sexta-feira, março 11, 2011

Vou ver o Sol chegar...

"Vá, não vejas só a chuva, olha o céu e, através das nuvens vê o Sol que brilha. Porque ele brilha mesmo quando não o vês, por isso levanta os olhos... e sorri!"

Tentei... olhei.
Concentrei-me.
Esforcei-me por ver o que não via.
Desiludi-me... chovi.

Sentei-me no muro de pedra baixo e torto e olhei novamente o céu, pergunta gritada ao silêncio da cidade.
Deixei-me molhar pela água límpida das nuvens escuras, quieta, procurando um sol que devia brilhar algures... mas que se escondia, longe de mim.
Os dias de chuva deixam-me assim, afastada do mundo por detrás de um manto escuro de nuvens.

Levantei os olhos e, por entre as nuvens escuras, brilhava um pequeno, mas bem demarcado arco-íris.
Pendurado, estendido
numa corda invisível, gritava a resposta no silêncio da cidade.

Não vi raios de sol rompendo o cinzento do céu.
Não vi uma luz brilhante afastando as nuvens e secando a chuva.
Vi apenas a marca silenciosa da aliança.
Levantei bem os olhos, deixei cair a água límpida pela cara, e sorri!

Liliana

quinta-feira, março 10, 2011

Dá-me a mão, Clarice...

Conta-me o que é feito dos nossos risos que ecoavam pelos olhos bem abertos e as mãos com vontade de se apertar.
Diz-me onde está a ansiedade que brincava às escondidas por entre as almofadas nas noites brancas de verão?
Sabes onde guardámos a tranquilidade das tardes de sábado com que barrávamos o pão torrado, alegremente sentados no chão?

Procura os dias claros em que o mundo, parado, se instalava nas nossas mãos e o tempo corria connosco e não contra nós.
Ajuda-me a desenterrar a esperança com que corremos dia-após-dia, num rodopio de partilhas coloridas pelos sonhos.

Tens contigo o meu sorriso?
Procuro a tua gargalhada nos meus bolsos...
Encontraste os meus beijos na gaveta?
Abro um livro à procura dum carinho...

Conta-me, onde se perderam os nossos risos no passar das luas?
Diz-me, onde está a ansiedade que arrefeceu com o inverno?
Quero saber da tranquilidade, porque tarefas ou afazeres a trocámos?

Diz ao tempo que devolva os dias em que sonhávamos juntos!
Manda o sorriso entrar e aquecer o carinho escondido na gaveta!
Pede às gargalhadas que de novo habitem os beijos!

Liliana



"Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.

Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer (...), antes de ter coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono."

in A paixão segundo G.H.
de Clarice Lispector


segunda-feira, março 07, 2011

Vem!

Aqui o silêncio é escuro e a noite é fria.
Aqui as árvores são altas e os ramos magoam.
Aqui, aqui à beira deste rio onde molhamos os pés como crianças.

Espero pela lua, que ilumina os caminhos que te trazem até mim.
Espero pela barca que vem na corrente e te devolve ao meu cais.
Espero, aqui onde te sentaste ao meu lado num dia de sol.

Temo o vento que me enregela as veias.
Temo os fantasmas que se confundem com as sombras.
Temo o eco das minhas palavras gritadas ao silêncio.

Procuro-me na água que me embala os sonhos.
Procuro-te nos sonhos que me aquecem a alma.
Procuro-nos na noite em que a lua se escondeu no pó.

Perdi-me neste sonho - Grita!
Perdi-nos no dia que corre - Sonha!
Perdi-te numa lua que não vi - Vem!

Ouve-me! Espero encontrar-nos de volta à beira deste rio.
Fala-me! Espero ter-te de novo aquecendo o meu corpo.
Vê-me! Espero sonhar-te outra vez com o sol a brilhar.

Liliana