O que escrevo é triste?
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é
Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou
Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras
Sei escrever
A L E G R I A
ou
F E L I C I D A D E
Porque também as sei sentir
Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre
Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu
Liliana Lima
Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca
Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir
Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu
José Mário Branco
in Ser Solidário 1982
"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar te ouvi sussurrar, quando saíste
Foram os dias da tua vida todos juntos num quase mês
que se fizeram tardes e manhãs e noites, algumas
Foram duas mais duas que se fizeram quatro
na cumplicidade de quem se sente
igualmente despida, igualmente forte
igualmente fraca sem o mostrar, mostrando
Foram as chuvas que se seguiram ao Sol
que em Lua se fez e a céu cinzento voltou
numa sequência no centro do palco principal
sem intervalos nem cenas fora de cena
Foram as lágrimas, as que ali se choveram
e as que precisaram da nuvem certa para cair
Os sorrisos e os disparates que dissemos e pensámos
partilhados a oito mãos no piano do teu corpo
Foram as dores e a dormência do nada sentir
enquanto lutavas, uma guerra perdida, até ao último suspiro
Foram as horas que demoraram muitos dias a passar
e o repetir do apitar da morfina a acabar
Foram duas filhas e duas netas
que em quatro mães se tornaram
à força dum adeus que as fez nascer
e nem a vida jamais irá desfazer
"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar ouvir-te sussurrar, quando saíste
É verdade, vó...
"Este foi o primeiro dia do resto das nossas vidas"
Vês como correu tudo bem?!
Descansa em paz, sem medo
Até logo!
Beijo com saudade,
Sempre tua,
Liliana
A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vem cansaços e o corpo frequeja
molha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Sérgio Godinho
in Pano Cru (1978)
Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?
Não queres ir?
Ou não sabes como sair?
Seja como for já não te posso ajudar...
Seja como for já não há ajuda que te pudesse dar...
Sento-me aqui, ao fundo da cama, todos os dias
ao entrar arranjo-te o (pouco) cabelo
E lembro-te que não precisas acreditar
eu acredito por nós duas
e,sei, podes seguir em paz
Ficas imóvel
olhando o tecto
ou de olhos cemi-cerrados
Inspiras
Expiras
E continuas imóvel
sem me ver
Falo contigo, digo disparates...
Entramos e saímos
e todas fazemos o mesmo..
Nada
Velamos a tua luta, estóica,
com um final à vista
e um porto pronto a aportar
Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?
Liliana Lima