sábado, fevereiro 19, 2011

Como chegar ao longe, Robert?

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
As margens cruzam-se em pequenas penínsulas, lagos de consolo, isoladas da corrente que embate nas pedras e revolve o fundo turvando as águas.
Abre-se a janela à força do vento e o teu cheiro invade a sala, palavras que saltitam por entre as memórias projectadas no tecto e se fazem ouvir em pequenos ecos que me embalam a alma.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
Encruzilhada de ideias, as estradas que se separam e dividem em pequenos caminhos por ladrilhar. Procuro os tijolos e tento construir um caminho pessoal, único e verdadeiro, mas o terreno baloiça, desajuda nas covas e lombas e acabo cansada e sem fôlego.
As janelas batem e volto à sala onde, sem êxito, procuro reparar as rachas das paredes brancas.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
Enrolo-me num casulo de lã, cobertores que teço ao ritmo da lua que enche e desaparece.
Acordo no meio duma noite escura, com esforço abro as asas e saio pela janela num voo de borboleta em busca de luz. Não há lua, as estrelas fogem-me, bato as asas num frenesim absurdo até perder as forças e pousar na margem mais tranquila.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe....


Liliana
"Pois, em verdade, o cavaleiro era o ribeiro. Ele era a Lua. Ele era o Sol. Podia agora ser todas essas coisas ao mesmo tempo, e mais ainda, porque estava em uníssono com o universo.
Ele era amor."
Robert Fisher
in "O Cavaleiro da armadura enferrujada"

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Não chores Cecília...

Não te magoes.
Não te envolvas.
Não chores!
Não sintas.
Não fales.
Não te mostres.
Não olhes.
Não chores!
Não oiças.
Não penses.
Não perguntes.
Não magoes.
Não desejes.
Não chores!
Não esperes.
Não ouses.
Não sonhes.
Não falhes.
Não faltes.
Não chores!
Não te apoies.
Não respondas.
Não decidas.
Não chores!
Não pares, avança...
Não chores!
Não te curves, corre...
Não chores!
Não te queixes, vai...
Não chores!
Não chores!
Não chores!


Liliana



"Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.

Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caido."

Cecília Meireles (Elegia 1933-1937, 1)

in Antologia Poética

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Arrisco Pablo?!

Acedo »» aceito «« permito »» autorizo
Decido «« arrisco »» avanço «« ouso



Acedo? ----- Decido...
Aceito?! --- Arrisco!
Permito? -- Avanço...
Autorizo? -- Ouso!

Ouso? ------ Aceito.
Arrisco... ------ Acedo?
Avanço! -- Autorizo...
Decido? ---- Permito!

Talvêz só ouse aceitar. Quem sabe, às vezes, decido aceder... Normalmente avanço, permitindo. E, quando arrisco, quase sempre autorizo...

Liliana



"(...)
Onde está a criança que fui,
vive dentro de mim ou morreu?

E quem ficou a viver por mim
quando dormia ou estava doente?

E que importância tenho eu
no tribunal do esquecimento?

Em que janela fiquei
a olhar o tempo sepultado?

Ou o que olho de longe
é o que ainda vivi?
(...)"
Pablo Neruda in "Livro das Perguntas"