segunda-feira, fevereiro 21, 2011

De quem é este coração, Fernando?!

Sabes aquela caixa pequena, de cartão castanho com uma fita rosa que enrolava em volta e fechava num lacinho? Preciso dela.

Traz-ma num instante que tenho de conter esta onda que me invade dum silêncio que não sei ler.
Traz-ma depressa que o frio espalha-se pelo corpo e me tremem as pernas com o aproximar deste vazio que me atormenta.
Pego na caixa com a fita pendurada e embrulho o meu coração neste pequeno mundo castanho onde nada o abala.

Se ao menos a fita fechasse a caixa, o coração salvo dos abalos e das ventanias.
Se ao menos a caixa vedasse o som, o coração desconhecia o barulho ensurdecedor do silêncio que me obriga a tapar os ouvidos e enxaguar os olhos.
Se ao menos a caixa confortável, o coração não se sentia apertado, contorcido entre os avanços e recuos da vida.

Sabes da caixa pequena de cartão castanho e fita cor-de-rosa que usavas quando eras pequena para afastar os pesadelos, para reconhecer a realidade no meio dum ciclone, para te reconhecer por entre as várias imagens reflectidas no espelho?
Lembras-te como apertavas o coração na mãos até o encaixar lá dentro, depois com muito cuidado, enlaçavas a fita cor-de-rosa e, num instante, te sentias tranquila, segura e destemida. Lembras-te?

Traz-ma depressa para que os sonhos não acordem e sobressaltem a realidade.

Liliana



"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém."

"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa

in "Cancioneiro"

domingo, fevereiro 20, 2011

Leva-me ao teatro, Harold...


Sou invisível. Não me vêem ou ouvem. A acção decorre longe de mim e não sou eu quem controla a porta para o palco.

Os actos sucedem-se sem a minha intervenção, só tenho parte do guião e quanto às outras, desconheço-as. Vivo assim, a história em episódios salteados, inventando coerências, criando fios-condutores que podem estar a anos-luz do verdadeiro sentido da peça.

Chamo-te para que abras as cortinas ou me deixes sentar em frente do cenário. Nada é o que parece, ou talvez até seja, mas eu não o posso saber. Não me respondem, cada um desempenha o seu papel num palco, em cenários longínquos.

Às vezes encontramo-nos entre dois actos e, no curto intervalo entre cenas, despimos os personagens e olhamo-nos sem medos. Mas os ponteiros seguem, e as entradas, cronometradas pelos olhos dos figurantes, devem ser cumpridas para não comprometer as peças em cena. Voltamos aos palcos, distantes, e seguimos as falas que o ponto nos dita.

Nas cenas más, desligamos dos outros, para não os envolvermos ou perdermos o rumo do nosso próprio personagem. E é então, a sós, que lutamos com nossos adamastores e moinhos de vento.

Até o próximo intervalo...
Liliana




"Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece."

Harold Pinter

"Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

sábado, fevereiro 19, 2011

Como chegar ao longe, Robert?

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
As margens cruzam-se em pequenas penínsulas, lagos de consolo, isoladas da corrente que embate nas pedras e revolve o fundo turvando as águas.
Abre-se a janela à força do vento e o teu cheiro invade a sala, palavras que saltitam por entre as memórias projectadas no tecto e se fazem ouvir em pequenos ecos que me embalam a alma.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
Encruzilhada de ideias, as estradas que se separam e dividem em pequenos caminhos por ladrilhar. Procuro os tijolos e tento construir um caminho pessoal, único e verdadeiro, mas o terreno baloiça, desajuda nas covas e lombas e acabo cansada e sem fôlego.
As janelas batem e volto à sala onde, sem êxito, procuro reparar as rachas das paredes brancas.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
Enrolo-me num casulo de lã, cobertores que teço ao ritmo da lua que enche e desaparece.
Acordo no meio duma noite escura, com esforço abro as asas e saio pela janela num voo de borboleta em busca de luz. Não há lua, as estrelas fogem-me, bato as asas num frenesim absurdo até perder as forças e pousar na margem mais tranquila.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe....


Liliana
"Pois, em verdade, o cavaleiro era o ribeiro. Ele era a Lua. Ele era o Sol. Podia agora ser todas essas coisas ao mesmo tempo, e mais ainda, porque estava em uníssono com o universo.
Ele era amor."
Robert Fisher
in "O Cavaleiro da armadura enferrujada"