segunda-feira, fevereiro 14, 2011

O que há no fundo do poço, Etty?


Há em mim um poço, fundo, de onde nascem os medos se levantam os fantasmas e que se alimenta da inquietação.
Há dias em que tapo, cuidadosamente, a entrada escura com um manto de flores que apanho nos campos confiantes e férteis.

Dias há em que o vento se rebela e num sopro forte, ondula os campos e espalha as flores desordenadas pelo chão frio de uma casa desarrumada.
Nesses dias, em que não encontro o arco com que me pinto e salpico a vida, sinto uma força imensa que me chama para esse buraco escuro onde me sinto cair, Alice num mundo desencantado.

Sei da luz com que, por vezes, ilumino as noites e até da serenidade com que, de tempos a tempos, consigo viver, mas oiço apenas o vento a soprar...
Sei das cores e dos lagos e das flores que em mim vivem, mas sinto apenas a dúvida, a prisão, a força que me falta...
Sei dos cânticos e das danças e das palavras que em mim moram, mas vejo apenas o vazio, o silêncio e a solidão...

Quem dera... Quem dera saltar por cima dos medos e no fundo do poço encontrar, apenas o meu reflexo num espelho de distorcer, como os das Feiras, dar a volta e perceber o truque, entender as razões e rir comigo própria... Quem dera... Quem dera descer e encontrar o fio-condutor que me faz falta para equilibrar a bússola e descobrir o caminho de volta... a mim.

Há em mim um poço tão fundo, tão escuro, que não me atrevo a desenterrar o que lá está com medo da dor que me pode secar.

Seria esse o segredo para todas as perguntas?...

Liliana



"Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo."

(Etty Hillesum in Diário - 26/8/1941).

domingo, fevereiro 13, 2011

Viste hoje o mar a transbordar, Fausto?!

Hoje o mar entrou pelo meu rio dentro, misturando as águas, revolvendo as ondas, embatendo nas margens.
Hoje o mar entrou pelo meu rio e fez a a corrente andar ao contrário, e de mim barca perdida que vai da foz à nascente.
Hoje o mar entrou no meu rio, em pequenas gotas salgadas que se diluíram, tingindo o leito com cores que desconheço.

No meio da maré, perdi a menina que cantava alegre entre as portas da sala. A agua varreu os sonhos, encantos que flutuaram pelo meio de bonecas, vestidos e laços. E o sal secou os sorrisos que lembravam outro rio, de água doce e cristalina, por entre carinhos e mimos de criança.

O mar não pediu licença, quando entrou pelas janelas da sala abertas em par, para o sol que iluminava a criança encantada. O sal colou-se-lhe à pele e as mãos secas obrigaram-na a crescer, crescer, envelhecer... antes mesmo de encontrar o tal do planeta de onde, jurava, ter vindo.

Hoje o mar entrou pelo meu rio e as ondas bateram nas rochas e levantaram-se no céu.

Pedi-lhe de mansinho que se afastasse. E ele, quem sabe com pena, quem sabe por amor, retomou a corrente e voltou ao seu leito, de mansinho, como quem pede desculpa. Repôs a menina, as janelas, e até as cantigas alegres no ar. Mas os sonhos, esses, escorreram salgados dos meus olhos embaciados...
Liliana





"Meu amor adeus
Tem cuidado
Se a dor é um espinho
Que espeta sozinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz o nó
E desata um grito
Um mau olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono
Porque não me vês
Maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha um perfume
Que me agonia
Vem me ver amor
De mansinho
Se a dor é um mar
Louco a transbordar
Noutro caminho
Quase a espraiar
Quase a afundar
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono"

"Porque não me vês" de Fausto

in Por este rio acima

sábado, fevereiro 12, 2011

Não sei se devia...

Não sei se devia...

Não sei se devia olhar para o espelho emoldurado a azul escuro, na parede do fundo em cima do móvel.
Não sei se devia ouvir o que búzio sussurra deitado na cama de areia e pedras que me magoam os pés enquanto avanço pela praia.
Não sei devia espicaçar a vontade e planar pelas núvens recortadas no céu de verão.

Não sei se devia...
Não sei se devia provar o bolo, lamber o dedo com a cobertura de chocolate e as pepitas coloridas.
Não sei se devia sonhar com a lua e tentar apanhá-la com uma rede enquanto passa de nova a cheia, pelo meio das estrelas cadentes.
Não se devia espreitar pela fechadura da porta mais pequena que dá para o jardim, onde o as horas fogem do coelho.

Não sei se devia...
Liliana