segunda-feira, setembro 30, 2019

Crónicas duma separação consumada V

Conheces aquele aperto no estômago e a vontade de fugir e a sensação de que tudo está muito mais lento do que o teu tempo interno, que antecede uma discussão anunciada?

Respiras fundo e, durante aquele breve instante, fazes conjecturas, ensaias respostas e imaginas acusações.

No momento seguinte apercebes-te que já comprometeste a promessa de não os envolver. Porque o mal-estar te levou a querer atalhar e perceber em primeira mão a onda prestes a cair sobre ti. Ou simplesmente porque, na verdade, é mesmo mais fácil perguntar.

Depois tentas compor a situação com pensos-rápidos e os "não te preocupes" vêm acompanhados dos "está tudo bem", mesmo quando não está.

E o aperto que não desaperta até saberes exactamente o que se está/vai passar que te continua a atordoar. 

Feitas as contas, o importante é mesmo o como não te deixares imergir neste estado que leva ao incumprimento dum acordo feito de ti para ti. Ou assim o devia ser. E para isso, o que se passará, ou não passará a seguir, não deve ser o epicentro da atenção interna.

Conheces aquele aperto no estômago que antecede uma discussão anunciada e, sem quereres (ou querendo, apenas para o aliviar) acabas por fazer, mais uma vez, aquela pergunta que devia estar bloqueada?

Um dia...

Um dia algures na tua, ou na tua, ou na tua vida, vão sentir, pressentir, ou em última (e pior) análise fazer sentir, esse aperto.

Nessa altura concentrem-se nos pensos-rápidos (tentando que sejam cada vez mais lentos) e desviem o futuro da vossa atenção. 

Peçam desculpa (é verdade, as desculpas podem evitar-se mas, mais cedo ou mais tarde, devem ser pedidas sem vergonhas) e concentrem todas as forças para o aqui e o agora. Mais tarde terão tempo, por muito que tenham vontade de fugir, de lidar com a crónica que se segue.

Por agora, desculpa. Tentarei mudar o penso não muito rapidamente.


Com muito amor,
Mãe


  
  



sábado, setembro 28, 2019

Crónicas duma separação consumada IV

As semanas em que não estão, são feitas de dias normais. Dias que nascem e põem-se ligeiramente mais para a esquerda, que vão ficando mais húmidos e frios e, de acordo com a dança do Sol em volta da Terra, são cada vez mais pequenos. Mas essas diferenças só se notam depois de passadas algumas semanas.

Na verdade, nas semanas em que não estão, alguns dias são programados com afazeres que conjugam melhor com a vossa ausência, trabalhos, deslocações, almoços ou jantares a que torceriam o nariz e a que não quereriam ir. Depois há os outros, em que "o rio corre, bem ou mal, sem edição original"(*).

Na verdade, nas semanas em que não estão, em cada dia há uma ausência que me acompanha, desde que o Sol nasce até que se põe. Que viaja comigo, que escreve comigo, que come comigo, que respira comigo, que sorri, conversa e abraça comigo. Dias há, em que só eu própria vejo esse silêncio de luz. Noutros, mostra-se sem timidez a quem está ao meu lado.

Na verdade, acho que posso dizer que essa ausência nasce dentro de mim, e que de dentro mim parece sair, como alguém que "tem tempo, não tem pressa"(*) e vai pintando as minhas horas cada vez mais claras até todo o relógio estar cinzento.

Na verdade, há dias, nas semanas em que não estão, que correm ao sabor da "brisa ... tão naturalmente matinal"(*) que os deixa alegres, tranquilos e felizes. Como é de esperar. Como é natural. 

Na verdade, há dias, nas semanas em que estão, que nascem no caos dos minutos que seguem mais rápidos que os segundos, nas manhãs que se tornam madrugadas e nas almofadas que, comigo, vêm e vão ora ocupadas convosco ora à espera de vós.

Na verdade, nas semanas em que estão, há lanche ao sair da escola, pizza como jantar obrigatório de pelo menos um dia, filme que se divide por vários serões para ninguém se deitar tarde e beijinhos de boas noites.
  
As semanas em que não estão, são feitas de dias bons e dias menos bons, como as outras. A meteorologia depende de forças que nos são completamente alheias. Os acasos atropelam-se sem qualquer intervenção da nossa parte. E as obrigações são tão obrigatórias como em qualquer outra altura.

Mesmo assim. As semanas em que não estão (ainda) custam um bocadinho mais a passar do que as outras.

Com muito amor,
Mãe


(*)in Liberdade
de Fernando Pessoa
Poesias, Ática 1996


sexta-feira, setembro 27, 2019

Crónicas duma separação consumada III

E quando acordamos para o facto de estarmos a ser/fazer grande parte das coisas que tão convicta e repetidamente dissemos, noutras ocasiões e representando outras personagens, para os nossos amigos não fazerem... 

Comunicar com o que, de um dia para o outro, parece ter-se transformado no "outro lado da barricada", não é fácil. E pouco se pode fazer para mudar. Resta-nos a esperança que o tempo, a seu tempo, lime as arestas e deixe correr o ar. 

Do alto da minha alta janela, a vontade que sinto crescer dentro de mim, é de escrever pequenos papéis coloridos, enrolar cada frase e lançá-las ao vento. E não ter, tão cedo, que confrontar esse conflito latente que (ainda) não se pode amainar. 

E o mais engraçado é que acredito mesmo que, pelo menos algumas das frases, chegariam, ao destino. Amachucadas claro, mas menos confusas e quem sabe menos sujas das interpretações e subjectividades de cada um, tanto emissor como receptor. 

Sei também que te tiraria a responsabilidade de acartar com o peso que cada recado acarreta. E te tiraria do meio deste diálogo mudo, onde o teu e os vossos personagens devem ser o mais omissos possível. 

Não te aceno com uma perfeição que sei não conseguir encontrar dentro de mim. Mas prometo que tentarei arranjar a forma certa, ou pelo menos a mais eficaz, de comunicar com "esse lado" que durante tantos anos foi também o "meu" lado. E que, por acaso do destino, hoje é onde tu estás. 

Se acaso algum dia me esquecer e tentar, fugindo ao confronto, entregar-te correspondência alheia, devolve sem medos ou hesitações, ao remetente. E lembra-me o que te contei: "as palavras estão gastas"(*). 

Com muito amor, 
Mãe 



(*) "Adeus" 
de Eugénio de Andrade
In Poesia e Prosa

quarta-feira, setembro 25, 2019

Crónicas duma separação consumada II

Não sei se tenho de vos pedir desculpa por não ser "só" vossa, por completamente impossível que seja deixar de ser.
Não pedirei, com certeza, por decidir seguir o caminho que me leva de volta a mim (e por consequência a vocês).

Talvez devesse, a seu tempo, ter pedido desculpa, a cada um. Por não seres único. Por não seres o mais novo. Por não seres para sempre bebé. 
Não pedirei, com certeza, por vos saber meus desde que vos soube parte de mim, por dentro mesmo, a crescer.

Não sei se vos devia pedir perdão pelos meus dias de lua nova que, por muito que não queira, acabam por encobrir os vossos céus. 
Não pedirei, com certeza, pela natureza que se me entranha, ora Primavera com os sonhos brotando em flor, ora Inverno com cheias e tremores de terra.

Não sei se preciso pedir desculpa pelo espaço, mais escasso, menos largo, que tenho comigo para partilhar. 
Não pedirei, com certeza, pelas tentativas e erros da vontade de o tornar mais nosso. 

Ainda assim, continuo sem saber se devo esperar algum tipo de resposta, mesmo que embrulhada num qualquer "maqueique" depois dos meus 'bons dias' a piscar nos visores dos telemóveis.
Não espero, com certeza, grandes conversas sobre lágrimas que nem deixo que vos humedeçam os dedos. 

Sei, por pouco que seja, que tudo farei para não vos cobrar nem culpabilizar das curvas apertadas do caminho. E que não posso, tão pouco, deixar martirizar-me pelas geadas das manhãs.

Mas... Será que posso pedir que não fechem o mundo em dois universos infinitamente paralelos, onde vivo de acordo com as semanas, alternando entre o estar e o vazio?
Fica a ideia no ar...

Com muito amor, 
Mãe 



terça-feira, setembro 24, 2019

Crónicas duma separação consumada I

Sei-vos meus, sabendo-vos de tantos outros. De muitas maneiras e de inúmeras intensidades. 
Mas como meus que são, foram e serão, tenho a certeza que o são no singular.

Sei que o amor não se mede em dias, e que o tempo tudo esclarece (a não ser quando piora e teima em transformar aguaceiros em tempestades). 
Mas há dias em que o tempo parece rarear e o amor decide chegar atrasado.

Sei dos manuais, dos conselhos e do senso-comum que tem sempre mais de comum do que de senso. E prefiro os académicos aos que nunca se escusam de dar, conselhos. 
Mas aqui, no dia-a-dia, na realidade nua e crua, e bruta (como o é igualmente a verdade), a vontade nem sempre parece querer seguir as técnicas comprovadas há anos de terapias e análises. 

Sei da mágoa, da raiva escondida por baixo da roupa suja, que salta mesmo antes de abrirmos o cesto, pese embora o número incontável de vezes que a tapámos e escondemos debaixo das meias e dos calções de ginástica. E sei o quanto nos arrependemos por não poder arrepiar caminho depois de lançadas as palavras ao vento. 
Mas, dizem, quem não sente não é filho de boa gente e nem sempre conseguimos calar o que cá dentro tanto grita. 

Sei do caminho e dos anos e das histórias, que nos fazem ser quem, e como, somos. E sei que não sou só eu a sabê-lo. 
Mas "por vezes num segundo se evolam tantos anos"(*)...


Com muito amor, 
Mãe 



(*) David Mourão Ferreira 
in "E por vezes" 

segunda-feira, setembro 02, 2019

iLHa

O Sol entra,
Deita-se
Na cama
E conta-me
Do mar e das ondas
Que oiço
Desaguar na areia.
Tu cantas
Com o vento
Que faz abanar as canas.
Procuro
As palavras
Certas
Para espelhar
O tanto que quero contar.
Tu cantas,
Com a gaivota
Que rasga o céu,
Uma canção
De embalar.
E eu deito-me
Com o Sol
Que vejo entrar, invadindo
A cama,
Onde te vou encontrar
Também.
E, nesta tarde calma,
Deixo-nos
Ficar.

Liliana Lima


sábado, agosto 17, 2019

COMigo

Vem comigo procurar os pássaros que habitam a noite. Deixa-me aproximar devagar e ensina-me como dizer o seu nome.

Vem comigo por este oceano dentro, saibamos esperar no vai e vem das ondas por aqueles que se deixarem mostrar, barbatana de fora, dançando a valsa dos peixes.

Vem comigo descobrir as entranhas desta terra cuidadosamente plantada no meio do mar. Mostra-me a respiração de Deus, que levanta um véu sobre estas flores de mil cores.

Vem comigo até ao alto das nuvens e lá de cima, como que planando sobre os campos, mostra-me a vista a perder de vista desta manta pelos anjos bordada.

Vem comigo mergulhar nas rochas e nadar com os peixes, sem acordar os caranguejos que descansam ao sol.

Vem comigo ao lado de lá, onde as rochas provocam o mar e o sol diariamente se deixa morrer de amor pelo horizonte azul. 

Deixemos as horas desacelerar que aqui o tempo anda mais devagar.

Em breve o dia adormecerá.
E as cagarras cantarão mais forte.
E as baleias mostrar-se-ão sem timidez.
E as grutas vestir-se-ão de negro.
E as fumarolas continuarão a respirar.
E os campos preparar-se-ão para o anoitecer.
E as piscinas deixar-se-ão cobrir pelas ondas.
E as praias desertas serão habitadas pelos sonhos de quem as avistou.
E tu virás comigo ver o luar que reflectirá nas águas desta praia à nossa janela plantada.

Vens?!...


Liliana Lima



terça-feira, agosto 13, 2019

MEnsagEM

Que sabes das mensagens vazias que chegam à praia em bonitas garrafas vestidas de festa?
Conheces-lhes o cheiro demasiadamente forte e as cores para lá do berrante?
Já ouviste o enorme silêncio que lhes habita as palavras, tão gastas de nada dizer?

Que sabes do lamento que vive nos búzios escondidos no meio das pedras do molhe que protege a praia?
Já o viste dançar sozinho nos reflexos com que a lua pinta o mar depois do pôr-do-sol?
Conheces-lhe as palavras tão gastas de tanto ecoar as suas mágoas ao luar?

Que sabes das mensagens que, em silêncio, são lançados ao mar e dentro de um simples olhar percorrem mares e marés até darem à costa no outro lado do horizonte?
Já lhes sentiste o rasto, perceptível apenas aos que um dia já lançaram, eles próprios, as suas mensagens ao mar?
Algum dia te cruzaste com as complexas palavras que as compõem, que rimam sempre com amor e que, dizem, são cantadas em noites de lua nova, em uníssono, por sereias encantadas e trovadores enamorados?

Que sabes do tanto que traz este mar?...


Liliana Lima


Foto: Carlos Alberto Moniz

quarta-feira, julho 31, 2019

hoRas

Sei que me espreitas a cada movimento de rotação em que, sobre os pés descalços, equilibro a paz com o caos.

Sei que me amparas, num abraço elíptico, suavizando cada cambalhota (que nunca soube dar).

Tenho certeza que me falas, em muitas línguas. Que me acolhes, em "muitas casas". 

Percebo o Teu sorriso no arrepio repentino e sinto-Te na lágrima teimosa, quando Te encontro no canto dos anjos. 

Sei que hoje me chegas nestas vozes que me trespassam, nesta sala escura onde a luz brinca com a cor e escreve o Teu nome dentro (e fora) do meu coração. 

E, por isso, sei-Te em mim em todas as horas de todos os relógios em todos os cantos do mundo. 


Liliana Lima 


quinta-feira, junho 27, 2019

vENTRE

É tão grande e profundo Este Mar
É tão azul e ao mesmo tempo transparente, ondulando aqui à minha beira 
Brilha com tanta força que multiplica o Sol por mil luzes que se estendem sobre ele
É tão largo o abraço com que me aconchega 
Este Mar
É tão diferente do rio que corre na minha aldeia

Esta Ilha cabe na palma da minha mão 
Esta Ilha 
Este bocado de Terra escondido no oceano
Perdida e fechada dentro de água 
Esta Ilha onde me aprendo e prendo numa liberdade feita azul que me leva daqui até ao fim do Mundo 
O Mundo inteiro que cabe na palma da minha mão e que vai tão para lá do rio que corre na minha aldeia
O Mundo todo nesta Ilha 

E um azul profundo que se espalha pelo Espaço
Este Espaço 
Que nos distancia do imenso desconhecido
Que está fora do alcance de todos os barcos que já voam no Espaço 
Este Espaço que une Ilhas 

Esta e todas as Ilhas que somos, unidos por tanto Mar tão azul e transparente, ondulando aqui, mesmo à minha beira 

este Mar
esta Ilha 
este Mundo 
este Espaço 
esta Arca
este Ventre
esta Mão 


Liliana Lima 
Praia da Vitória







sexta-feira, junho 21, 2019

hiATO A.zul

Onde está o chão quando o azul escorre e cobre o horizonte? 
De que lado ponho o pé se tudo o que vejo são ilhas de nuvens semi-transparentes?

Onde está o norte se perdi o céu? 

Enrosco-me numa almofada branca e tento, sem sucesso, encontrar Terra.

Como andar se não tenho o que pisar? 

Quando o azul do céu escorre e apaga o horizonte, o tempo desaparece com o chão.
Há um hiato feito nuvens que nos permite sentir sem tocar, amar sem desgastar, ser sem falhar.

O azul que me envolve não é todo igual. As tonalidades distinguem os sonhos perfeitos, impossíveis, das incertezas com que sonhamos acordados.

Estou direita ou do avesso? 

O Sol, que reflecte no tapete branco que compõe o céu, cega-me e deixo de ter qualquer ponto de referência.

Estarei lá em baixo, onde nunca sei bem onde assentar as ideias? Ou estou por cima das nuvens, onde tudo é filtrado pela condensação da água pura, branca?

Trago na mochila o peso das mil culpas que destilo ao fim de cada dia. Os receios, as mágoas. 
Aqui, neste hiato de nuvens feito, posso largar a mochila. Aqui não há peso, nem gravidade a classificar os pecados, as falhas, as dores.

São horas de descer, dizem. 

Eu continuo num contínuo azul. Neste ar frio, rarefeito. 

Gosto do branco que nasce dos azuis vários e da luz intensa do Sol, que me permitem ver mais além deste céu sem hora nem beira.

Vamos descer, pousar na Terra, ficar com os pés bem assentes no chão.

Talvez me enrosque numa nuvem branca e nem procure Terra à vista.
Talvez me deixe cegar pelo Sol e não mais veja os sonhos impossíveis ou inatingiveis.
Talvez deixe que me descaia "o meu pé de catraia" e me encontre no mar azul que escorre do céu em diferentes tonalidades que apagam o tempo. 
Talvez. 

Podemos viver sem horizonte? 


Liliana Lima 


terça-feira, junho 18, 2019

esta OUTRA margem

Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar. 
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM. 
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.

Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão. 
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.

Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM. 
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.

Liliana Lima 



sábado, junho 15, 2019

SAPI(paci)ÊNCIA

Só sei explicar o que sinto através do ritmo com que, nas entrelinhas, escrevo. 
Sou sempre inteira, mas nem sempre me traduzo completamente para a linguagem corrente.
Não que não queira ser lida. 
Não que me importe aparecer transparente. 
Não que queira ser altiva ou, propositadamente, diferente. 
Pelo contrário. 
A batalha comigo trava-se dentro mim própria e o leito onde jazem os argumentos derrotados é um ringue de difícil saída. 
É que é nas gavetas, que se escondem por dentro daquelas portas de vidro que guardam o comum e vulgar dos dias, que se sentam os meus fantasmas, tão educados e persistentemente presentes. 
E é precisamente nos dias banais que, como um carro mal arrumado ou uma nota fora do tom, saem dos seus aposentos e se apresentam, em formação, marchando sobre o meu corpo. 
É então que procuro guarida na escrita e passo outro dia completo a estudar táticas e movimentos, na esperança de ganhar a guerra que, resguardadamente, se debate em e sobre mim. 
Um dia, ou dois, ou três, conforme a sapi(paci)ência dos outros de ler o tanto que, nas entrelinhas, escrevo. 
É que, só mesmo assim me sei explicar. 

Lili








terça-feira, junho 04, 2019

Métropolitain

Um túnel, tipo Metro
Cadeiras alternadas
Vermelha, beje
Beje, vermelha
Luzes ao fundo
Um palco de palmo e meio
E no bar, ouve-se o gelo
As luzes à meia luz
E o espaço pintalgado
De mesas redondas
Uma bateria esconder-se sozinha
Por entre os vários micros
Pessoas entram e espalham-se
Pelas cadeiras
Sentam-se, levantam-se
E vão ao bar
E voltam de copo na mão
Mudam de lugar
Ainda falta tempo
E o gelo canta, no bar

Um túnel, tipo Metro
Uma rua de Paris, talvez
Onde o Sol ainda brilha
E cá em baixo o espaço
Vai ficando cheio
Longe do fumo cinéfilo
A música de fundo sobe
E as vozes aumentam o volume
Para se ouvirem
Os músicos entram, indecisos
Sobem, descem e sentam-se
A sessão vai começar
Há casais e grupos à conversa
E ela sozinha, à minha direita
De frente para o palco
As luzes escurecem
E ganham cores
Enquanto as vozes procuram
Lugar para sentar
No bar o gelo cala-se
Vai-se tocar Jazz

Liliana Lima


sábado, maio 25, 2019

Vamos até ao rio, Alberto?

Nunca mais fui ver o Tejo.
Costumava ir contigo para lhe falar de mim. 

Sabemos que a Terra gira e com ela as vontades e intenções e necessidades. 
O Tejo perdido nos afazeres, que deixou de ser meu para passar a ser teu, nunca mais fui ver.

E faz-me falta, disso sabes tu que me levavas até à margem de cá e me deixavas reter as diferentes cores e disposições que nele ondulam.

Sabemos que quando te dei AO rio numa manhã fria de Sol, te dei O Tejo. Ficando, por isso, mais longe do "mais belo rio que corre na minha aldeia".

Nunca mais fui ver o Tejo. 
Vamos ver o rio num destes dias? Podemos não pensar em nada e ficar assim, "só ao pé dele" (só ao pé de ti).

Liliana Lima 

* Alberto Caeiro
in Guardador de Rebanhos 
Átila, 1993



quinta-feira, maio 16, 2019

MEMÓRIAS... do futuro

Lembras-te que os caminhos 
que hoje escolhemos 
amarelos e seguros amanhã se continuam a desenhar?

Lembras-te de cada beijo 
que as nossas bocas já têm 
para dar?

Lembras-te das mãos 
que ontem aprendiam a silhueta um do outro 
e já nos afagam nas noites que vão chegar?

Lembras-te das manhãs
que vamos acordar?

Lembras-te como o teu corpo
húmido e cansado de trocar de corpo um com o meu 
se enrosca em mim nos lençóis que vamos comprar?

Lembras-te das palavras 
que em todas as conversas que partilhamos
já repetes de hoje em diante?

Lembras-te de cada zanga 
que trocamos amiúde
por carícias futuras?

Lembras-te das velas
que vamos acender?

Lembras-te dos brincos
a condizer com o anel
que me vais oferecer?

Lembras-te das canções
que vais compor com os poemas 
que vou escrever?

Lembras-te das lágrimas 
que no teu ombro
novamente vou secar?

Lembras-te das noites
que vamos embalar?

Lembras-te dos sorrisos
que um com o outro
vamos trocar?

Lembras-te dos tantos concertos, filmes, peças
que de mãos dadas
vamos partilhar?

Lembras-te dos caminhos
sempre amarelos e seguros
que vamos calcorrear?

Lembras-te dos dias e das noites
que vamos viver?

Lembras-te de te lembrares
das memórias conjuntas
que vamos construir?

Liliana Lima





sexta-feira, maio 10, 2019

A(qu)Í

Estou aqui
À tua espera
Se calhar à minha 

Como se espera alguém
Sem se saber de onde vem?

Podes chegar à hora marcada
(Aqui estou eu) 
Mas marcada por quem? 
Se todas as horas são uma hora 
Mais tarde?
(E eu aqui sentada)

Seria de perguntar
De onde vens? 
Para perceber 
Onde irias chegar
(Podia jurar que perguntei) 

Como se chega assim
Sem saber se alguém nos espera? 

Não sei de onde vens
Nem quando chegas 
Mas sei que estás aí 
(E eu continuo aqui)

Lili







sábado, abril 13, 2019

MARgens

É cá dentro que continuas a dizer-me bom dia
É cá dentro que me acompanhas na eterna correria
É cá dentro que me visto de ti para me construir a mim

Querias ficar no Tejo, disseste-me um dia
Querias ficar nas águas que tantos anos te banharam
Querias ficar ali

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?

Queria deixar-te no Tejo, como pediste um dia
Deixar-te em paz nas águas que tão bem conhecias
Queria deixar-te ali

Se é cá dentro que continuas a florir
Nas receitas
Nas feições
Nos dizeres
Nas graças
Nas roupas
Nos gostos
Nas escolhas
Nas canções
Nos caminhos
Porque pesavas tanto, quando te deixei cair?

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?


Liliana Lima




quarta-feira, abril 03, 2019

AMAnhã

Há sempre o dia depois
Há sempre a manhã seguinte
que tráz na aurora
os cheiros
os sons
os movimentos
que nos levaram até...
ao dia depois

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Há sempre a palavra que vem
Há sempre a escolha
de dizermos ou não
como chegámos
o que demos
quanto recebemos
para tentarmos chegar até...
à palavra que vem

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Há sempre a espera
Há sempre o silêncio
que nos pára em frente 
do espelho
do ontem
da dúvida
de como agir até...
superar a espera

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Liliana Lima


quarta-feira, março 27, 2019

mAR

É no fundo do mar 
que me escondo de mim
e nas conchas procuro a paz
para me encontrar por ti 

Sei do canto estridente das gaivotas
e do embalo sedutor das sereias
Sei do areal desnudado pela maré baixa
porque nele me enrosco em mim mesma

Conheço todas as conchas coloridas 
que colecciono para te oferecer 
É a elas que pergunto por mim
enquanto, escondida, falo de ti 

Nado em círculos para te chamar 
Mas carregando todo o oceano, receio 
que em maré alta transborde
e o teu pé tão catraio, à beira-mar, se suje

Queria conhecer todos os barcos 
e inventar uma vela que enfunasse
à força do meu suspiro 
e, seca, ao teu lado me deixasse 

Mas sempre que, em tornado te tornas
e a mesa reviras e as ideias me baralhas
É no fundo do mar que me escondo 
para não desaguar em ti

E sem poderes saber
provocas a maré, que se agita dentro de mim 
E sem conseguires entender 
chamas a noite que se debate sobre mim

É no fundo do mar 
que me escondo de mim 
e me embalo na maré 
que, espero, me leve a ti

Lili