sexta-feira, novembro 01, 2019

Crónicas duma separação consumada XIII

Filho, há tantas coisas que gostava de te dizer. 
Filho, há tantas coisas que gostava que soubesses o quão grata te sou. 
Filho, há tantas coisas que gostava de te pedir desculpa.

Sempre que não estás, não vens, não apareces ou não dizes de ti... Fico numa luta interna entre o espaço que o silêncio te dá e, hipoteticamente tu desejas (sabes o quão ensurdecedor é o silêncio de um filho?!), e o grito que como qualquer mãe, ancestralmente, te chamo, te reclamo para perto, o mais perto possível de mim.

De tão atento e meigo e companheiro e prestável que és, quase não me dás tempo para te dizer, obrigada! Para te reconfortar na minha identificação e, por isso, compreensão da tua mente inquieta como um pardalito que saltita na relva. Para te assegurar que nos vamos habituando a esses saltitos quase imprevisíveis e à sua cadência insistente e permanente. Para te contar o tanto que podes fazer, assim o queiras, com esse pardalito também chamado ideia, ou mente, ou narrativas, ou subconsciente, de formas mais ou menos (in)conscientes.

Há tantas coisas na vida que não correm como nós gostaríamos... Gostava de te pedir desculpa por não conseguir mostrar-te que há sempre outras tantas (ou mais) que correm melhor do que algum dia esperaríamos. Os óculos com que olhamos à nossa volta, moldam o que vemos, sentimos e compreendemos da realidade, de formas tão profundas que condicionam todas as nossas interacções com "essa" (nossa) verdade. E quando agimos (porque não vivemos em grutas sozinhos e afastados do mundo) tocamos e interferimos com outros, como uma peça de Lego que permite ou anula a possibilidade duma determinada construção. Por isso, e apesar do tanto que não corre como eu própria gostaria, deixa-me ensinar-te a ver com os óculos certos o que a vida de bom nos traz.

Tenho saudades tuas. Obrigada pelo apoio que me dás. Vamos ver as estrelas? (mesmo com a chuva que lá fora cai...)

Com muito amor.
Mãe





quarta-feira, outubro 30, 2019

Crónicas duma separação XII

Recorto os horários e colo-os nos azulejos da cozinha. Não podiam ser mais díspares! 

Olho para os (muitos) relógios que tenho espalhados pela casa, cada um diz uma hora diferente do outro, ou pelo menos uns minutos: "são dois p'ra lá, dois p'ra cá"(*1).

E com esses quatro, fui deitar-te e (tentar) organizar a manhã seguinte. E assim o fiz. Ou pensei que o fizera.

Sabes, meu querido, sinto-me baralhada. Com os horários. Com os tempos entre horários que passo no carro "esperando, esperando, esperando alguém. .."(*2)

Esta manhã instalou-se o caos,  porque apesar dos dois despertadores programados, ninguém acordou na hora certa para te levar a ti e a ti levar também .

E, com este sentimento de baralhação, te levantei, te chamei, me vesti e saímos, sem telemóveis, o que nos valeu mais uma subida é certo, mas saímos. Muitos minutos para além dos que devíamos ter saído, e que todos somados dariam exactamente a hora a que devíamos ter acordado.

Fomos fugindo ao trânsito e aos acidentes,  também muitos  (talvez de pessoas tão atrasadas como nós mas que chegarão muito mais tarde com certeza), andámos o melhor que pudemos, com a ajuda Maria Papoila sempre tão expedita com as alternativas e as fugas à confusão. Mas o resultado, apesar do tanto esforço, não foi diferente do esperado. 

A verdade, meu querido, é que de cada vez que olho para os horários, para os mapas de testes, para a agenda com tanto por fazer... para as actividades... para as explicações... para os gatos por cuidar... para a catequese, para a roupa por comprar... e para os horários e para a agenda com tanto por fazer... sinto-me, baralhada...

Com muito amor, 
Mãe 



(*1)João Bosco e Aldir Blanc
(*2)Chico Buarque de Hollanda

sexta-feira, outubro 25, 2019

Crónicas duma separação consumada XI

Vamos! Empurra-me do sofá, que eles já não demoram a chegar.
Tentemos descomplicar a minha complicada cabeça e encaremos o Sol, de frente.
Deixa que o mar nos diga para onde ir. Está tão calma a maré, como calma devo aprender a estar, mais vezes.
Há um ultra-leve que rompe o silêncio das ondas. Acho que conhecemos o piloto, mas não me lembro do nome dele. Nunca me lembro dos nomes.

Vamos! Empurra-me deste banco e leva-me à areia molhar os pés.
Tentemos salgar os dias que, às vezes deixo passar ensonsos. 
Deixa que o Sol, de Outono, me aqueça o corpo e abra as mãos para os abraços que aí vêm. 
Há um bando de gaivotas que saltitam em torno dos barcos. Procuram restos da pesca e lutam por eles. Não gosto de pássaros. Afasto-me e saio pelo lado contrário da praia.

Vamos! Empurra-me desse nevoeiro por mim criado e por mim sentido, e leva-me neste primaveril dia de Outono fora.
Tentemos desenhar caminhos amarelos e espreitar os dois lados dos espelhos com que nos cruzarmos.
Há um mundo inteiro por descobrir na ponta de um lápis e eu tenho tempo.  Os rapazes chegam amanhã! 

Venham com calma que eu cá vos espero! 

Com muito amor, 
Mãe