quinta-feira, dezembro 12, 2019

janELA

Passo na rua e olho para a que foi a minha janela durante tantos anos
Converso comigo própria e pergunto-me se sinto saudades
Não sinto nada

Os cactos estão maiores e lá dentro espreita um bocado de mim
Não sorrio nem choro para esse eu que ficou no anjinho que reluz do lado de dentro do vidro
Não sinto nada

Sempre gostei da vista daquela janela
No calor, os ramos das árvores quase que entram dentro de casa, atravessando a rua na passadeira em frente à porta
No Inverno, as folhas cobrem os passeios de neve verde amarelada e há uma espécie de papagaios miniatura que estrabucham enquanto procuram bagas para comer
Hoje, cá em baixo na rua, oiço-os e penso se sinto falta deles
Não sinto nada

Passo na rua daquela que foi, durante tantos anos, a minha janela
Deixo por baixo dela tudo o que de pesado pudesse vir comigo e levo tudo o que de bom consigo carregar no colo
Olho para trás enquanto e para o outro lado do passeio
Não sinto nada

Avanço e suspiro ao mesmo tempo que me arrepio com o vento fresco desta tarde solarenga de Inverno
E, de repente, sinto tudo

Liliana Lima


quinta-feira, dezembro 05, 2019

Crónicas duma Separação Consumada XXI

Todos temos os nossos receios, normalmente projectados no tecto do quarto quando não conseguimos adormecer. 

Todos temos as nossas memórias mais ou menos reconstruídas, retocadas ou maquilhadas, no decorrer dos anos.

Esta é a época dos sonhos e das expectativas, que fecho à chave numa gaveta pequenina não vá o diabo vê-las e, por pura diversão, desmontá-las com um sopro como de castelos de cartas fossem. 

Meus amores, sei que a árvore que comprámos não era bem a queríamos, que ainda por cima não a conseguimos montar, e acabámos por ficar com uma miniatura do que imaginámos. 

Sei que este vai ser "o primeiro ano do resto das nossas vidas", e sei que todos estamos com muito cuidado, avançando bem devagarinho para ninguém se magoar.

Meus queridos, quero dizer-vos que sinto tudo o que vocês sentem, reflectido no tecto do quarto quando não consigo adormecer. 

Mas também vos quero dizer, e isto é que mesmo importante, que sei que quando o "tempo faz cinza da brasa, nasce um novo dia e no braço outra asa".

Sei que, quando estamos todos juntos, o tamanho da árvore não interessa nada.

Sei que o importante de cada dia é vivermos as escolhas do nosso amor e não das datas impostas pelo calendário.

Sei que, das prendas que trocaremos, as mais valiosas são as escolhidas para cada um em especial e não as que têm um talão mais avolumado.

Sei que as filhoses só ficam boas contigo a ajudar a tender e contigo a ajudar a passar na calda (e contigo a roubar do tabuleiro).

Sei que queres que este ano haja um "peru mesmo a sério, recheado e tudo", e assim será.       

Sei que não queres magoar ninguém, e que tudo fazes para a todos agradar (e, embora saiba também que isso, meu amor, não é possível, tudo farei do meu lado para não ser eu a mensageira dessa triste notícia).

Sei também que, embora pareças alheio, estás cá, à tua maneira, e é isso que devo valorizar.

Todos temos as nossas memórias, os nossos sonhos, os nossos receios. O desconhecido é, normalmente, causa de medos e ansiedades. E este é, afinal, "o primeiro ano do resto das nossas vidas". Mas quero assegurar-vos que tenho certeza de que o amor é, foi e será sempre, o pilar mais importante da nossa relação e isso faz toda a diferença! (tenha o pinheiro meio metro ou dois metros e meio de altura!)

Com muito amor,
Mãe 



segunda-feira, novembro 25, 2019

Crónicas duma Separação Consumada XX

Meus queridos, tenho andado às voltas com uma preocupação que me assalta o sono de quando em vez. É assim como que um mau estar que aparece do nada e com o nada faz aumentar a pulsação e a sensação de que nada posso fazer a não ser deixar passar a onda...

Diz o poeta* que "é preciso avisar toda a gente", mas eu já não tenho essa pretensão.

Quero dizer-vos a vocês, meus amores, que o mundo não se pinta a preto-e-branco. 
Quero explicar-vos a vocês, meus amores, que as acções dos outros não se podem ler com os olhos de quem não fez a sua viagem, de quem não conhece o que carregam na sua bagagem.
Quero muito que entendam, meus amores, que sempre que julgamos quem se senta ao nosso lado, temos primeiro que experimentar o lugar onde seguiam.
Preciso de acreditar, meus amores, que vocês vão saber nadar contra a corrente e não seguir cegamente nenhum carreiro, porque mudar de rumo não é uma fraqueza é uma prova de inteligência e amor-próprio.
Quero ensinar-vos, meus amores, que ouvir alguém, ouvir a sério olhos-nos-olhos, não é obrigatoriamente entender, perceber ou mesmo concordar. Quantas vezes gostamos de pessoas de quem discordamos aqui e ali. 
Quero dizer-vos, meus amores, e acho que isto é muito importante, que ouvir/vendo as outras pessoas, é ser capaz de ser solidário mesmo quando não compreendemos ou concordamos totalmente com elas.

Diz o poeta* que é preciso "dar a notícia, informar, prevenir", assim o tento, mas não a toda a gente que já me deixei de utopias. 

Mas a vocês, meus amores, a vocês quero avisar que devem sempre desconfiar de discursos inflamados e muito cheios de si. Quem não tem espaço para dúvidas, não tem espaço para acolher o diferente. 
Mas a vocês, meus amores, a vocês quero explicar que quem não consegue acolher (reparem na palavra que escolhi) o que nos é contrário, estranho, difícil de perceber, nunca conseguirá ver o mundo para além duma paleta de cinzentos.

Diz o poeta* que é "preciso, imperioso e urgente", e vocês são as minhas flores. 

Por isso vos trago a notícia, a linha que divide o certo do "in"certo é ténue, curvilínea e muito instável. Não se encostem, não se deixem embalar, não cedam a certezas empacotadas com laços coloridos.

Pensem. Estudem. Questionem. Tomem decisões. Pensem. Questionem. Estudem. Mudem de rumo, se assim acharem. Pesem. Questionem. Tomem decisões. Questionem. Pensem. Questionem...   

Com muito amor,
Mãe





*Luís Cília - É preciso avisar toda a gente