e dos espaços e do Sol e da Lua que ainda não vi e de tudo o que ainda não vivi.
Porque tenho direito a ser feliz? Sei lá se tenho! Todos temos? Sei lá eu...
Porque tenho muito para viver, isso sim!
E quero fazer o pão em casa porque não param de dizer que a farinha ainda não subiu, mas vai subir. E quero acender a lareira porque não param de falar na subida das energias que ainda não subiu, mas vai subir.
E quero ter espaço para receber os amigos que estou farta de dizer que vou convidar e ainda não convidei!
E quero ver os meus filhos viver tudo isto comigo com vontade de estar e espaço para verdadeiramente ser com a vontade de participar que ainda não tiveram!
Por isso, não me venham falar de distancias, de alturas ou de temperaturas, porque... eu quero mesmo mesmo é falar de limões!
Liliana Lima
segunda-feira, fevereiro 21, 2022
Se EU
Se eu não estivesse cá amanhã, o Sol ia continuar a aquecer os campos e abrir as flores.
Se eu amanhã não acordasse, os carros não iam deixar de correr para as cidades e as escolas tocar para os seus alunos entrarem.
Se os meus olhos não abrissem as pálpebras de manhã, as torradas iriam ser feitas, mais ou menos morenas nas casas das redondezas.
Se eu não tomasse o duche matinal, vocês acabariam por encontrar o meu colo num aconchego da noite.
Se...
Se eu não lançar o meu livro, não é assim tanta a diferença de pessoas que o deixam de ler.
Se eu não te paginar o livro, outro alguém o fará, quem sabe mais rápido e melhor.
Se...
O que sei é que não consigo sair daqui. Hoje. Ontem. Anteontem. E tento, ah! Se tento!
Mas "não posso parar assim", "não posso deixar de estar, de ir, de fazer".
Se....
Se eu conseguisse!...
Se eu pudesse!...
Se eu soubesse como!...
Se vocês imaginassem!...
Se...
Se eu não estiver cá, a Lua continua a iluminar o mar para o Sol saber o caminho até casa.
Liliana Lima
segunda-feira, junho 08, 2020
a VIDA continuou
segunda-feira, abril 13, 2020
pássaros do NORTE
sábado, fevereiro 23, 2019
(des)CONSTRUÇÃO
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos
E deixo os quadros e as panelas
Deixo os sofás e os candeeiros
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes
Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 30, 2018
REdoMA
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim
Liliana Lima
sábado, junho 16, 2018
c.ASA
Liliana Lima
sábado, outubro 14, 2017
COR.tina
segunda-feira, setembro 11, 2017
nInho
sábado, março 12, 2016
histórias...
quinta-feira, novembro 26, 2015
PRiMeiRo DiReiTo
Mandei-te um beijo embrulhado no luar
Liliana
quinta-feira, julho 30, 2015
aguarela (in)acabada
domingo, dezembro 23, 2012
Dos Natais de outros anos...
Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre as duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas, dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância. Sem esforço aparente apareciam prontos a decorar na sala de jantar onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam sempre que uma das lâmpadas se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...
De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham pelo chão da sala e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem desengraçadas.
Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia. Tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...
Enrolo o alguidar com a massa das filhoses numa manta e deixo-a fintar perto do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.
Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido, da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesa com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.
Ao fundo do corredor, do meu corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.
Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!
"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...
Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.
Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!
Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?"
"Ai de Mim! "António Nobre, in 'Só'
segunda-feira, janeiro 23, 2012
Dias (en)gripados...
Lá fora as pessoas passam, alegres, apressadas, embrulhadas em casacos e camisolas de lã, que lembram as que a minha bisavó fazia, e gorros e cachecóis coloridos.
Aqui, dentro de casa, o tempo espreguiça-se em movimentos lentos que me baralham o corpo e alteram o hábitos.
Aqui, dentro de casa, sinto o frio mais forte dentro de mim. Espreito a rua pela janela e deixo que a luz me afague a cara corada da febre. Não espero nada nem tenho pressa, estou apenas, neste embalo de sono leve, interrompido apenas pelo frio, que se estende pela tarde dentro e me deixa sem forças.
Aqui, dentro de casa, o mundo parece ter parado talvez à força da febre que me deita, ou do dorido do corpo que amolece.
Lá fora tudo se passa como habitual, as crianças apressam-se nas escolas, inquietas com a proximidade da hora de saída, os carros dançam pelas estradas, num exercício de paciência, e o mundo avança alheio a mim.
Aqui, dentro de casa, aqueço a água para o chá e não me consigo concentrar no que tinha de fazer se estivesse lá fora... Sei que há coisas por fazer, fios por enrolar e gavetas para arrumar... se estivesse lá fora... Porque aqui, dentro de casa, a urgência dilui-se no tempo que apenas sei passar pelo relógio vizinho que conta a vida que vive lá fora, no mundo que não pára nunca apesar do que se vive... dentro de casa.
Liliana
terça-feira, janeiro 18, 2011
De que cor é a tua palavra, Carlos?
"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra."
"A palavra Mágica" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Discurso da Primavera'











