quinta-feira, junho 27, 2019

vENTRE

É tão grande e profundo Este Mar
É tão azul e ao mesmo tempo transparente, ondulando aqui à minha beira 
Brilha com tanta força que multiplica o Sol por mil luzes que se estendem sobre ele
É tão largo o abraço com que me aconchega 
Este Mar
É tão diferente do rio que corre na minha aldeia

Esta Ilha cabe na palma da minha mão 
Esta Ilha 
Este bocado de Terra escondido no oceano
Perdida e fechada dentro de água 
Esta Ilha onde me aprendo e prendo numa liberdade feita azul que me leva daqui até ao fim do Mundo 
O Mundo inteiro que cabe na palma da minha mão e que vai tão para lá do rio que corre na minha aldeia
O Mundo todo nesta Ilha 

E um azul profundo que se espalha pelo Espaço
Este Espaço 
Que nos distancia do imenso desconhecido
Que está fora do alcance de todos os barcos que já voam no Espaço 
Este Espaço que une Ilhas 

Esta e todas as Ilhas que somos, unidos por tanto Mar tão azul e transparente, ondulando aqui, mesmo à minha beira 

este Mar
esta Ilha 
este Mundo 
este Espaço 
esta Arca
este Ventre
esta Mão 


Liliana Lima 
Praia da Vitória







sexta-feira, junho 21, 2019

hiATO A.zul

Onde está o chão quando o azul escorre e cobre o horizonte? 
De que lado ponho o pé se tudo o que vejo são ilhas de nuvens semi-transparentes?

Onde está o norte se perdi o céu? 

Enrosco-me numa almofada branca e tento, sem sucesso, encontrar Terra.

Como andar se não tenho o que pisar? 

Quando o azul do céu escorre e apaga o horizonte, o tempo desaparece com o chão.
Há um hiato feito nuvens que nos permite sentir sem tocar, amar sem desgastar, ser sem falhar.

O azul que me envolve não é todo igual. As tonalidades distinguem os sonhos perfeitos, impossíveis, das incertezas com que sonhamos acordados.

Estou direita ou do avesso? 

O Sol, que reflecte no tapete branco que compõe o céu, cega-me e deixo de ter qualquer ponto de referência.

Estarei lá em baixo, onde nunca sei bem onde assentar as ideias? Ou estou por cima das nuvens, onde tudo é filtrado pela condensação da água pura, branca?

Trago na mochila o peso das mil culpas que destilo ao fim de cada dia. Os receios, as mágoas. 
Aqui, neste hiato de nuvens feito, posso largar a mochila. Aqui não há peso, nem gravidade a classificar os pecados, as falhas, as dores.

São horas de descer, dizem. 

Eu continuo num contínuo azul. Neste ar frio, rarefeito. 

Gosto do branco que nasce dos azuis vários e da luz intensa do Sol, que me permitem ver mais além deste céu sem hora nem beira.

Vamos descer, pousar na Terra, ficar com os pés bem assentes no chão.

Talvez me enrosque numa nuvem branca e nem procure Terra à vista.
Talvez me deixe cegar pelo Sol e não mais veja os sonhos impossíveis ou inatingiveis.
Talvez deixe que me descaia "o meu pé de catraia" e me encontre no mar azul que escorre do céu em diferentes tonalidades que apagam o tempo. 
Talvez. 

Podemos viver sem horizonte? 


Liliana Lima 


terça-feira, junho 18, 2019

esta OUTRA margem

Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar. 
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM. 
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.

Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão. 
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.

Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM. 
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.

Liliana Lima