segunda-feira, março 21, 2011

Ó mar salgado....

Diz ao mar que pare de balançar o barco
Pede às ondas que não me desequilibrem no caminho
Convence o vento a soprar de mansinho
Que a minha rota é marítima e é difícil dobrar, da boa esperança, o cabo


A maré que me ameaça não vem da lua nem do sol
vem com a força da inquietação que em mim se faz onda e rebentação
Ah! Soubera eu acalmar esta corrente e, juro, nadaria até à beira-mar
correria pela areia e brincaria nas pequenas ondas da maré vazia


Diz ao mar que me embale o meu canto
Pede às ondas que me afaguem o cabelo
Convence o vento a enrolar-me, dançando
Que nesta rota marítima é em ti que me encanto


Sopram, decididos, os medos do vento norte
Eu, parada, não grito ao mar... nunca lhe soube falar
E o barco agita-se, desce e sobe por entre vagas de amor e morte
enquanto canto à lua para que, em sonhos, me venhas salvar


Diz ao mar que acalme estes medos
Pede às ondas que não espalhem meus segredos
Convence o vento às minhas velas soprar
para esta rota marítima em teu porto atracar

Liliana


domingo, março 20, 2011

Pelo que esperas Chico?


Há uma hora em que os ponteiros deixam de contar o tempo do meu tempo. Sais, e contigo saem as horas, os dias, os minutos, que te seguem até ser tempo de voltares.

Todas as vidas têm tempos distintos. Tempo de sonhar, tempo de avançar, tempo de mudar, tempo de esperar. Eu espero o tempo em que o relógio das marés recomeça a andar. A lua força as ondas para que rebentem ora tímidas ora estrondosas na areia que vai escorrendo pela ampulheta até chegar o último grão. Tempo que me foge pelas mão por muito que o tente agarrar.

Há uma hora em que, podia jurar, todos os relógios do mundo se recusam a seguir viagem. O tempo pára quando te afastas. A lua, enregela e deixa de chamar o mar que pára a corrente, transformando o oceano num enorme mar morto.

Todas as vidas têm tempos diferentes, cíclicos, que se sucedem com o passar dos dias. Eu espero pelo tempo em que o mar se balança num suspiro e se espalha, dançando, enquanto se mistura com a areia...
Liliana


"Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol esperando o trem, esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém

Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"

"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

sábado, março 19, 2011

Fala-me do teu pai, Franz...


Posso sempre dizer que foi bom ter-te.

Sim, apesar dos pesares, posso dizer que me deste o amor pelos livros, a paixão pelo cinema e o desejo infindável pela música.

Posso dizer-me que foi contigo que conheci os "Cinco" que me maravilhei com o "Dune" ou que descobri o António Pinho Vargas... não estarei a mentir-me nem a colorir a história.

Aliás, posso dizer-me que foi contigo que aprendi o que são histórias, lidas vistas ou ouvidas (só muito mais tarde percebi que podiam ser contadas).

É também verdade que foi contigo que conheci pesadelos que inundam o quarto enquanto dormes, com tal força que não dão tempo para nadar e sair pela janela, afogando-te no sonho e levando-te para outro hemisfério tão absurdo como longínquo.

Mas posso dizer-me que foste tu que me ensinaste a escrever com os textos que publicavas no jornal e em relação aos quais fazias questão que eu lesse e, claro, opinasse.

Posso mesmo dizer-me que foste tu quem me ensinou que as opiniões podem ser diversas e que discuti-las pode ser um processo de aprendizagem para todos (embora sempre desconfiasse que pouco aprendias nessas tertúlias).

Foi contigo, posso dizê-lo igualmente, que me habituei a reparar nas incoerências das histórias, nas falhas das gravações, nos defeitos das projecções, no desequilíbrio sonoro dos equalizadores e colunas... foi contigo, portanto, que me descobri ser exigente com o que leio, oiço e vejo.

É também verdade, que foi contigo que aprendi uma certa forma de abandono pelo silêncio pela despreocupação pelo afastamento pela desatenção, no fundo, pelo absurdo.

Mas, há sempre um arco-íris que brilha algures no mundo. E, posso dizer, foi contigo que vi as várias versões de uma das histórias que mais me marcou e me acompanha desde sempre...
Soubera eu onde estão os sapatinhos vermelhos e, quem sabe num dia de pesadelos, entrava no teu quarto, batia os calcanhares e trazia-te de volta a casa. Até porque, como reza a história: "there's no place like home" (seja isso o que for...).
Liliana

"Claro que não quero dizer que aquilo que sou se deve apenas à tua influência. Seria um grande exagero (e eu até tenho tendência para estes exageros) (...)se tivesse crescido completamente fora da tua influência (...)ter-me-ia tornado um ser completamente diferente daquilo que sou(...)"

"Carta ao pai" de Franz Kafka