domingo, março 06, 2011

Porquê este vazio, Jóse?!

Sabes de que tamanho é o vazio que me espreita de hora-a-hora? É maior que eu, esconde-se no fundo de mim, finge que não existe, mas está lá, sempre, à espreita.
Quero sair e não consigo, mas lanço sempre a mão à procura da corda...

Sabes o que é ter o vazio dentro de ti? É procurar continuamente a nascente dia-a-dia e encontrar o poço seco, todas as noites.
Luto por me manter completa, cheia, luto para não me esvaziar num sentimento que me amordaça, luto por manter a minha voz viva.

Sabes como é olhar para o espelho e não não ver imagem alguma do outro lado? É sentir este enorme vazio que não me engole, mas me persegue e me abafa sem me deixar espaço para ser, falar, sonhar.
Tento lembrar-me de mim, procurar-me por entre as memórias e refazer-me do nada.

Sabes o que é ter um peso no peito, querer respirar fundo e sentir-me apertada num espartilho de varas, sem forças para andar?
Procuro manter a esperança viva, manter o equilíbrio, de pé, na corda bamba.

Tenho um enorme vazio dentro de mim, que tento encher com as mais variadas coisas, mas ao qual não consigo fugir.
Continuo sempre a sorrir, à falta das lágrimas secas no deserto, e sei que tenho de avançar, tenho sempre de continuar...
Liliana



"(...)
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
(...)"

"Inquietação" de José Mário Branco

sexta-feira, março 04, 2011

Silêncios...

Uma porta aberta em par, com a corrente, num longo arrastar se fecha, rangendo baixinho, gemido dorido da verdade.

Uma janela para a sala onde o silencio é livre de gritar, um navio que parte ao fundo, no mar, e te rouba aos poucos pela ondulação enquanto te vejo, ao longe, a cantar.

Uma flor que o sol aquece e, para ele, se abre em mil pétalas e logo percebe que a hora da lua chegou e, ela, de flor nunca passou.

Aquele rio que tranquilamente corre, numa manhã fria de sol, ainda ontem me sorria e hoje, apenas ao fundo me acena, já não com o mesmo calor, juraria.

O horizonte que consegui vislumbrar, logo na noite se escondeu, mascarou-se de verdade e, nela, o meu sonho adormeceu.

Terei força para não deixar a porta bater, o navio partir, as pétalas conter, o rio acalentar e o sonho acordar?!

Quererá a porta aberta ficar, o navio no meu porto atracar, as pétalas em em flôr abrir, o rio para mim correr e o sonho, finalmente, sorrir?!
Liliana


quarta-feira, março 02, 2011

Vês o ritmo que balança no ar, Tom?!

Há um ritmo diferente na margem do meu caminho.
Descobri-o no meio da tralha, entulho dos dias, que acumulo sem me dar conta por entre os lençóis os sofás atrás das panelas na mala do carro na carteira nos bolsos...

Há um ritmo que me altera a pulsação e me faz respirar à margem do meu compasso.
Tropecei nele num dia frio de nevoeiro e chuva e, aos poucos, dei-me conta que o trouxera comigo.

Há um ritmo diferente que balança à margem dos barulhos do dia-a-dia da cidade.
As pessoas os carros as crianças todos parecem alheios a ele, ritmo desigual a que o meu corpo já se habituou e, naturalmente, segue.

Toca um ritmo diferente à margem das músicas da rádio e dos MP3 e dos CD's, e é esse o ritmo que danço, é esse o ritmo que canto, é esse o ritmo que marca o meu conto...

Liliana


"Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Seu doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor"

"Garota de Ipanema" de Tom Jobim