quarta-feira, abril 06, 2011

Sentes?!

Sentes que o meu centro se desequilibra à menor aragem?

Sentes que o meu olhar se alaga à mais ténue aproximação de frieza?

Sentes que me desmonto ao primeiro encosto?

Sentes que, quando me assusto, sou como um porco-espinho que se enrola sobre si mesmo para não o magoarem?

Sentes que, às vezes, há uma linha de silêncio que me distancia do mundo e me deixa a flutuar num limbo assombrado?

Sentes que nem sempre entendo o teu sentir e isso me deixa com a sensação de não ter chão onde me apoiar?


E sentes que, quando nos sintonizamos, tudo se torna fácil?

E sentes que, quando nos tocamos, num segundo desaparece a inquietação?

E sentes que, quando nos olhamos, o silêncio deixa de ser uma barreira para ser um mundo inteiro onde conseguimos comunicar, sonhar e amar...




Liliana

domingo, abril 03, 2011

Espera tempo, não corras....

Espera... disse-lhe ele enquanto ela o deixava de ver. Sentada, com os pés entrerrados na areia, ela esperou.

Esperou como esperara tantas outras vezes por tantos outros "espera", uns diferentes, outros parecidos, mas no final quase todos iguais, apenas uma eterna espera...

Enfiando os pés com força na areia ela levantou-se e foi buscá-lo. E ele veio, com calma, andando pela areia molhada como quem sempre estivera ali, pronto para avançar. Ao fim do dia, com o Sol a mergulhar no horizonte, ele fez-lhe uma festa e disse novamente: Espera...

Decidida a confiar que o Sol sempre se levanta depois da Lua se deitar, ela enroscou-se na toalha e esperou.

Fez castelos de areia, desenhou letras à beira-mar, mergulhou, e quando o céu se corou dum laranja rosado, aguentou o mais que pôde até que começou a ficar inquieta. Viria? Saberia o caminho de volta? Quereria voltar?

Um enorme remoinho de perguntas misturado com as lembranças de outros finais-de-tarde fizeram-na partir num sobressalto.

Mais uma vez não conseguira desligar-se do seu tempo interno que corria tão mais depressa que o dos outros.

Ele voltara, sempre, com a mesma tranquilidade com a mesma calma. Mas o tempo dela que corria, voava, palpitava dentro dela com tanta urgência...

Aos poucos ela foi esperando mais um pouco, mais um pouco e ainda um pouco mais... Mas sempre que o Sol, beijando o mar, corava o céu, apertava-se-lhe um nó no peito enquanto que o tempo, o seu, o interno, corria, voava, palpitava e ela esperava que ele não perdesse o caminho de volta...

Liliana

sexta-feira, abril 01, 2011

Tens saudades do teu avô, Zeca?

Hoje fui ter contigo ao jardim. Procurei-te em todas as moradas, mas as ruas pareciam-me todas iguais, árvores altas, placas com nomes e datas que não me diziam nada e ao fundo uma parede grande de gavetas onde não te encontrei.

Sentei-me num banco cansada com as simetrias e pensei que te perdera. Agora não sabia onde estavas, agora que já te foste embora nem a tua gaveta consigo encontrar, no meio da desorganização da minha vida.

Sentei-me triste e com saudades dum tempo ido em que nos vejo a sorrir com o Tejo ao fundo. Levantei os olhos e lá estava ele, espelhando um sol quase de verão num dia de primavera.

Levantei-me e desci a calçada até ao rio que sorriu ao ver-me chegar. Sempre tive uma ligação pessoal com o Tejo, afinal conheço-o desde bebé e ele viu-me crescer à janela, cantando todas as canções desde a Gabriela ao Festival da Canção...

Cumprimentei-o e sentei-me nas escadas, perto da água. Aquela brisa fresca na cara e os pedacinhos de ouro a brilhar por entre a ondulação e num instante... tu, na cozinha ao lanche a contar-me as aventuras da juventude... no campismo a tocar cavaquinho e a cantar o fado de Coimbra... na Parede a jantar no topo duma mesa enorme... na cozinha ao lanche a fazermos torradas no aquecedor...

Estive ali um bocado, com o Tejo e contigo e comigo e com as saudades que têm o condão de emoldurar o passado num quadro pintado a cores amenas e alegres. Olhei para trás enquanto me levantava, o jardim com as árvores altas e as gavetas e as placas acenaram-me lá do alto e num instante... tu deixaste de ali estar.

Despedi-me do Tejo com um até já e tive a certeza dos teus olhos por entre os pedacinhos de ouro na ondulação.

Liliana





"Nem sempre os dias são dias passados


A ver os restos dum porto de abrigo


Quando era pequenino era soldado


Os cartuchos punha-os dentro do umbigo



Às vezes faço de conta que acredito


Nas cantilenas que ouvi do meu avô


Andava Deus menino com um apito


Já o meu avô me aceitava como eu sou



A história não se sente ultrapassada


Por muito menos meu avô era ganhão


A história tem uma gémea malcriada


Só elas são as passageiras do vagão



Era portanto descabida tanta importância


Por muito menos meu avô fazia estrilho


Quando era pequenino era ordenança


Os cartuchos punha-os dentro do umbigo"


José Afonso "Nem sempre os dias são dias passados"