segunda-feira, maio 09, 2011

Paroles...

Palavras, que voam e chocam umas nas outras como trovões
Palavras que se vestem e nos acompanham por toda uma vida
Palavras que se sussurram no silêncio da noite
Palavras que nos elevam, sublimam e fazem acreditar
Palavras mortas, ecos de antigos significados que já não fazem sentido
Palavras que se sentem, mas sem serem ditas
Palavras que dão vida aos sonhos e fazem brilhar os olhos
Palavras de mar, salgadas e vivas
Palavras da Lua, com fases distintas
Palavras que deixam rasto, um fio de pó que estende no ar durante dias e dias sem nos deixar respirar
Palavras que se cantam e rodopiam ao sabor da música
Palavras que enrolam umas nas outras como num abraço e, todas juntas compoem, por fim, uma história



...



Liliana





quinta-feira, maio 05, 2011

A guardiã das portas dos sonhos

- Sabes? Perguntou ela com o olhar tão longínquo quanto o infinito. Hoje, por mais que me esforce estou cinzenta, e não consigo mudar de cor.

- Mas isso é péssimo! Interrompeu ele largando o azul matinal, tão rapidamente que o pincel caiu criando um minúsculo buraco de céu no chão. Como vais fazer agora? Tens a certeza? Tentaste tudo? Acho precisas é dum banho de mar e isso volta tudo ao lugar! Tomaste o pequeno-almoço? Já olhaste para o Sol que está radioso? Então e se te concentrares e pensares nas coisas que mais gostas...

Visivelmente em pânico ele não parava de a bombardear com perguntas e sugestões e remédios para o mal dela. Ela, cada vez mais triste e sem ânimo sentara-se no chão de ombros caídos e suspirava a cada pausa dele.

- Não te sentes! Levanta-te que isto é grave! O que vais fazer agora? Não podes pintar o Arco-Íris de cinzento! Já pensaste nas consequências? Imagina, não, nem quero imaginar, é mau demais sequer para pensar! Ele perdera a paciência e aumentara o tom de voz com ar reprovador que ela, simplesmente, ignorava. És a Guardiã das portas dos sonhos! Como é que alguém vai conseguir sonhar com o Arco-Íris cinzento?!?!

- Não sei... não consigo... tentei tudo...

- Bem, não podes continuar assim, isso é certo! Não desta cor, não nessa tristeza... Ela olhou para ele como quem entende a gravidade da situação, mas está tão fraco que não consegue reagir e, novamente, suspirava. Olha para mim, vamos sair daqui, vamos ver o mar, sentir a brisa levemente salgada na cara, correr na areia, brincar com as ondas!

Decidido, agarrou-a pelo braço e praticamente arrastou-a atrás de si. Sabia que ela estava frágil mas a situação não permitia perdas de tempo. De alguma forma, tinha de a ajudar a resolver o problema, o mundo não podia ficar sem portas para os sonhos.

Pegou no pincel azul matinal que deixara cair e trocou-o por um castanho claro-areia, rapidamente desenhou uma duna na parede e os dois entraram na praia.

- Olha como mar está lindo! Tal e qual como tu gostas com ondas nem muito grandes, nem muito pequenas, que dão para saltar mas também para nadar sem sobressaltos! Vamos tomar um banho?

Ela já se sentara novamente, agora na areia molhada, o seu cinzento era cada vez mais claro, como se uma enorme maré de tristeza a invadisse e ela, impotente, ficava cada vez mais fraca e menos capaz de sonhar com ele o mar, as ondas, a praia...

Desanimado e sem saber já o que fazer, andava em voltas repetindo para si mesmo - Não pintes o Arco-Íris de cinzento... Não pintes o Arco-Íris de cinzento...

Lembrou-se então de procurar conchas, búzios, pedras coloridas que lhe oferecia com todo o carinho, desenhou gaivotas no ar e até um barco de velas brancas ao fundo do horizonte. Mas nada a animava ou lhe devolvia a cor e a força de que precisava, como Guardiã das portas dos sonhos, para pintar o Arco-Íris pelo mundo.

O sol, cansado também, encostou-se ao mar para descansar. A tarde estava a acabar e não tardaria a lua, curiosa, apareceria no céu dum azul cada vez mais escuro.

- Tentei tudo! Já não sei que fazer fazer para te ajudar...

- Eu sei. Disse ela olhando para ele com o mar nos olhos. Fizeste o que podias, não te culpes.

- Tens frio? Perguntou ele. Estás a tremer!

- Não, acho que estou só nervosa, não sei como vai ser uma noite inteira sem sonhos, nem sei ainda quais foram as consequências deste dia cinzento...

Sem a deixar acabar o que dizia, num impulso sincero, chegou-se a ela e, em silêncio, abraçou-a carinhosamente.

Ficaram assim muito tempo. Sem dizer palavra, apenas a sentir o calor um do outro naquela que já era uma noite escura de lua nova.

Não se deram conta de adormecer, a última coisa que ambos recordavam era do abraço quente e do bater dos corações em sintonia. Mas a verdade, é que quando abriram os olhos o sol já brilhava e o céu começava, aos poucos, a pintar-se de azul matinal.

Levantaram-se os dois desajeitadamente, sacudiram a areia das roupas e quando ele olhou para ela sorriu o maior sorriso que ela alguma vez tinha visto.

- Estás linda! Colorida, alegre, sorridente... E sem a deixar responder, agarrou-a pelo braço e praticamente arrastou-a atrás de si. Agora vamos que se faz tarde e mundo precisa de ti!


Liliana



(Dedicado a uma Princesa especial)

Como toca a orquestra do tempo, Franz?!

Abro porta da rua que dá para a grande entrada oval com varias portas para salas e quartos e um corredor. Um pouco por toda a parte bocados de vida espalhados pelo chão, atirados para cima dos baús, pendurados no bengaleiro ou encavalitados nas estantes.

Pedaços de dias, horas, meses inteiros, momentos alegres rasgados, lágrimas que escorrem das paredes forradas a papel fora de moda. Toda a assoalhada coberta dum passado que teima em levitar, em invadir, em fazer-se lembrar. Uma grande entrada oval com varias portas para o absurdo possível dos dias que se passam.

Um sofá virado ao contrário que conta a história de um assalto espreita pela porta da sala. Roupas que se espalham pelo corredor sem ordem nem lógica. Uma casa de bonecas com mobílias em miniatura que se perderam no tempo, balança no tecto. Uma cozinha desarrumada sem cozinhados nem vida. Uma menina sentada num canto que se embala, cantando. Muitas casas, muitos dias, muitas histórias recortadas.

Abro a porta da rua que dá para a grande entrada com portas para as salas e o corredor que vai dar à cozinha. Casacos atirados para cima dos baús, espalhados pelo chão um monte de legos e carrinhos e brinquedos por onde tropeço. Canetas e lápis e papeis com desenhos encavalitados nas prateleiras espreitam quem entra.

Todo um absurdo que se transforma à medida que o tempo recua e avança "como bola colorida por entre as mãos de uma criança".

Liliana



"As forças do homem não são concebidas como uma orquestra. No homem é necessário que todos os instrumentos toquem constantemente com toda a sua força. Não foram destinados a ouvidos humanos e não dispõem da duração de uma noite de concerto durante a qual cada instrumento pode esperar para se fazer valer."


Franz Kafka, in "Meditações"